O futebol não é um desporto

23 de Dezembro de 2007

O futebol não é um desporto

Jogadores, adeptos, treinadores e presidentes. Tudo personagens do mesmo universo. O “mundo do futebol”. Imaginamos, porém, o espaço particular de cada um e todos parecem afastados entre si. Por vezes, com interesses contrários, até. É estranho mas este sentimento diz muito do que é hoje o futebol e seu labirintos. Pelo meio entram também os jornalistas e, nos últimos anos, o empresário, figura de fato e gravata que parece ser dois terços do cérebro do jogador. Fora do campo, naturalmente. Vendo das bancadas, o jogador joga em representação dos adeptos que nele depositam o seu orgulho e esperanças. É curioso notar como, por exemplo, um jogador que persegue uma bola que vai irremediavelmente sair das quatro linhas com a língua a arrastar pela relva terminando com um carrinho inútil é aplaudido pelos adeptos freneticamente. Há como um “compromisso de sangue” neste gesto. Existem jogadores que incorporam esse espírito de forma mais natural. Questão de estilo e personalidade. Penso no “Cebola” Rodriguez no Benfica. Joga como um adepto. Perseguindo cada bola como fosse a última. Disputando cada lance como dele dependesse o resultado final. E sempre com inteligência.

Mas, há muito que os jogadores perderam essa visão romântica. Hoje são grandes produtos de consumo da informação. As suas vidas tornaram-se um espectáculo. Afastaram-se dos adeptos. Aproximaram-se das revistas. Uma grande equipa não nasce só de grandes jogadores técnicos. Essa qualidade só decide se for acompanhada de uma inteligência especial do jogo e da vida. Recordo o que dizia Gustav Sebes, treinador da grande Hungria dos anos 50. Quando lhe perguntavam por um jogador completo, em vez de Puskas ou Kocsis, citava Josezf Turay. Em campo era a inteligência personificada a jogar futebol. Fora dele, não sabia ler nem escrever. Quando, porém, se tornou famoso, teve a humildade de revelar aos seus dirigentes que era analfabeto e que isso lhe fazia sentir um enorme complexo de inferioridade, pelo que queria aprender a ler e escrever. Já era um jogador de nível internacional quando terminou os sus estudos. Para o jogador, muitas vezes ainda adolescente, o futebol é uma feira de sonhos que convida à facilO futebol não é um desportoidade. Pura ilusão. É o “jogo” da vida. Para uma equipa, o espaço de balneário é quase como a sua caverna. Um local vedado ao mundo exterior. Vemos a equipa no relvado, apontamos defeitos e qualidades, mas é no que se decide e fala fora dele que mora a explicação para as suas acções. Leo tem sido dos melhores jogadores do Benfica nas últimas épocas.

Para os adeptos e para os seus treinadores. Esta semana, falou por ele o empresário. Especulou com a sua saída. A direcção defendeu-se. Por instantes, todas aquelas personagens citadas no início do texto, surgiam em posições contrárias. É o “outro jogo”. O do negócio. O futebol é um desafio permanente à ló
gica. Nesse sentido, ultrapassa em muito o conceito de desporto, onde, pela lógica de cada modalidade, ganha o mais alto, o mais veloz, o mais forte. No futebol, ganha e joga qualquer um. Altos, baixos, rápidos, lentos, magros, gordos. É ilógico. Mais do que um desporto é, por isso, um “jogo”. De arte e engano. Se procurar um atributo que o defina será, talvez, a precisão de movimentos. Dirão que para os italianos é também uma ciência. É o chamado lado táctico do jogo. Um campeonato disputa-se por entre estes diferentes universos. Em qualquer país.

Pensando nos três grandes portugueses, FC Porto, Benfica e Sporting, cada qual move-se por este mundo com diferente astúcia. Dentro deles, todas as personagens deste texto vivem com a angústia de perder o controlo do seu espaço. Em campo ou fora dele. É, por isso, que, faz sentido dizer que um campeonato começa a ganhar-se muito antes da bola começar a rolar.