O essencial e o acessório

17 de Novembro de 2006

O enigma estava em reconhecer a inteligência de um jogador que antecede qualquer quadro táctico. Treinadores e adeptos, ambos têm direito a confundir-se por momentos. Os jogadores não. No Porto, vimos o talento de Diego tornado em algo acessório. Em Bremen, vemos o mesmo jogador transformado na essência de uma das equipas que sabe sempre o que quer em campo. No vértice ofensivo de um 4x4x2 em losango, ele nunca perde a posição que lhe permite mesclar a criatividade com a organização de jogo ofensivo.

A Champions tem sido, até ao momento, um bom exercício para perceber o que é essencial e acessório no jogar de muitas equipas. Detectando essas diferenças, percebe-se os seus princípios de jogo. É neste contexto que fazem sentido as chamadas trocas posicionais, quando um jogador surge no espaço vazio de outro, e vice-versa, em função das movimentações colectivas treinadas, procurando através dessa mobilidade criar desequilíbrios nas marcações adversárias. O Bremen faz isso muito bem. Com o trinco Bauman fixo, solta Frings na direita, Schultz ou Borowski sobre a meia-esquerda, e Diego no rombo atrás dos pontas de lança. Se quiser ver outro onze que explica, quase na perfeição, como se fazem as trocas posicionais, siga o Valência. No ataque, também em 4x4x2, Villa e Morientes movem-se em «x», isto é, cruzando-se, na permuta de espaços, entre um lado e o outro da área adversária. Com isso, arrastam os seus marcadores. Nas faixas, Joaquin dá profundidade sobre a direita, mas quando procura zonas interiores, Miguel sabe subir para surgir na posição de extremo, com Angulo a fazer a zona nas suas costas.

Em França, o poema de bom futebol do Lyon continua a fazer sonhar os românticos. Um estilo nas antípodas do desenvolvido pela Roma, o tipo de equipa que, como sucedeu na Grécia frente ao Olimpyakos, não se importa de ser dominada, até se sente confortável, para assim iludir o adversário da sua superioridade e depois atraiçoa-lo no contra-ataque. É hoje o onze que, na Europa, melhor personifica o cínico futebol italiano. São, no entanto, tudo equipas que correm com inteligência. Nenhum movimento é feito sem pensar. Se, depois de descobrirem o essencial das suas qualidades de jogo, souberem ver onde estão as suas limitações, podem deixar marcas esta época.

Real Madrid: …e ao 53º dia, renasceu Robinho

O essencial e o acessórioPor vezes, é mais interessante seguir a jogadores específicos do que equipas. Capello tinha falado em 50 dias para colocar o Real Madrid a jogar como ele queria. Passaram mais três dias até perceber onde estava o elemento essencial para transformar um jogo monocórdico e sem imaginação num estilo solto, alegre e veloz. A alteração, depois de uma soturna exibição e derrota em Getafe, surgiu em Buscarest, frente ao Steaua, e tem nome próprio: Robinho. Mesmo mantendo a estrutura táctica habitual com o duplo-pivot defensivo Emerson-Diarra, a entrada da gazela negra brasileira (saindo o pesado Cassano) deu, por si só, maior velocidade e profundidade de jogo a todo o onze, no qual também foi essencial a acção de Guti, entre-linhas, para tratar a bola e a jogada previamente, executando, depois, passe de ruptura para servir Robinho na perfeição. Fez 17 em todo o jogo, para além de outros 5, para Raul, e 2, para Van Nistelrooy, espelhando claramente como é hoje um dos melhores assistentes do actual futebol europeu.

Num ápice, o flanco esquerdo madrileno, com Roberto Carlos a subir em trocas posicionais e desdobramentos nas costas de Robinho, quando este flectia, tornou-se numa locomotiva de bom futebol. Outra alteração foi na defesa, com Sergio Ramos de regresso à lateral direita, onde melhor desenvolve o seu jogo. Defende bem e, veloz, dá profundidade à faixa destra. No centro, regressou Helguera, antes esquecido por Capello, fazendo uma sólida dupla de centrais com Canavaro. Á frente, um dos elementos do duplo-pivot soltava-se na evolução da transição defesa-ataque. O essencial da transformação esteve, no entanto, em como Robinho alargou o campo e inventou, em velocidade, novos espaços no processo ofensivo antes lento e previsível Voltemos, então, ao princípio: Um excelente passador (Guti) e um extremo veloz (Robinho). Assim, é fácil perceber onde está o essencial e onde fica o acessório. Agora, vem aí o grande duelo com o Barcelona. Futebol para ver como se fosse um culto religioso.