Nani, o fim dos tempos românticos

23 de Novembro de 2007

Nani, o fim dos tempos românticos

Quando se contrata um jogador de futebol, contrata-se, ao mesmo tempo, o ser humano que o emoldura e condiciona. Embora o que salte à vista seja a finta ou o golo, aquilo que dita verdadeiramente o destino da sua carreira é o segundo parâmetro. Nele se esconde a capacidade de colocar em prática os primeiros traços que cativam só de olhar. Há muitos casos para exemplificar esta situação. Quando soube da ida do Nani para Manchester, pensei que talvez não fosse a hora certa. Não pelo talento fantástico do jogador, mas pelo tal lado humano. Pensava na maturidade emocional para enfrentar uma dureza competitiva muito diferente, mais exigente e física, pensava na crise existencial que tivera há poucos meses no Sporting, onde chegara a ser assobiado. Duvidei se não seria demasiado cedo para o salto. Poucos meses depois do início da época, porém, Nani já conquistou Inglaterra. A todos os níveis. Encara a dimensão física do jogo, «come» os adversários com insolência, assume o drible e o remate, falha, encolhe os ombros e volta a tentar. E a marcar. Joga como se nunca tivesse jogado noutro local desde miúdo. Técnica e carácter.

Nani, o fim dos tempos românticosHá dias, numa conversa com gente do futebol, falei de tudo isto e confessei que a explosão tão rápida de Nani em Inglaterra que me surpreendera. “Dizes isso porque não conheces a cabeça do Nani”, responderam-me. Não, não conheço, de facto. Pois bem, é nesse ponto que mora a resposta para tão rápida adaptação. No ser humano que coloca em prática aquele seu futebol. Mesmo antes dos jogos, Nani já conquistara o respeito dos próprios colegas de equipa, que, patriarcas do balneário, recebem os novos jogadores acabados de sair da casca com saudável sobranceria. Faz parte do ritual. Numa troca de bolas durante um dos primeiros treinos, um desses veteranos, quase como praxe, entrou duro sobre Nani, com um «carrinho» que o deixou aterrado na relva. Em vez de ficar no chão, com receio ou lamentando-se, o leãozinho levantou-se, perseguiu o veterano, e fez-lhe então ele um «carrinho» decidido. Roubou-lhe a bola com limpeza e saiu a jogar com ela dominada e cabeça levantada. Estava conquistado o respeito de todo grupo. Veteranos, colegas normais, treinadores e roupeiro.

Nani, o fim dos tempos românticosA seguir, o jogo é apenas um prolongamento deste carácter que transporta de Massamá para Manchester. A influência do jogador no jogo é, assim, um processo mais complexo do que o simples vestir de uns calções e chuteiras. Seja com que equipamento for. Na selecção, também. E, nesse caso, até de forma menos protegida, pois não existe o casulo prévio que as estruturas de um clube e seu balneário criam. Na selecção, ele muda de jogo para jogo. Com Scolari, porém, para fazer a tal blindagem do vestiário e seu grupo, ele variou pouco até o verão de 2006. Depois disso, entrou-se numa nova era. Na construção de um «novo plantel». Quaresma, Bosingwa, Hugo Almeida, Nani. A mecânica do «clube Portugal» sentiu o abalo, dentro e fora do campo, de mexer-se com os hábitos adquiridos. Nestas alturas, mais do que o talento e a técnica, é a capacidade de cada jogador em lidar com o seu ego que pode fazer a diferença. O futebol romântico, aquele que coloca o bom jogo à frente do resultado, nunca existiu.

Até no «futebol de rua», quando miúdos, todos queremos ganhar acima de tudo. Nani faz-me lembrar isso. E hoje, para estarmos mais próximos da vitória, não há melhor caminho do que voltar ás origens da picardia do jogar bem. Sermos românticos, afinal.