O Mistério do lateral-esquerdo desaparecido

08 de Fevereiro de 2007

O Mistério do lateral-esquerdo desaparecido

Um dos aspectos que mais me perturba numa equipa é ver laterais a jogar com o pé trocado. Isto é, um destro na esquerda, ou um esquerdino na direita. É contra-natura. A todos os níveis. A defender e a atacar. Falhar um controlo ou a saída correcta de bola numa zona de alto risco condiciona todo o jogo da equipa. Desde logo, no início de construção, pois é para quem quase sempre o guarda-redes passa a bola para a equipa sair a jogar. É difícil, táctica e individualmente, faze-lo com fluidez, no caso de, por exemplo, ser um destro a sair com a bola na faixa direita. É impossível dar verticalidade de movimentos, pois em vez de progredir pela faixa, a tendência é flectir para dentro à procura do melhor pé para conduzir a bola, condicionando a progressão em posse e o passe. A defender, face a um extremo destro, o lateral, igualmente destro, fica logo como que em desequilíbrio motor, pois é forçado a ir para o corte com o pior pé, acabando por, muitas vezes, por fazer falta. A atacar, fica limitado nos cruzamentos, pois surge na posição contra-natura para centrar com o seu melhor pé. Em busca dele, finta para dentro e nisso, perde, quase sempre, o timing certo para o fazer. Portugal vive hoje esse problema no lado esquerdo. Sinto isso ao ver Caneira, destro, nessa posição. Como sabe posicionar-se muito bem a defender, disfarça com a sua cultura táctica as naturais dificuldades que te, depois, para dar profundidade à posição.

O Mistério do lateral-esquerdo desaparecidoRazões e soluções para a crise Faltam referências de valor para ocupar esse lugar. Dezasseis equipas da Liga e dez estrangeiros entre os habituais titulares. FC Porto: Mareque; Benfica: Leo; Sporting: Telo; Leiria: Tixier (e, agora, Rossato); Marítimo: Evaldo; Nacional: Alonso; Belenenses: Alvim; E.Amadora: Edu Silva; Aves: Anilton; Académica: Lino; Restariam seis opões: Braga: Carlos Fernandes; Boavista: Nuno Pinto; Paços Ferreira: Antunes (está nos Sub-21); Naval: China; Setúbal: Bruno Ribeiro; Beira-Mar: Tininho. Miguelito desapareceu. Nuno Valente está na fase descendente. Dos menos falados fica uma nota especial para o lateral-esquerdo da Naval: China. Merece análise mais atenta. É um bom lateral. Baixote, mas com qualidade de jogo. Mas, já agora, olhem para França, onde está Marco Ramos, emigrante de segunda geração, lateral-esquerdo do Lens. Não é um fenómeno, mas domina todas as coordenadas posicionais do lugar sem tremer. Penso no passado e recordo Inácio, Fernando Mendes, Dimas, Rui Jorge. Bons jogadores, mas nada de outro mundo. Pouco mais.

Álvaro também era um destro adaptado. Veloso era ambidestro. É verdade, também que há menos canhotos que destros, mas as razões para esta crise de laterais-esquerdos devem ser procuradas em zonas mais profundas do futebol português e não no cume das equipas seniores. É um problema de formação, onde continua a faltar uma politica estruturada que vise trabalho posicional específico, para criar, desde o berço, especialistas em cada posição. Os miúdos crescem posicionalmente de forma selvagem e são encaixados, depois, nas posições que melhor se lhes adaptam. É a regra. Somos um país de médios e segundos avançados. Jogadores híbridos. E, não duvidem, na alta competição o que faz a diferença são os especialistas, não os polivalentes.

OS EXTREMOS: Tesouro da selecção portuguesa

O Mistério do lateral-esquerdo desaparecidoQuaresma, Cristiano Ronaldo, Simão. Com este trio de talentos que acendem as luzes da equipa com acelerações e travagens, com astúcia para tocar com os dois pés, apoio, controlo, finta, esquerda ou direita, recordamos uma velha espécie futebolística em vias de extinção: os extremos. Basta um homem encostado à linha e o campo alarga-se. Aqui está um princípio base do bom futebol que é hoje um tesouro da selecção portuguesa. Poucas outras nações dispõem de extremos puros, com qualidade e magia, como Portugal. Londres foi um bom exemplo desse tesouro, frente a um onze brasileiro sem ideias, sem arte e…sem extremos. Um aspecto, porém, a apontar neste mundo de raridades artísticas.

Faltam canhotos Do meio-campo para a frente, nas duas equipas, só jogaram destros. A importância do canhoto na arte dentro do relvado tem legado histórico. É verdade, sim senhor, que a nosso trio mágico (como seria o do Brasil com Robinho, Ronaldinho e Káka, também todos destros) sabe como rir-se da táctica, mas os esquerdinos tem como que um dom subversivo suplementar. É como aqueles que em vez de irem pela auto-estrada, preferem sempre meter-se por um atalho. Mas para que pedir pela lua se podemos ter as estrelas?

COSTINHA, PETIT, PEDRO MENDES: Nº6: Trinco ou pivot-defensivo?

O Mistério do lateral-esquerdo desaparecidoPortugal tem o esqueleto do onze formado. Ok, temos o problema do lateral esquerdo e algumas hesitações no ponta-de-lança, mas há pistas a seguir. No meio-campo, a questão maior reside no lugar de pivot-defensivo, o velho trinco. Costinha chegou ao fim da linha. Tem jogado Petit. É o tipo de jogador que gosto de ter quando estou a ganhar e quero segurar o resultado. Aqueles últimos minutos contra a Holanda no Mundial 2006 em que, mesmo reduzidos a nove jogadores, parecia, por força dos gritos e acção de Peiti, arrastando toda a equipa, que estávamos a jogar com doze, diz tudo sobre o seu carácter em campo.

É, porém, noutra perspectiva, o tipo de jogador que me causa incómodo ter quando preciso de ganhar. Nesses momentos, quero nessa posição e espaço outro tipo de jogador. Alguém que saiba iniciar a construção e sair com a bola jogável, dando, com precisão de passe, maior discernimento e profundidade à transição defesa-ataque. Falta a Petit esse lado subsequente do pressing. Outra solução? Olhem para Inglaterra. Pedro Mendes. Para além dominar a recuperação e intercepção de linhas de passe (embora, claro, sem a garra de Petit) tem também grande rotatividade de jogo, adquirida na vertigem do jogo britânico.