O DNA canarinho pós-Pelé: A CRISE DO FUTEBOL ARTE

05 de Outubro de 2001

É pacifico que o jogo sul americano sempre teve maior componente técnico-imaginativa que o europeu. Hoje, porém, o oásis da arte gloriosa desvaneceu-se na crise estilistica do futebol brasileiro que desde meados dos anos-70, finda a geração-Pelé, começou a ver o génio preso nas teias tácticas e no novo ritmo de jogo. Observando os magos canarinhos do meio campo, o seu habit natural, nos Mundiais pós-70, detectam-se as indefinições táctico estilísticas brasileiras, que a partir de 74, começou a namorar a táctica, semi-imposta, de forma, digamos, contra natura. Assim, vejamos: 1974-Rivelino, Carpegianni, Paulo César Lima e Valdomiro. 1978-Cerezo, Gil e Batista, alternando com o jovem Zico e o velho Rivelino. 1982-Cerezo, Zico, Sócrates, Falcão. 1986-O fascínio provocado pelo onze de 82 –para alguns estudiosos o melhor escrete de todos os tempos- levou ao México os mesmos magos, só que já todos na ternura dos 30, foram meras sombra errantes dos génios de Espanha. Na frente da defesa, porém, atrás de Zico, Socrates e Falcão, começou a desenhar-se, com Elzo e Alemão, o novo perfil regente do meio campo, mas face ao fracasso da geração-Zico, o Brasil teve a sua primeira grande crise de identidade. 1990-Lazaroni introduz o líbero, disfarçado com a máscara dos laterais ofensivos, Branco e Jorginho, e joga em 1-Mauro Galvão 4- Mozer e Ricardo como stoppers -3 Dunga, Alemão, Valdo -2 Muller e Careca,. A derrota frente á Argentina, expressão pragmática do outro futebol sul-americano, levou ao abandono radical da génese artística brasileira. 1994-Com Parreira, o escrete completou a europeização com um meio campo de recuperadores de bola (Dunga, Zinho, Mauro Silva e Mazinho).

O Brasil conquista o tetra mas perde a arte. 1998-Durante quatro anos viveu um equívoco que só Ronaldo disfarçou. Em França, hipotecado aos trincos Dunga e Flávio Conceição, o Brasil deixou de ser Brasil e falhou o penta. Assim, nos últimos 30 anos, Brasil com sabor dos bons velhos tempos só tivemos em 82, mas os erros defensivos traíram a história poética do seu futebol que, a partir daí, o passou a ter mais ciência que arte. Em 1982, mais do que o Brasil, perdeu o futebol mundial. Quase 20 anos depois ainda se sentem os golos de Rossi.

Memórias do Profeta Raí: Soltem os mágicos!

O DNA canarinho pós-Pelé A CRISE DO FUTEBOL ARTEDizia Cruyff em 98 que para bem da saúde futebolística do mundo, o Brasil não podia ganhar o Mundial, porque... já não era Brasil: “Que a Itália jogue em contenção é compreensível, agora que o Brasil, para ganhar, tenha de jogar em contra ataque e sem arte, é como apunhalar o futebol pelas costas”. Três anos depois, pela primeira vez na história o Brasil perdeu cinco jogos no apuramento para o Mundial. Antes só perdera um. Na Bolívia, em 93. Na base da revolta, mais do que os resultados, está o desvirtuamento do futebol arte que o tornara venerado. Conta Raí que desde miúdo ouvia falar no estatuto do jogador brasileiro no mundo, mas para o provar foi necessário sair do país. Foi em França, no primeiro treino do PSG, num simples exercício de correr com a bola, por entre uma série de cones, trocando-a de pé para pé ao primeiro toque. Mal o comecei fazer, sem falhas, os meus colegas exclamaram: Mais, c`est le Brésil! Fiquei surpreendido, porque em nossa casa, aquilo normal, todos o fazem. Mas, naquele momento, tive em conta que ali era diferente e que tendo esse estatuto particular, tinha de a obrigação de estar sempre á sua altura”.

Com o titulo mundial de 94 e o chamado triunfo do estilo Dunga, o Brasil passaria, no entanto, a consagrar um novo tipo de jogador, de, digamos, menor plafond técnico em comparação com os magos do passado e hoje vive uma crise existencial presa entre o triunfante estilo-Dunga e o desejo de resgatar a magia artística de outros tempos. Esta crise de identidade só poderá ser superado com base em magos como, por exemplo, Djalminha, Roberto Carlos, Rivaldo, Zé Roberto ou Sávio, todos eles com a sua arte genética emoldurada pela mentalidade competitiva europeia, mas inseridos num esquema colectivo base que perdure vários jogos, e não como fizeram Leão e Scolari que em poucos meses convocaram, cada um, mais de 70 jogadores. Desta forma, aquilo que antes era o supremo orgulho de vestir a camisola do escrete –só ao alcance dos predestinados- tornou-se quase banal.