O instinto, a táctica e a arte

16 de Maio de 2015

A equipa partira de Munique com o “paradigma Guardiola” memorizado.
- Em que medida o seu futebol tem de instintivo e tem de táctico?, perguntavam a Thiago Alcântara, o médio brasileiro do Bayern feito na escola (de jogo e pensamento) de Barcelona.
- “A táctica é a noção dos espaços e a aprendizagem. O instinto tem mais a ver com o momento em que te chega a bola”, respondia Thiago. –“ Há que ler o jogo onde quer que esteja a bola e isso aprende-se. Por exemplo, quando tens dois médios e um vai na pressão, tu dás um passo atrás e fazes a cobertura porque aprendeste, mas, em pleno jogo, isso é instintivo, porque já o fazes desde pequeno. Tens é de saber que depois quando mudas a zona onde jogas, mudas de movimentos. Ou seja, o instinto também se aprende!” (...) “A liberdade tens de ser tu a dar-te a ti próprio em função de te sentires mais ou menos relaxado segundo estiveres mais acostumado em determinado local do campo. Quanto melhor conheces a posição, mais te atreves no jogo”.
Esta entrevista com Thiago, publicada no “El País” na véspera do jogo do Nou Camp lançava, afinal, o que seria este grande confronto de táctica, técnica e arte. Durante muito tempo, o instinto de Thiago dominou o funcionamento da “sala de máquinas” do jogo.

No inicio, Guardiola tinha de escolher entre ter mais um homem na defesa (defesa a 4) ou ter mais um homem no meio-campo (defesa a 3). Entrou com esta segunda ideia (3x5x2) mas logo ao fim de 15 minutos com as bola em profundidade do Barça a saltar a zona de pressão bávara a meio-campo (onde um “panzer” como Schweinsteiger ganhara o lugar ao criativo Gotze) tremeu ao ver Thiago deslocado sobre a ala direita (sem se atrever a dar-se liberdade no jogo) e assustou-se com o “três-para-três” da sua linha recuada, Benatia-Boateng-Rafinha, perante os coelhos que saiam da cartola do trio atacante Messi-Neymar-Luiz Suarez.
Assim, rapidamente reequilibrou-se num 4x4x2 que foi mais um 4x1x4x1 tal a forma como Muller defendia numa ala e só depois surgia em diagonal no momento ofensivo.

O Bayern montou uma defesa zonal em pressão baseada em dobras constantes na zona central à frente da defesa. Durante os muitos momentos de posse alemã, Messi procurava sempre o melhor sitio para depois se dar à equipa, e receber a bola como condutor desde o centro ou vindo da ala direita.

Quando a posse (sem profundidade) do Bayern crescia, existia a táctica de Rakitic para por “gelo” no jogo. Os dois golos vindos do “país das maravilhas” de Messsi ao entrar para os últimos 15 minutos tirou os alemães da sua “casa táctica” e, num ápice, a organização do instinto desintegrou-se.
Guardiola assumira que tinha solução para tudo menos para parar Messi. É a confissão da insustentável leveza humana.

A MAIOR AMEAÇA AO “MITO DA POSSE”

No final, ficou a ideia que foi o génio de Messi que roubou o jogo ao Bayern quando este parecia tê-lo controlado. O instinto que decide quando lhe chega a bola, como dizia Thiago em tese aplicada ao momento em que algo entra no jogo e supera a táctica. Porque são coisas que se fazem desde pequeno.

Claro que é importante marcar o pivot adversário, neste caso Busquets, porque ali está a origem de tudo, mas o Barcelona tem hoje outras vias de saída no saber de Rakitic (no centro a pegar ou a dar largura na meia-direita em posse).
Causa sempre impressão, no entanto, ver um treinador mudar de plano táctico de jogo (sistema) logo aos 15 minutos. Ainda para mais, claro, se ele for Guardiola. Porque neste caso não se trata de elogiar a capacidade da equipa rapidamente se transformar em termos de sistema no decorrer do jogo. Trata-se de um treinador reconhecer que pensou mal o jogo, e o que o adversário podia fazer. 101 jogos depois o Barcelona teve menos posse de bola que o adversário num jogo. E ganhou 3-0. É a maior ameaça do século ao “mito da posse”.