O canhoto e o bom futebol

19 de Fevereiro de 2006

O canhoto e o bom futebol

1. Messi e o maravilhoso mundo dos esquerdinos
Sabem o que têm em comum Einstein, Marilyn Monroe, Picasso, Charlot e Maradona? São todos canhotos. A juntar a este elenco, onde também poderiam estar Da Vinci ou Rivelino, apontem mais um nome. É o de um pibe de 18 anos também capaz de escrever magia com a bota canhota. Lionel Messi. Em relação aos outros canhotos, Messi tem um traço que faz a diferença dentro do relvado, seja ele bem tratado ou cheio de lama como em Londres: joga sempre a sorrir. É insolente até a andar. Caminha pelo campo como se estivesse ainda no pátio da escola, encara os defesas com a picardia do futebol de rua, provoca-os e brinca com eles como um gato brinca com um novelo de lã. Ou seja, coloca os seus marcadores de pernas para o ar, de patas arriba como diriam espanhóis como Del Horno, o lateral que o tentou marcar esta semana em Stanford Bridge até que, irritado com tanta insolência, após ver o cruel túnel que o canhoto pregara a Robben, resolveu voar sobre ele e assinar a sentença da sua expulsão. No meio da confusão que então se instalou, Messi levantou-se, sacudiu a lama, olhou para todos com o sorriso do diabo escondido, encolheu os ombros e seguiu o seu recital de bom futebol. Com arte, cinema, teatro, pintura e…classe!

Em relação aos homens que jogam nos flancos, velhos extremos, sempre existiu um curioso dilema para os seus marcadores. Eles até entravam em campo já conscientes de qual era a finta favorita do craque que iam marcar. Passavam toda a semana a ser educados pelo treinador para como o travar. “Repara, ele finta para aqui e tu travas, antecipas, metes o pé, etc. O marcador, ouvia, ouvia e até perceO canhoto e o bom futebolbia a lógica. OK, mister ele faz sempre a mesma finta, mas…quando? Pois é, era sempre quando ninguém esperava. E assim, saia sempre certo… O recital de Messi tem, porém, um conjunto de diabruras com vários contornos. Tudo conduzido pela incomparável magia elegante dos esquerdinos, porque como dizia Maradona ““nós, os canhotos, somos muito mais elegantes”. Faz lembrar uma velha história passada com Rivelino durante o Mundial 70 de Pelé. Sucedeu quando, durante um treino, Rivelino decidira com Gerson e Tostão parar um pouco para descansar. Foi então que passou Pele e quando todos já esperavam uma reprimenda por não estarem a treinar no duro, Rivelino olhou para o melhor jogador do mundo e perguntou-lhe: Diz-me a verdade, Pelé, tu terias gostado de ser canhoto, não?

2. Lyon: Projecto de bom futebol

Há várias formas de tentar ganhar um jogo. Partindo de uma posição conservadora, especulando com o jogo, em nome da táctica e do rigor defensivo; ou, partindo de um relação mais apaixonada com a bola, preferindo uma atitude ofensiva, alargando o jogo por todo o campo. São duas formas de estar no futebol, duas propostas de jogo diferentes. Das duas é claramente a segunda que merece maior admiração, sobretudo nos tempos tácticos que correm, onde tentar ganhar arriscando sempre tentar jogar bem marca a diferença quando se fala em bom futebol. Analisando, as grandes equipas do actual futebol europeu, há um onze que, nesta perspectiva de beleza estética, suscita a minha admiração: o Lyon.

Uma das coisas maisO canhoto e o bom futebol sedutoras neste belo projecto-Lyon é a fidelidade a um modelo de jogo atraente, esquematizado em 4x3x3, com extremos puros. Há quatro épocas que joga assim, há quatro épocas consecutivas que vence o campeonato francês. Falta-lhe agora a consagração internacional que o faça ficar na história. Tacticamente, monta um triângulo à frente da defesa, com Diarra como trinco-pivot no vértice recuado, soltando, depois, dois volantes transportadores de bola, o nosso Tiago, que cada vez com mais carácter de líder, é o motor das transições defesa-ataque-defesa, e Juninho Pernambucano, muito provavelmente o melhor marcador de livres de futebol actual.. As asas propulsoras do onze moram, no entanto, sobre as alas, onde Govou e Malouda fazem evoluir o 4x3x2x1 para 4x3x3, com um ponta de lança corpulento em cunha entre os centrais, Carew ou Fred. Apesar da sua beleza estética, é, porém, um onze competitivamente leve para o tal pragmatismo moderno, pois jogando em 4x3x3, só com um trinco, fica muitas vezes em inferioridade numérica a meio campo, jogando, depois, de um para um na defesa.

Todo este tesouro do futebol ofensivo personifica projecto exibicional quase romântico para o realismo dos tempos modernos, com extremos, velocidade e técnica. Não tenho dúvidas, como o vencedor é a referência a seguir pelas outras equipas, o actual futebol europeu, por estar tão aprionado pelo pragmatismo, necessitava que uma equipa como este Lyon se sagrasse campeã europeia.