O futebol perfeito

08 de Julho de 2007

O futebol perfeito

Terá sido só por breves instantes mas acredito que, na última semana, o ideal grego que ambicionava a perfeita harmonia entre o corpo e a mente terá sido atingido em Londres durante a apresentação do novo patrocinador do Arsenal, uma conhecida marca de relógios suíços de luxo. Lado a lado, uma dupla de sonho, estética e futebolisticamente falando. Thierry Henry e Gisele Bundchen.

Aparentemente personagens de mundos tão distantes, aproximaram-se quando a modelo brasileira se levantou e, ao lado do futebolista gaulês, ensaiou, de saltos altos, um ou dois pontapés numa bola de futebol. Todos de belo efeito, naturalmente. Quem disse, afinal, que a perfeição era impossível no futebol? Poucos dias depois, Henry abandonava Londres e assinava pelo Barcelona onde se irá juntar a Ronaldinho, Eto´o e Messi. Todos no mesmo onze. Depois do remate de Gisele, está criado o habitat perfeito para o esplendor do sexy football. Mas será possível, num prisma tacticamente racional, conciliar estes quatro feiticeiros na mesma equipa? Pois bem, é um desafio aliciante. Tornar ganhador um ideal de beleza teórico. Os quatro vivem, no relvado, do meio-campo para a frente. Vagabundos. Mágicos. Experimentem, ao vê-los jogar, seguir só a bola.

Nos pés de qualquer um deles, ela mais parece uma lebre correndo solta, saltando obstáculos por entre a floresta. Só assim faz sentido o futebol destas estrelas. É difícil dizer em que posição jogam exactamente. Umas vezes são alas, noutras pontas-de-lança, depois extremos, a seguir médios-ofensivos.

O futebol perfeitoAtrás deles, imaginamos os médios mais defensivos. Estilo Deco e Xavi ou Yaya Touré, a outra aquisição catalã da semana, dupla de recuperação e transição à frente do quarteto defensivo, com os laterais mais presos. Tento esboçar o esquema no papel e lembro-me de uma ideia que ouvira num palestra de Carlos Alberto Parreira. O futebol caminha em direcção ao 4x6x0. Quatro defesas e, depois, seis jogadores, com cérebro, imaginação, e, claro, condição física, para encher o resto do campo. Com ou sem bola. Continua a existir uma definição de missões mas, em termos posicionais, perde-se rigidez e aumenta a amplitude periférica. Os adversários deixariam de ter referências precisas de marcação. Será este, com maior ou menor magia, o futuro táctico do futebol?

Talvez. Como seria um onze com Rivelino, Tostão Jairizinho e Pelé, protegidos por Gerson e Clodoaldo. Nomes familiares? Claro que sim. Eles foram o «6» do Brasil de 70. Afinal, é sempre possível conciliar obras de arte. Com razão táctica, emoção técnica e inteligência superior com vida própria. E, nesse admirável mundo novo, o estilo de Gisele será sempre mais do que uma utopia do momento.