O FANTÁSTICO MUNDO DO “BOXING DAY”

24 de Dezembro de 2009

O FANTÁSTICO MUNDO DO “BOXING DAY”

Enquanto que toda a Europa se prepara para colocar a bola debaixo da árvore, em merecido descanso da quadra natalícia, junto da sua família, em Inglaterra todos continuaram a treinar intensamente, preparando os grandes jogos de ... 26 de Dezembro, dia de mais uma intensa jornada da Liga Inglesa. Em Londres, como em quase todo o mundo, as iluminações de Natal decoram as ruas, mas uma coisa nestes dias distingue esta mítica cidade de todas as outras: As bolas de futebol continuam a rolar nos relvados!

Com efeito, enquanto em todos os outros países do velho continente os campeonatos pararam ansiosamente á espera a visita do Pai Natal e muitos jogadores rumaram para os seus países de origem, em Inglaterra, onde o futebol é um estado de espirito, todos se preparam para o fim de semana mais intenso da temporada. É o alucinante mundo do “Boxing Day”, nome porque é conhecido este período de três dias onde, tradicionalmente desde há muitos, muitos anos, se disputam duas jornadas do louca Liga Inglesa, aquela que, diz-se, cansa só de ver.

Na secular “velha albion” o futebol como que faz parte das festas de Natal e Ano Novo, período em que as multidões que semanalmente seguem de forma apaixonada a “Premier League”, aproveitam para exteriorizar tudo o que lhes vai na alma. Esta afirmação pode causar espanto em todo o mundo, mas a verdade é que na Inglaterra, Natal sem futebol, não é Natal não é nada.

A ORIGEM DO FUTEBOL DE NATAL E ANO NOVO

As origens para esta fantástica tradição encontram-se na raiz social e religiosa que ao longo de séculos marcaram a história profunda das ilhas britânicas, onde o futebol, inventado em finais do Sec.XIX, como que se tornou parte integrante da vida das suas populações que já nem imaginam a vida sem este fascinante jogo outrora inventado na elitista Universidade de Cambridge. Tradicionalmente, o “Boxing Day” é como é conhecido o futebol jogado no dia 26 de Dezembro, logo depois do dia de Natal, numa altura em que todos, com ou sem sentimento religioso, sentem a vida e a orgulhosa história do reino inglês de forma mais intensa.

A origem do nome data de há séculos e reside nas caixas (box, em inglês) que, durante esta época, eram colocadas nas igrejas para recolher dinheiro para os pobres. Essas caixas eram abertas no dia de Natal e, apurada a colecta, esta era distribuída no dia seguinte, 26, o Boxing Day (o dia das prendas), num costume enraizado na Inglaterra, no País de Gales e em algumas regiões do Canadá, e que também se estendia às casas mais abastadas, onde, nesse mesmo dia, as famílias ricas da sociedade ofereciam prendas aos seus criados. Várias teorias se formaram acerca da verdadeira evolução do «Boxing Day», mas só em finais do Séc.XIX este dia passou taO FANTÁSTICO MUNDO DO “BOXING DAY”mbém a ser preenchido por manifestações desportivas.

Na altura, sem dinheiro para praticar os desportos da elite – a caça ou a equitação- as populações britânicas começaram a ficar cativadas por um jogo que, inventado numa universidade elitista, já há muito que era visto nas feiras: o football. Na história, surgem já registos datados de 1888, pouco depois de inicar-se a Taça de Inglaterra, de jogos incluidos no mitíco "Boxing Day". Em 26 de Dezembro de 1886, o Bolton venceu o Derby Conty por 3-2 e o West Brown o Preston por 5-0. Até 1959, o campeonato inglês inclui mesmo jogos a 25 de Dezembro, algo que se manteve na Escócia até 1976. Mas, desde essa data, passou-se para dia 26. É a festa de St. Stephan, o primeiro cristão mártir da Velha Albion, onde, reza a história que a cruz de cristo entrou pela primeira vez, tal como no resto de todas as outras ilhas, empunhada por missionários irlandeses, numa cruzada consolidada mais tarde pelos normandos, de forma que com o passar dos anos o catolicismo tornou-se parte do dia-a-dia dos povos britânicos.

Olhando a história religiosa da velha Inglaterra, salta á vista em todos os compêndios, que muitos tempo atrás, “quando os dias eram longos e tinham cem anos”, o emergir do cristianismo nas ilhas britânicas marcou a ruptura com ancestrais práticas pagãs que desde sempre marcaram as nações anglo-saxónicas. Neste caminho ficou bem marcado em determinado momento da história um claro conflito entre Henrique VIII e a Igreja Católica Romana, num tempo em que emergiam as ideias calvinistas e luteranas, combatentes da velha Roma papista e sua Igreja antiga, dona de inúmeras riquezas o que suscitava a indignação das populações que viviam com grandes dificuldades.

Com o passar do tempo os aristocratas burgueses, profetas do feudalismo foram conduzindo a seu prazer a ideologia catolicista. Foi neste contexto que a Inglaterra chegou a finais do Sec.XIX, ao mesmo tempo que era inventado o futebol, numa era, em que, com o correr dos tempos, a aristocracia burguesa se foi apropriando a seu bel-prazer dos ideais católicos, ao ponto do «Boxing Day» se transformar numa espécie de libertação do povo que agonizava na pobreza. Um ritual social que se misturou com o football e que foi crescendo á medida que ele este mágico desporto foi entrando na alma das povoações britânicas, até que, a partir dos anos 30, a «Football Association» decidiu passar a organizar uma jornada da Liga Inglesa no famoso «Boxing Day», já então mais um grito de revolta social do que um feriado religioso.

O FANTÁSTICO MUNDO DO “BOXING DAY”

Notts County, Boxing day, 1927

Hoje a nação inglesa é assumidamente cristã, mas através de todo o território das ilhas britânicas continuam latentes os conflitos religiosos, violentamente presentes na Irlanda e na Escócia, secularmente divida entre protestantes e católicos. Todo estas atmosferas e histórias são hoje aproveitadas pelo mundo capitalista para transformar a época natalícia num período essencialmente comercial. Assim, ao longo de todo o Sec.XX, o futebol sempre foi, nesta quadra, um meio privilegiado das multidões exteriorizarem os seus mais profundos sentimentos sociais e religiosos.

Chegado o Natal e o Ano Novo, todos anseiam pelos grandes jogos que colocam frente a frente as diferentes bairros, cidades e regiões que marcaram o século do futebol inglês. Para eles o futebol é a sua religião. Ninguém é capaz de imaginar estes dias sem esses grandes jogos. Durante o ano, os operários que, com os seus braços, ergueram a grande nação britânica trabalhavam de dentes cerrados, ansiosos por uma cerveja no pub ao fim da tarde, mas, chegado o natal e ano novo, todos exultavam com os titânicos derbys ou pelos grandes jogos que colocavam frente a frente diferentes cidades rivais carregadas de peso histórico.

Em nenhuma outra data da época a alma do verdadeiro futebol britânico está tão presente nos seus estádios, pequenos ao lado dos colossos espanhóis, italianos ou alemães, mas com um significado e uma aura mítica única em todo o mundo. Numa altura em que o futebol inglês se encontra invadido por muita estrelas estrangeiras, o “Boxing Day” é como que uma afirmação de identidade nacional. É este o seu lendário espirito, uma sublime afirmação de identidade nacional perdida nos labirintos da história revitalizada, mas revitalizada todos os anos, como lembrava Best: “No inicio da época, quando saía o calendário, a primeira coisa que víamos era como quem jogávamos na primeira jornada, na última e...no Boxing Day!” São os ventos da história! “God save the English Football!”