O “FUTEBOL-ARTE” AINDA EXISTE?

04 de Abril de 2013

Num tempo em que, logo após o fim da era de Pelé, o futebol-arte ainda era corpo e alma de toda a existência brasileira com bola, Zico cresceu como herdeiro do Rei. No plano interno, o futebol do Rio continuava lindo, mas quando o “escrete canarinho” saltava fronteiras, sentia-se como a insustentável leveza tecnicista chocava contra a frieza dos sistemas europeus. Vendo como o físico e a táctica tomavam conta dos relvados, o futebol brasileiro também quis moldar o seu jogo por essas influências. Muitos desconfiaram dessa ideia.

Vendo bem a evolução da arte depois de Pelé, constata-se que a primeira tentativa de aproximar o “escrete” ao modelo europeu surgiu em 78, com um “treinador científico” chamado Cláudio Coutinho que, então, espantou ao promover o trabalho físico e explicar o jogo com termos como “overlaping” e “ponto futuro” (referindo-se como o jogador devia sempre preconceber o local onde a bola/jogo devia entrar)

A seleção que surge em 78 é a primeira que tem Zico, combinando ainda com um símbolo da geração anterior, Rivelino. Revendo os jogos desses tempo vê-se, claramente, como subira em termos físicos. Acabariam por perder o acesso à Final pela diferença de golos e Coutinho foi acusado de “intelectualizar” o futebol brasileiro.

Observando os diferentes médios que fizeram os sucessivos meio-campos de cada seleção brasileira nos Mundiais pós-70, pode-se observar a evolução e, sobretudo, as indefinições estilísticas que o futebol “canarinho” sentiu entre a necessidade de se tornar mais táctico e o receio de perder a sua natureza. Vejamos:

1974- Rivelino, Paulo César Carpegianni, Paulo César Lima e Valdomiro. Uma geração órfã dos magos de 70 que ainda tendo Jairzinho, 30 anos, na frente, caiu frente ao “futebol-total” holandês.

1978- A Copa incompreendida de Cláudio Coutinho, com a combinação Zico-Rivelino no meio-campo, abria com Gil, Batista pegava no jogo e tinha mais atrás, à frente da defesa, o primeiro “volante ofensivo” da história, com passada larga e técnica: Toninho Cerezo. Na frente: Dirceu solto e Reinaldo nº9 móvel.

1982- Para muitos estudiosos esta foi a mais sedutora seleção brasileira de todos os tempos. Entre as que perderam, sem dúvida. Montado por Telê Santana, dogmático da arte como forma de jogar, o meio-campo era um poema com bola: Cerezo, Zico, Sócrates e Falcão. O primeiro suplente a entrar era Paulo Isidoro e até Júnior, que era médio, jogava, para caber no onze, como lateral-esquerdo. Faziam da bola o que queriam, mas seriam, porém, incapazes de derrotar a maior cultura táctica dos italianos. Para muitos, esse foi o dia em que o verdadeiro futebol-arte morreu. A partir daí nunca mais nada seria como antes.

1986- O desejo de reviver o sonho fez regressar o mesmo quarteto de 82 mas quatro anos mais velhos, todos já na casa dos 30 anos e com Zico jogando lesionado, foram “sombras errantes” do passado. Naturalmente, começaram a sentar-se no “banco” e, assim, à frente da defesa, começaram a surgir rostos com o estilo que iria marcar o futuro: a dupla Alemão-Elzo.

1990- O ciclo de Lazaroni. Inspirado nos europeus, introduziu o “libero” no esquema brasileiro e fez a revolução do 3x5x2, com laterais ofensivos (Jorginho-Branco), três defesas (Mauro Galvão, o “libero”, ao lado de Mozer-Ricardo na marcação), Dunga-Alemão-Valdo no meio, Muller-Careca na frente. A racionalização táctica estava a ser imposta de forma contranatura, sem preparação prévia. Depois das derrotas de Coutinho e Telê, preconizando ideais opostos, Lazaroni não conseguira criar uma identidade. O Brasil necessitava encontrar um rumo claro.

O FUTEBOLARTE AINDA EXISTEA “DUNGAZIZAÇÃO” DO ESTILO

1994- Surge Parreira e enceta a “europeização” do futebol brasileiro. Num Mundial amarrado por tácticas, o Brasil reconquista o titulo com um meio-campo de recuperadores: Dunga, Zinho, Mauro Silva e Mazinho. Desse quarteto “pica-pedra” saíra o último profeta do futebol-arte: Raí.

Era o trunfo da “dungazização” do futebol brasileiro, nome que faz honra ao jogador-patrão daquela equipa: o “trinco” Dunga, médio rudimentar sem requintes técnicos, “escavadora” sem conhecer a palavra drible. A disciplina táctica e capacidade física eram, como base de jogo, mais importantes do que a mera qualidade técnica. O Brasil conquistar o “tetra” mas trai a sua história de futebol-arte.

1998- O triunfo de 94 mergulhara, no entanto, o futebol brasileiro numa crise existencial. Com Romário-Bebeto (em 94) e Ronaldo (em 98) existiam sempre fugas para os “velhos românticos”, mas o Mundial de 98, com Dunga ainda mandar no meio-campo (junto de César Sampaio) revelou uma seleção presa entre coletivo e individualidades.

2002- O triunfo do sistema-Scolari, em 3x5x2. Dois volantes-trincos: Gilberto Silva-Kleberson; três defesas: Roque Júnior-Edmilson-Lúcio; laterais ofensivos: Cafu-Roberto Carlos e três “R mágicos” no ataque: Rivaldo, Ronaldinho e Ronaldo. O Brasil era “penta” resgatando o perfume do futebol arte com disciplina táctica a defender. Foi a seleção que melhor uniu os “dois mundos”.

2006- O regresso de Parreira. Emerson era o volante-pivot que comandava à frente da defesa, com Kaká a 10, Ronaldinho solto desde um flanco, e Zé Roberto a (re)equilibrar a equipa quando perdia a bola. Na frente, Ronaldo e Adriano, dois “superegos”. A equipa tinha bons momentos, mas Parreira perdera em campo o seu “líder espiritual” de 94. Reapareceria no banco quatro anos depois.

2010- A era de Dunga-treinador. Pegou no seu estilo como jogador para dar carácter ao meio-campo com Gilberto Silva e Felipe Melo a volantes, mas Kaká não conseguiu levantar criativamente o jogo. A equipa volta a viver numa encruzilhada de identidade.

De 1974 a 2014, quarenta anos de futebol que nos contemplam. Nesse longo percurso, o futebol brasileiro passou por diferentes fases em busca do compromisso entre a arte e a táctica. A certo ponto, lutou contra a sua natureza e caiu numa crise existencial. Na altura, muitos criticaram Parreira, mas vendo todo este caminho é pacifico identificar a sua era como aquela onde se lançou a bases do sucesso dos novos tempos: maior consistência táctica do jogador brasileiro que agora também sabe jogar sem bola e ser rigoroso nas marcações.

De todos os técnicos, Claudio Coutinho terá sido o mais incompreendido e, simultaneamente, o mais avançado no tempo As novas gerações de jogadores pós-94, mantendo a técnica artística inata, cresceram já com outra consciência tática do jogo. Essa mescla faz jogador brasileiro dos nossos dias (Ramirez, David Luiz, Oscar, William, Hulk...) que passeia na Europa como “jogador de todos os estilos”.
Última pergunta: Onde irá encaixar Neymar em toda esta a história?

DESTAQUE:
A obra de Parreira: Reconquistou o titulo, criou um novo “jogador mais táctico” mas afastou a arte como base do estilo