O fim dos ciclos de poder

24 de Abril de 2007

O fim dos ciclos de poder

Na época passada, atingindo-se os oitavos-de-final da Champions com sete equipas latinas e apenas uma anglo-saxónica (Arsenal), falou-se no renascimento de um novo ciclo de domínio do futebol latino.

Passa um ano, e a tendência, já era diferente. Cinco equipas anglo-saxonicas (inglesas, alemãs e holandesas) e só três latinas. Começa a falar-se no novo domínio britânico. A meia-final inverteu a ordem da época anterior. Dos latinos, apenas resiste o Milan. O resto, três equipas inglesas.

Face ao cenário politico-desportivo que gere hoje o globalizado futebol europeu pós-Bosman, ambas as interpretações podem estar, no entanto, correctas.

O problema é só um: com o actual mercado aberto europeu estendido ao futebol e as equipas mudando muitas vezes de estrutura de ano para ano, os ciclos de poder tornaram-se cada vez mais curtos, chegando a esfumar-se numa época apenas. Deixou de fazer sentido falar em claros ciclos de domínio como aqueles que até meados dos anos 90 foram fáceis de identificar entre o futebol da técnica do futebol da força.

Anos 60: futebol latino puro;

Anos 70-meados dos anos 80: futebol força anglo-saxónico.

Meados dos anos 80-meados dos anos 90: futebol técnico latino reciclado.

A lei-Bosman foi o ponto de viragem. A partir dessa data, com as multiculturais equipas do presente, é impossível falar-se em verdadeiros confrontos de estilos como no passado. Esqueçam até aquelas ditaduras em que uma equipa, mantendo o mesmo onze, mandava na Europa por épocas consecutivas. A última equipa a ganhar a Champions duas vezes consecutivas foi o Milan, em 89 e 90.

Razões para a nova ordem. O actual domínio inglês deve ser interpretado, portanto, à luz dos condicionalismos actuais. Desportivos, politico-sociais, estruturais e, claro, financeiros. São eles, no conjunto, que ditam os curtos ciclos de domínio, sazonais mesmo, da actualidade.

Repare-se que nas meia-finais da Taça UEFA acontece exactamente o contrário: três equipas latinas (espanholas) e apenas uma anglo-saxónica (o alemão Werder Bremen). Ou seja, em rigor, quem domina não é o futebol inglês nem o espanhol, estilisticamente falando, mas sim o produto que as Ligas inglesa e a espanhola, hoje as mais fortes da Europa e do Mundo, vendem. Nesse aspecto, analisando o futebol em todos esses quadrantes, a grande quebra reside em Itália. Esta hecatombe, que o corroeu até às raízes, devorado por um processo de corrupção que enviou Juventus para a II Divisão e leva muitos jogos do Campeonato a serem disputados à porta-fechada, agudizou-se esta época. A queda da Roma em Manchester (7-1) espelha o esqueleto do futebol italiano que, ainda em 2002/03, parecia pujante, quando metia então três equipas nas meias-finais da Champions. Em quatro anos, tudo mudou.

Mourinho e Benitez: A Colonização estilística

O fim dos ciclos de poderEm termos futebolísticos, pode parecer um paradoxo, mas vendo bem em campo o estilo das equipas inglesas na Champions (Chelsea, Liverpool e Manchester) e as filosofias de jogo dos seus treinadores (dois latinos puros, Mourinho e Benitez, e um escocês cada vez reciclado e influenciado pelo adjunto luso-latino Carlos Queiroz) para além do facto de, nos seus onzes iniciais, serem cada vez mais raros jogadores ingleses, não é abusivo afirmar que este será até, no plano da abordagem histórica do jogo, mais um triunfo do futebol latino do que do britânico.

Ou seja, em comparação com os velhos ciclos de domínio britânicos dos anos 70/80, o futebol inglês mantêm o espírito e paixão, mas mudou o estilo e o perfil táctico. Neste ultimo sentido, foram as ideologias tácticas latinas cruzadas com o espírito inglês que o fizeram voltar a ganhar. A chegada dos treinadores estrangeiros foi decisiva para esta nova vida táctico-estilística do futebol inglês. Repare-se: até 1998, apenas 8 treinadores estrangeiros (isto é, vindos de fora das ilhas) tinha, treinado em Inglaterra: Venglos, Bergara, Ardiles, Sorensen, Molby, Gross, Gullit e, chegado em Agosto de 96, o homem que iniciaria a revolução estrangeira ao mais alto nível: Wenger. A partir daí, a nova Liga inglesa multinacional começou a gerar outro tipo de equipas. Mourinho e Benitez terminaram a colonização estilística do futebol da Velha Albion.

Ferguson e a táctica

O fim dos ciclos de poderAs novas ideias também influenciaram muitos treinadores britânicos. Ferguson é uma instituição em Old Trafford, mas, vendo bem, só ter jogado uma final da Champions em 20 anos, é pouco para um clube da dimensão do Manchester United. A explicação para o fracasso europeu está, claramente, no plano táctico. A explicação para a actual subida competitiva está, também, nesse plano táctico. Percebeu que existiam mais sistemas para além do 4x4x2, aprendeu a defender melhor e, com a influência de Queiroz, fez crescer a base táctica do jogo. O velho espírito inglês, esse, permanece intacto. Nas 16 épocas da Champions, apenas por uma vez uma equipa latina não esteve na Final (em 98/99, no Manchester United-Bayern). Esta época, o Milan tem a missão de manter esta tendência latina de marcar presença na grande decisão. Porque em termos de estilo, estarão lá Mourinho ou Benitez…

COMO JOGAM OS QUATRO SEMI-FINALISTAS DA «CHAMPIONS»

CHELSEA: A nova dinâmica segundo Joe Cole

O fim dos ciclos de poderProcurando mecanizar o 4x4x2 sem perder as rotinas do 4x3x3, Mourinho encontrou na fase final da época a fórmula certa para alternar entre as duas estruturas em pleno jogo e sem alterar o onze.

O segredo reside na dinâmica de um dos médios disfarçado de segundo avançado. Papel interpretado na perfeição por Joe Cole, decisivo para dar maior criatividade construtiva ao meio-campo, que movendo-se entre o centro e a faixa, combinando com os dois avançados Shevchenko-Drogba, permite a alternância entre os dois sistemas. Na posição inicial, Cole coloca-se no vértice ofensivo do meio-campo, desequilibrando a partir dessa posição central, com Dorgba e Sheva soltos na frente. Está desenhado o 4x4x2. Noutra dinâmica, descaí sobre um flanco, e abre a equipa a toda a largura do terreno, em combinação com os dois avançados, pois enquanto um deles se fixa no centro da área, o outro cai na faixa contrária. Está desenhado o 4x3x3. Dinâmicas diferentes que ultrapassam a mera posse ou não da bola. Para encaixar Cole e manter intacto o triangulo-base desse sector (um pivot defensivo, Makelele ou Mikel, e dois médios de transição, Lampard e Ballack) Mourinho desloca muitas vezes Essien para lateral-direito, como na segunda parte de Valência, fazendo todo o corredor, em força e técnica.

LIVERPOOL: As ratoeiras de Benitez

O fim dos ciclos de poderO Liverpool de Benitez protagoniza um dos 4x4x2 mais cínicos do actual futebol europeu, não receando, durante o jogo, de ficar como uma excessiva distância entre linhas meio-campo-ataque. Sem bola, recua, e mantêm sempre sete/oito jogadores atrás da linha da bola. As âncoras da equipa são o duplo-pivot defensivo Xabi Alonso-Mascherano. Recuperam bolas, sobretudo Mascherano, mais agressivo, adianta-se para pressionar mais alto, e gerem a transição defesa-ataque, como o cerebral Xabi Alonso, com grande precisão de passe, curto ou longo. Jogando a toda a largura do relvado, abre nas faixas como a capacidade de dar profundidade ao jogo com os alas (caso de Riise, na esquerda) ou com as subidas dos laterais (caso de Finnan, à direita). Partindo da direita para, depois, organizar jogo, rasgar desde trás como um remate potente: Gerrard, o patrão do onze. No ataque, uma dupla que se complementa, com a girafa Crouch apoiada por outro avançado, mais móvel, Kuyt, inteligência a mover-se nos últimos 25 metros, ou Bellamy, um jogador de espaços mais longos, exímio para o contra-ataque. Neste modelo, o onze parece, por vezes, algo partido entre meio-campo e ataque. É quando surge a visão de Xabi Alonso ou os raids de Riise como elo de ligação entre sectores.

MANCHESTER UNITED: Há vida para além do 4x4x2

Dos onzes ingleses das meias-finais, é o que ainda solta mais vezes o estilo britânico, sobretudo na atitude dos laterais e na tendência para o passe longo.
Tacticamente, porém, Alex Ferguson evoluiu nos últimos anos, descobrindo outras tácticas para além 4x4x2. O reequilíbrio do onze começou, no entanto, à frente da defesa, com Carrick, um recuperador que também carrega a equipa para o ataque. A seu lado, gerindo as transições defesa-ataque-defesa, Scholes. Se a estes dois médios centrais, juntarmos dois extremos, Giggs-Ronaldo, cá estaria o tal 4x4x2 mais tradicional, mas, na Europa e nos grandes jogos, o onze já se solta, na dinâmica de movimentos, num 4x2x3x1 móvel que, a atacar, volta a desenhar o 4x4x2. Isso viu-se nos dois jogos frente à Roma. De inicio, Rooney surge aberto sobre a esquerda, com Giggs, que sem a velocidade de outrora deixou de ser um extremo puro, a surgir muitas vezes como um segundo avançado nas costas do ponta-de-lança (Solskjaer ou Alan Smith). Nessa dinâmica, as trocas posicionais Giggs-Rooney confundem as marcações adversárias, surgindo então Rooney, numa diagonal de ruptura, a furar na zona central da área. O resto é o génio de Cristiano Ronaldo à solta, partindo preferencialmente da direita.

MILAN: O resistente italiano

O fim dos ciclos de poderO Milan é hoje uma equipa com dupla personalidade, variando de sistema entre a Europa e o Scudetto. Tudo depende do desenho do meio-campo e sua articulação com o ataque. Vejamos:

Em Itália, opta preferencialmente pelo 4x3x1x2 com dois pontas-de-lança, um deles Ronaldo. Na Europa, sem Ronaldo, opta pelo mais conservador 4x3x2x1, só como um ponta-de-lança. Foi nessa estrutura que eliminou o Bayern Munique. Como primeira grande referência de construção desde posições recuadas, no centro da primeira linha do meio-campo, o pivot-defensivo Pirlo, inicia a transição defesa-ataque jogando apoiado. Para compensar a sua menor agressividade na recuperação, surgem a seu lado, fechando em posse, dois operários lutadores, Ambrosini e Gattuso. Um trio que se complementa na perfeição. Pirlo na organização. Gattuso e Ambrosini na recuperação. Soltos, na segunda linha, abrindo nas faixas e depois, em posse, flectindo alternadamente para, no centro, desequilibrar com um passe vertical, uma entrada desde trás ou um remate, Káka, partindo da direita, e Seedorf, partindo da esquerda. Vagabundos, jogam nas costas do ponta-de-lança solitário. Gilardino, mais móvel, ou Inzaghi, mais em cunha, exímio a jogar no chamado limite do fora-de-jogo.