O líder dentro do campo

12 de Janeiro de 2007

Imagino a mente de um treinador no banco quando as coisas correm mal e a equipa parece perdida em campo. Por mais que berre e gesticule na berma do campo, os jogadores não o ouvem. É utópico pensar que se consegue nesse momentos mexer verdadeiramente na atitude da equipa. Pode alterar uma ou outra posição, e com isso o jogo até melhorar, mas, quando os elos de ligação, táctica e atitude, entre treinador e jogadores, se partem, a equipa perde o controlo em campo. Nessas alturas, só uma coisa pode aliviar um treinador: encontrar um jogador inteligente de grande carácter. Aquele com quem basta um trocar de olhos desde o banco, uma simples troca de impressões na berma das quatro linhas, «ajuda-me!», diz o mister mesmo que seja por outras palavras, e o seu prolongamento de carácter em campo agarra na equipa e recoloca-a com os pés assentes na relva, quer na táctica, como na atitude. O tipo de jogador que agarra o jogo pelos colarinhos. Tenho esta reflexão quando vejo jogar Paul Scholes no Manchester United. Quando o onze abala, como sucedeu em Newcastle, e Alex Ferguson, de olhos esbugalhados, começa a mascar chiclet com mais intensidade, o médio cenoura agarra na equipa, na bola, no jogo, e leva-os por onde e para locais que só ele conhece.

O líder dentro do campoExistem outros jogadores que provocam a mesma sensação. Continuando nos relvados ingleses, Lampard no Chelsea. Em certa medida, Deco no Barcelona. Volto a lembrar-me de tudo isto durante a fantasmagórica exibição do Real Madrid na Corunha. Grandes estrelas transformadas em sombras errantes. Apenas Guti transmite em campo esse carácter, mas saiu lesionado logo no primeiro quarto de hora. Emerson, seu fiel escudeiro há sete épocas, ainda tenta, mas as pernas já não aguentam o peso do corpo e suas intenções revolucionárias. Gago, um poeta do bom futebol lançado na fogueira, lembra um decorador de interiores a tentar descobrir locais para colocar flores numa casa em escombros. O mais estranho é, porém, ver Raúl perdido em campo. Os grandes planos já não revelam o mesmo semblante guerreiro e a esfinge de dureza que é Capello afunda-se na trincheira que são os bancos de suplentes em Espanha. Van Gaal dizia que a única altura apropriada para falar de estratégia com os jogadores é antes do jogo. Em termos de interferir na atitude da equipa, ao treinador também resta, no entanto, o intervalo. Não existe uma única forma de o fazer. Há quem o faça gritando, incentivos ou ameaças, outros preferem uma conversa calma individual, outros insultam e dão pontapés em baldes e murros nas portas, e também haverá quem pouco fale. Nenhuma é infalível. Durante um jogo, o líder mais do que no banco, tem de estar em campo.