O «homem» ou o espaço: eis a questão?

03 de Abril de 2006

Entrando em campo com uma estratégia de marcações individuais, desde o início logo se detectaram três pares desenhados no papel por Koeman no jogo da primeira mão entre Benfica e Barcelona: Ricardo Rocha em cima de Ronaldinho, Beto em cima de Deco e Manuel Fernandes, mais à frente, saindo sempre na primeira linha de pressing para marcar Iniesta e impedir que ele iniciasse à vontade a transição defesa-ataque do Barcelona. Embora reconhecendo a impecável marcação feita por Ricardo Rocha a Ronaldinho (foi buscá-lo a locais longe da área, onde sem arriscar fazer faltas, conseguiu marcá-lo logo à saída do meio campo, impedindo-o de embalar como ele gosta, para depois chegar perto da área em velocidade), a verdade é que quando uma equipa marca ao homem, acaba sempre por ver condicionada a sua auto-determinação de movimentos em campo. Ou seja, marcando individualmente corre-se sempre atrás do adversário. Corre-se, portanto, sempre por onde o adversário quer, e quase nunca por onde nós queremos. E, repare-se, não tendo todos os espaços o mesmo valor, esta forma de jogar –ou marcar- provoca que a equipa deixe de pensar o jogo colectivamente e, assim, perde facilmente o equilíbrio entre-linhas.

A ocupação dos espaços

O «homem» ou o espaço eis a questãoCom esta limitação de movimentos a equipa até pode impedir as grandes estrelas do adversário de jogar, mas tal condiciona em muito a sua capacidade de contra-atacar e, assim, dominar as transições rápidas defesa-ataque. Deixa-se de pensar na atitude subsequente à recuperação e a equipa passa a distinguir – e a partir – a fase defensiva da fase ofensiva, algo desaconselhável para equipas de top, que devem fundir essa duas fases. Isto é, começar a defender quando ataca, e começar a atacar quando defende. Este último ponto só é possível quando se defende à zona e não ao homem, onde só se pensa em anular o adversário e não no que fazer à bola depois de a recuperar. O outro risco reside que marcando apenas ao homem, não se cobrem os espaços e assim, estando estes vazios, neles podem entrar os outros jogadores que não estão marcados individualmente. Quando isso sucede há sempre alguém que tenta dobrar mas com isto a equipa fica desposicionada e deixa de cobrir todos os espaços, que ficam vazios para os jogadores não vigiados individualmente. Foi o que sucedeu ao Benfica em toda a primeira parte do jogo da Luz, na qual o Barcelona criou oportunidades de golo em série devido a um jogo de marcações que não geriu espaços, mas sim homens. Pelo contrário, marcando à zona, continua a existir este jogo de coberturas, mas a equipa não se desposiciona, pois entende toda a acção defensiva de forma colectiva.

A «zona»: inteligência a defender

O «homem» ou o espaço eis a questãoA segunda parte do jogo da primeira mão, seria, porém, muito diferente, sobretudo devido ao facto de Ronaldinho ter passado a jogar mais sobre o centro. Ricardo Rocha ficou liberto dessa marcação individual e o Benfica passou quase sempre a marcar à zona (com Petit e o Beto ou Manuel Fernandes a caírem no espaço em que Ronaldinho entrava) o que se tornou definitivo quando Deco saiu, altura em que Beto passou a jogar procurando roubar bolas nos espaços e não apenas a encostar no 10 do Barça. Foi o momento em que o Benfica passou a defender melhor e a contra-atacar melhor, pois em vez de homens, passou a marcar espaços e a ter como referência de movimentos a bola e não o jogador adversário. É este o grande princípio da defesa à zona.

«Zona pressionante» : o sistema das grandes equipas

Não se conclua, no entanto, que a defesa à zona deve assumir, na essência, uma posição inicial passiva, apenas na expectativa que os adversários e a bola entrem no espaço para sair na sua marcação. Não. Trata-se, em campo, de um conceito dinâmico, que permite à equipa ganhar superioridade numérica e posicional Para além dos espaços é preciso gerir os tempos de recuperação e a subsequente transição rápida de contra-ataque. Isto só é possível com a chamada zona pressionante, o sub-sistema de marcação das grandes equipas. A noção de defender à zona deve começar lá na frente, com os avançados sobre os defesas adversários que iniciam a saída de bola. Tudo isto espelha a noção moderna de pressing alto. Uma pressão exercida sobre a bola e não apenas sobre o jogador. Isto só é possível gerindo os espaços e o tempo. Ou seja, com uma ocupação posicional em antecipação e pensando primeiro que o adversário. È tudo uma questão de maior agressividade a atacar os espaços. Todos estes princípios estendem-se por todo o campo. É a chamada zona pressing.

Cortar «linhas de passe» e lançar o contra-ataque

O «homem» ou o espaço eis a questãoCom essa pressão por todo o campo (em tempo e espaço) a equipa adversária perde o timing para traçar linhas de passe. Tal só se consegue reduzindo espaços –reduzindo assim as distâncias entre sectores- e dominando o tempo. Sem espaços, o adversário é, então, obrigado a jogar para trás, circulando a bola à frente da nossa linha de meio campo, movimento em que controlo de jogo (não o domínio) está com que não tem a posse de bola. Lendo o jogo de frente, fazendo uma zona pressing vertical, está dado o passo prévio para, depois, soltar o contra-ataque rápido, no qual são essenciais os passes verticais longos, executados por pivots como Petit ou Manuel Fernandes, para a velocidade, nos espaços, de avançados vagabundos como Miccoli ou Giovanni. Será esta a melhor forma do Benfica não só pensar em anular o Barcelona, mas, talvez, também a única forma de poder sonhar em ganhar no Nou Camp.