O Extremo Clássico

21 de Setembro de 2001

O Extremo Clássico

Roland Barthes escreveu que o que caracteriza as sociedades ditas avançadas é o facto delas consumirem hoje imagens e já não crenças, como as de outrora. Certamente que quando o fez não pensava em futebol, mas a sua reflexão enquadra-se no futebol presente que glorifica as personagens duras e se alimenta dos mitos do passado. Hoje, quase é necessário partir de lanterna em punho, pelos relvados de todo o mundo para descobrir um extremo á moda antiga como Gento ou Garrincha. Após longa vigília, só detectamos alguns traços dessa espécie em vias de extinção nos rasgos de Overmars e Giggs. Eles são extremos num futebol sem extremos. Diz Menotti que á medida que uma equipa ataca, o relvado torna-se, progressivamente, menos longo, mas a largura permanece a mesma. Sem extremos clássicos, as equipas tentam abrir a frente de ataque de outras formas: Com laterais ofensivos, estilo Roberto Carlos ou Cafú, só possíveis com o fim dos extremos de raiz. Sem ninguém a quem marcar, os laterais descobriram um corredor liberto para atacar. Outros, com os chamados flanqueadores, a maior aproximação ao extremo clássico, casos de Figo e Bechkam, que vivem sob as alas mas que em vez de ir á linha, optam, no enfiamento do bico da área, por mortíferos centros enroscados, para a chamada zona de ninguém, convidando alguém a apenas tocar a bola para as redes. Por fim, há quem utilize extremos disfarçados que partindo de uma posição central se encostam ás alas quando o onze ataca, casos de Tierry Henry e Denilson.

O Extremo ClássicoQuando se fala em extremos é impossível não falar de Gento, a quem um jornalista jura ter contado quatro braços e seis pernas durante um jogo. Moggi, director da Juventus disse esta semana estar interessado no valencianista Vicente porque desde os tempos de Gento que não se via tanto entusiasmo em Espanha por um extremo. Salvaguardo que nem Vicente é um extremo puro, é desumano comparar jogadores divinos com outros meramente terrenos. Depois, até porque, como disse o inglês Foulkes, nem era a velocidade que tornava Gento impossível de travar: O que mais impressionou não foi a sua enorme rapidez, mas a forma como travava. Parava de forma imprevisível, mudava de ritmo e voltava a correr. Incrível!

Os Símbolos e a História: GUARDIOLA E KIKO

Antigamente, os grandes heróis futebolísticos duravam até muito tarde e resistiam anos a fio, mas, apesar dessa aura havia um tempo para parar. A Di Stefano, na hora da despedida forçada do seu Real Madrid, disseram-lhe que um jogador pode ter lugar na história do clube e já não ter lugar na sua primeira equipa. Era uma aura infinita que os transformava em símbolos, inspiradores de gerações futuras, figuras a venerar. No futebol actual, é difícil falar em símbolos tal a velocidade com que os jogadores mudam de clube. Apesar dessa vertiginosa realidade, os últimos anos produziram dois jogadores cuja superioridade moral do seu futebol cruzada com a ligação emocional e antiga com o clube e seus adeptos fez deles uma espécie de últimos símbolos. Guardiola e Kiko. Apesar disso, hoje vagueiam sem clube, após os emblema do coração, Barcelona e At. Madrid, terem entendido que tal como com Di Stefano nos anos 60, a história e o jogo seguinte são duas coisas completamente distintas. Mas, ao contrário da Saeta Rúbia, estes dois símbolos do presente estão ainda longe do crepúsculo futebolístico.

Dizem ter saído pelo seu pé, mas, na verdade, o que está em causa no presente é o seu peso simbólico, a sua intimidante aura de liderança num futebol sem líderes. Para Guardiola devia ser muito difícil ser mais do que um simples jogador num clube que é mais do que um clube. KiKo é um poeta da bola que uma vez disse que a felicidade absoluta não existe, mas...yo casi la rozo. Como? Ninguém imagina que eu possa passar um jogo sem tentar um túnel ou um toque de calcanhar... O futebol actual pode continuar a fabricar grande estrelas, mas vive pior sem a batuta mágica de Guardiola e o ilusionismo fantástico de KiKo. Inclemente, queimou mais dois símbolos na fogueira impiedosa em que se tornou. Hoje, como sempre, porém, é muito perigoso brincar com o fogo da história. O futebol precisa desesperadamente de novos símbolos. O futebol precisa urgentemente de KiKo e Guardiola.