Nº 10: GALERIA DE ARTE

01 de Outubro de 1998

Nº 10 GALERIA DE ARTE

No final dos anos 40, em plena colonização francófona no Norte de África, os gauleses descobriram uma pérola negra a jogar descalço nos pelados de Casablanca: Larbi Ben Barek. Nessa altura vivia em Marrocos, onde cresceu, um homem que mais tarde seria considerado o treinador dos treinadores, Helénio Herrera, argentino, para uns el mago, para outros el Diablo: “As ruas de Cablanca foram uma bela escola da vida, aí joguei com árabes, espanhois, italianos, portugueses, etc” Nos gestos natos dos míudos da rua, descobriu os traços tipicos de cada futebol que depois, como técnico, soube colocar ao serviço dos seus discutidos conceitos tácticos. O mágico Ben Barek, personificação do futebol puro, rebelde e alegre, foi uma das suas descobertas. Esteve com ele no Stade Français e mais tarde, em 50, levou-o para o At. Madrid, onde foi duas vezes campeão espanhol. Com Ben Barek a bola sorria durante noventa minutos. Depois dos anos da guerra, quando se começava a falar da importância da força fisica no futuro do futebol, surgiu um cerebral e franzino jogador uruguiaio, filho de italianos emigrados, chamado Schiaffino. Elegante e com a agilidade de uma serpente, evitava as jogadas de choque, driblava como respirava e fazia a bola girar por todo o campo. Campeão do Mundo em 50, eterna assombração brasileira, fez carreira em Itália, por quem chegou a alinhar, e foi três vezes campeão com o Milan. Na mesma época, jogou o jugoslavo, Bobek, expressão de técnica e carácter, dizia-se parecer ter sempre o destino do jogo nas mãos.

(Texto de 98-10-01) Com o nº10 nas costas um jogador até parece melhor. O meio-campo, seu habitat natural, foi sempre o segredo das grandes equipas. É nesse espaço estratégico que quase sempre habitam os poetas do futebol, aqueles que com a sua genialidade o elevam á categoria de arte. “O jogador de futebol devia colocar uma bola debaixo da cama, para logo ao acordar tocar nela, acariciá-la, ganhar sensibilidade, dar o toque inicial e, assim, criar intimidade com ela” Palavras de Didi, cérebro do meio campo brasileiro no Suécia-58, o inventor do livre em folha-seca, criado nos últimos minutos de um Brasil-Perú, em 56, no Maracanã. Didi era classe sul americana. Técnica em passes de sambista. A sua leitura de jogo era a forma sublime de equilibrar uma equipa de estrelas preocupações tácticas. Pelo meio campo passou a evolução táctica do futebol, sobretudo desde 1954, com o 4-2-4 húngaro, reinventado em 1958 pelo Brasil, referência básica a partir do qual surgiram o 4-3-3, o 4-4-2 e o 5-3-2, sistemas reveladores das tendências cada vez mais defensivas, num momento em que os profetas tácticos do presente idolatram o 3-4-3 como o elixir mágico do bom futebol, ofensivo e ao mesmo tempo defensivamente seguro. Uma coisa é a táctica, outra é a dinâmica da táctica.

Nº 10 GALERIA DE ARTEO futebol moderno consagra os laterais ofensivos, criação de Helénio Herrera no inicio dos anos 60, condena os extremos de raiz (nostalgia de Garrincha, Gento e Jair) e glorifica os trincos (Dunga, Véron, Deschamps), cabeças de área, os carregadores de piano, recuperadores e transportadores de bola. No futebol moderno eles são os novos donos do meio-campo, decisivos na ligação defesa-ataque, manobra burocrática nem sempre fácil de executar com velocidade. Neste cenário, os clássicos nº10 (Pelé, Zico, Maradona) atravessam uma crise existencial, o que levou Platini a afirmar que hoje este tipo de jogador não é nem nº10 nem nº9, é um 9,5. Um oasis entre os avançados e o resto da equipa, onde vivem homens como Bergkamp, Rivaldo, Baggio, Mijatovic, etc. Desde 1930 até ao presente, quatro gerações de artistas e tácticas nos contemplam. Mesmo sendo dificil comparar jogadores e épocas, e que o futebol sul-americano, onde se deixa crescer a relva para a bola rolar maís lentamente, tem uma expressão técnico-táctica diferente da do velho continente, como diria Di Stefano na América do sul a bola parece um cerdo na Europa parece uma gazela, não há dúvida que estes homens seriam sempre grandes jogadores em qualquer tempo, em qualquer época.

O pioneiro Mundial uruguaio apresentou ao mundo os primeiros maestros do futebol. Eram os tempos do romântico 2-3-5, sem grandes complexos defensivos, onde o talento corria solto. Nesse palco de mil maravilhas, no tempo dos pachorrentos barcos a vapor, a história mitificou Andrade, o primeiro grande jogador negro da história do futebol mundial, ao lado de Scarone, inspirador da equipa celeste que dominou de 24 a 30, com um sentido táctico e colectivo invulgares naquela época. Poucos dos que virão jogar Andrade estarão hoje vivos, mas para a história, aquele homem que conciliava a sua grande visão de jogo com pormenores artisticos que assombravam multidões, foi o primeiro fenómeno do futebol mundial. Num tempo em que atravessar Oceanos durava meses, nunca quis sair do seu Uruguai, jogou sempre em Montevideu e depois de abandonar o futebol, entregou-se á música e á dança. Anos mais tarde descobriram-no em Paris, como... artista de variedades. Com o WM (3-2-2-3), criação táctica do inglês Herbert Chapman, feiticeiro do Arsenal, o meio-campo, outrora pouco fértil em talentos, tranformou-se no local priveligiado da aristocracia futebolistica. Foi dentro desse estilo que Victor Pozzo desenhou a selecção italiana campeã do mundo em 34 e 38, numa squadra que idolatrou os registas Ferrari e Meazza, este também muitas vezes avançado centro. Ambos demonstravam, dizia-se, uma inteligência táctica e uma leitura de jogo únicas naquele tempo.

A partir dos anos 50 as competições por clubes deram um novo sentido ao mundo futebol. No inicio da década brilhou um sobrenatural grupo de jogadores húngaros, onde estavam Kubala, misto de força e técnica, Kocsis, cabeça e ouro, e Bozsik, o magiar capitão do Honved, para Herrera o jogador mais inteligente que viu jogar. Todos estes homens eram monumentos ao nº10, mas em 54 seria um alemão, de estatura pequena para a típica morfologia germânica, a consagrar-se rei do mundo: Fritz Walter, um verdadeiro leader com grande sentido de passe e nobreza de jogo. Até esta data a história fala destes grandes jogadores enaltecendo a sua postura, técnica e profissional. O futebol ainda não era uma questão de vida ou morte. Até que apareceu o temperamental argentino Sivori, a fúria das pampas ao serviço da sedução artística. Alternava o seu talento, capaz de dribles estonteantes e jogadas vertiginosas, hinos ao clássico “um-dois”, com discussões com árbitros e colegas, sururus tipicamente sul-americanos. Provavelmente, o primeiro génio louco do futebol mundial.

Nº 10 GALERIA DE ARTEOs anos 60 marcaram uma nova era no futebol. A capacidade física torna-se decisiva para suportar a pressão dos 90 minutos. Emergem os registas italianos, Mazzola e Rivera. Em 70 toda a Itália viveu o drama táctico da sua selecção que, presa ás suas convicções defensivas, não sabia fazer jogar juntos estes dois maestros. Um drama igual ao de Baggio e Del Piero em 98. De facto, há coisas que nunca mudam. O veloz espanhol Suarez, regista de passes curtos e longos, sempre a alta velocidade, marcou uma época no Inter. Com o cabelo cheio de brilhantina, brilhava ainda mais nos jogos á noite. O Verão de 66 consagrou o monstro do futebol inglês: Bobby Charlton. O seu estilo latino junto com um racional temperamento very british deu ao seu jogo uma dimensão mítica. Começou como médio-esquerdo e terminou como nº10. Tinha um potente remate e em todos os movimentos pensava sempre que há sua frente estava uma baliza e era lá que a bola devia estar e não nos seus pés, por mais que gostasse dela. Mas nada disto fazia sentido se não tivesse existido Pelé. O Rei do, que, nas palavras do sábio Luiz Mendez, nasceu para o futebol, trouxe no sangue o ritmo aplicado ao futebol e jogava com a elegância de um sambista do morro, driblava com a firmeza de um passista e as suas arrancada faziam-nos escutar uma estranha sonoplastia, como se rufassem tambores. Pelé era a mescla de tudo o que foi bom e é bom nos outros craques, em seu génio ele concentrou o próprio futebol.

Em Portugal, Coluna, nº10 dos magriços, era o homem que pensava o Benfica de Eusébio. Deve-se ao talento africano o Olimpo do futebol português. Nunca mais ninguém se aproximou destes fabulosos moçambicanos. No Euro-96, Platini disse aque Portugal tinha o melhor nº10 da prova: Rui Costa, mas num futebol secularmente de médios, causa-nos inquietação que nomes como Oliveira, Alves, Sousa, entre outros, nunca tivessem atravessado fronteiras. Na Alemanha, Netzer era o homem das passadas terrificas. Calçava 47!. Quando terminava o jogo o meio campo parecia que tinha sido atravessado por uma manada de elefantes. No Brasil, para além de Pelé, o fabuloso pé esquerdo de Rivelino, classe e garra. Na Polónia, Deyna, teoricamente desenhador industrial de profissão, foi o grande mentor do futebol polaco. O peruano Cubillas, que jogou um ano no FC Porto, não só fazia muitos golos, como conduzia a bola através do meio campo com a mesma naturalidade com que corria numa praia deserta. Na Holanda, não seria exagero um processo de canonização para Johan Cruyff. Um clássico nº10 com o nº14 nas costas. Classe, velocidade, mobilidade, condição física, visão de jogo, drible e remate. Tudo com coragem e inteligência. Para o futebol total, um jogador total.

Nº 10 GALERIA DE ARTEEm 78, quando se começava a ouvir falar num pequeno génio que corria atrás da bola com a mesma velocidade com que fugia da miséria do bairro pobre que em menino habitara nos arredores de Buenos Aires, a Argentina festejava o seu mundial decorado com milhares de fintas de mestre Ardilles. Depois surgiu Maradona e para os amantes do futebol ficou definitivamente provado que Deus existe. Ao lado do pelusa tudo parece banal, mas o bom futebol conhece muitas expressões. Em França, Platini, que desde cedo aprendeu que a bola corre sempre mais do que ele. Só que seria ele a dizer-lhe como e quando correr. Assim até se podia dar ao luxo de deixar crescer uma pequena barrigudinha... Na Áustria, Prohaska, possante ameaça. Na Bélgica, Scifo, finesse estética. Dois estilos para um mesmo espaço. O Brasil não conquistou nenhum Mundial nos anos 80, mas para todos o seu futebol-arte foi uma criação divina, com Zico num meio-campo onde também passeavam Sócrates e Falcão. Quando em 94 conquistou o tetra, prescindiu do seu clássico nº10: Raí. Sinais dos tempos, pois claro.

Enquanto as ragazzas italianas sonhavam com Antognoni, a Alemanha regressava aos dias de glória com Matthaus, que parecia capaz de jogar três jogos seguidos com a mesma força e clareza de ideias, e o Uruguai suspirava pelas proezas do inicio do século com Francescoli. Na memória estão, ainda, imagens de mitos como Di Stefano, Eusébio ou Puskas a jogar recuados no papel de registas. Não era, porém, o seu verdadeiro lugar. Esta era outra casta de jogadores, os avançados centro, clássicos nº9 que jogavam sempre de olhos postos na baliza. No final de carreira, com menor fulgor físico era natural que recuassem no terreno. Di Stefano jogou, com 37 anos a sua última final da Taça dos Campeões pelo Real Madrid, frente ao Inter, como médio, mas aquele já não era o verdadeiro Don Alfredo. No ano seguinte diria adeus ás canchas. O França-98 confirmou que os clássicos nº10, aqueles que arrumam a casa e além disso a decoram com flores, estão a desaparecer. Zidane será o último nº10 á moda antiga?

Nº 10 GALERIA DE ARTEO futebol do presente glorifica as personagens duras e alimenta-se dos mitos do passado. Os talentos continuam a existir, mas a ditadura táctica desconfia deles. Hoje o segredo do sucesso está em roubar a bola ao adversário, aproveitar o seus erros e apanhá-lo em contrapé. O local de gestação ideal para esse movimento é entre a entrada da área e o meio-campo. A Argentina é uma caso típico. Depois de Maradona, o nº10 ficou com Ortega, mas o patrão da equipa, ainda sem Redondo, é o trinco Véron, um todo terreno. Parece capaz de atravessar o mundo a correr com a bola. Ele é o protótipo do jogador moderno: trabalhador, sério, concentrado, sem grandes rasgos. No fundo, jogadores de grande condição fisica, como Davids, Dunga, Deschamps, Seedorf, Ince, etc. Hoje, sem dúvida, o futebol físico ganha ao técnico. Geneticamente, este tipo de jogador nasce do típico médio defensivo, o nº6. Apenas a sua acção é hoje mais dinâmica.

Ao longo do tempo muitos tornaram esta posição um ponto estratégico na manobra colectiva: Varela, Uruguai, anos 50, Rattin, Argentina, Gerson e Clodoaldo, Brasil, anos 60, Breitner, RFA, anos 70, Tigana e Fernandez, França, Tardelli, Itália, Cerezzo, Brasil, anos 80. É nesse espaço armadilhado que vivem os novos cérebros do presente, quando filosofos como Matthaus, Laudrup, Hagi e Valderrama, registas dos anos 90 chegam ao ocaso das suas carreiras. Muitos outros nomes ficaram por focar. No passado (Del Sol, De Sisti, Dennis Law, Susic, etc) como no presente (Litmanen, Savicevic, Boban, etc). No fundo esta viagem é apenas uma reflexão para quem gosta de pensar e falar de futebol. O jogo de Século.