O meu número 9 é um «monstro»

22 de Janeiro de 2007

O meu número 9 é um «monstro»

Início do Inter-Fiorentina, e os grandes planos focam-se em dois gigantes pontas-de-lança: Toni, 1,93m., no onze viola, Adriano, 1,89m, tanque canarinho do Inter, que tem a seu lado uma girafa sueca de 1,92, Ibrahimovich a quem, no fim, Mancini ousou comparar a Van Basten. São galáxias diferentes. Pensar no holandês voador é recordar tempos em que o duelo era feito por nº9 de outra casta: Careca-Van Basten. Um brasileiro que jogava como dançava um sambista do morro, na finta, desmarcação e remate, e um holandês de uma elegância tal que até parecia jogar em bicos de pés. Ibrahimovich conta que antes de jogar futebol praticou artes marciais. Se Van Basten antes do futebol tivesse outra actividade, seria bailarino. O ponta-de-lança possante é, no entanto, uma tradição do futebol italiano, O actual campeonato é um bom exemplo desta preferência pela morfologia monstruosa do nº9, desde o berço ensinado a lutar sozinho e sem medo contra seis ou sete defesas. Catorze das vinte equipas alinham, preferencialmente, só com um ponta de lança.

Em vez de um nº9 essencialmente veloz, cada qual tem o seu monstro particular para chocar com as muralhas defensivas adversárias. São, também, os casos de Iaquinta (1,85 Udinese) Bogdani (1,90 Chievo), Lucarelli (1,88 Livorno), Riganó (1,91 Messina), Caracciolo (1,94 Palermo), Bonazzoli (1,92 Sampdoria), Tare (1, 91m Lazio), Corona (1,90m Catania), Bjelanovic (1,88 Ascoli). Quase todos apostam sobretudo em ganhar as chamadas segundas bolas, aproveitar os espaços vazios por mais curtos que sejam e tentar fazer golos vindos do nada. Muitas vezes tem, primeiro, a missão defensiva de segurar a bola por alguns segundos e assim permitir que as linhas recuadas da equipa subam no terreno. Com um avançado mais frágil sozinho no ataque, isso seria impossível. Até podia ser mais perigoso no contra-ataque, mas perderia a bola com maior facilidade, não conseguindo assim sacudir a pressão do adversário.

A dinâmica de jogo que estes pontas-de-lança possantes proporcionam seria diferente se jogassem com outro avançado ao lado. Nesse caso, esse avançado complementar seria de características diferentes, mais esquivo para aproveitar os espaços vazios gerados pelas movimentações e arrastar de marcações que o nº9 possante provoca. Não é isso, porém, que está na mente tacticamente cínica das equipas italianas. Mais do que mera opção táctica, esta forma de jogar é quase uma questão de cultura estilística do futebol italiano, equipas e selecção, onde, ao longo dos tempos, desfilaram monstros como Riva, Boninsegna, Graziani, Vieri ou Toni. A prova, afinal, de como é em Itália que, desde sempre, mais se sente a exacerbação da dimensão física do jogo.