O MUNDO FUTBOLIZADO

21 de Março de 1999

O MUNDO FUTBOLIZADO

Cantona disse um dia que “O futebol é um arte, uma forma de expressão cultural onde os gestos são da mesma forma nobres e admiráveis como os de um bailarino. Um dia diremos que Maradona esteve para o futebol como Rambaud esteve para a poesia ou como Mozart esteve para a música.” Na Inglaterra, em finais do Séc XIX, as famílias mais modestas não tinham meios de praticar os desportos mais atraentes da época, a equitação e a caça, privilégio elitista, mas os pátios das escolas eram palco de um jogo habitual nas festas populares: o football. Um jogo praticado por todos, independente da condição social, altos, baixos, magros, gordos, velhos, novos, todos sem qualquer segregação possível. O fottball começou a ser jogado por toda a parte, mas seria na Universidade de Cambridge que The beautiful Game, como lhe chamou Péle, conheceu a data histórica do seu nascimento.

Rummenigue foi um grande jogador alemão nos anos 70. Agora é vice-presidente do Bayern Munique. Uma forma de atenuar a nostalgia dos relvados são os jogos de veteranos que, perante um público ora divertido, ora a bocejante, por vezes se disputam. Conta Valdano que há anos num desses jogos, estava no banco ao lado de outro mito dos 70, Kempes. No relvado, Rummenigue corria alegre. Pegou na bola, fintou dois gorditos e entrou isolado na área, descaído sobre a direita. Tinha tempo para pensar, reduziu a velocidade, que já não era muita, e olhou em volta. Foi quando Kempes gritou: “Não penses!” Segundos depois Rummenigue resolveu centrar.

Não era má ideia, mas como hesitou antes de o fazer a bola saiu sem direcção. Kempes então abanou a cabeça, encolheu os ombros e disparou “ Eu não disse? Os alemães não tem nada que pensar”. Kempes pertence a outro futebol. Aquele que muitas vezes no local do remate, opta por tabelar, mas que deu ao mundo os maiores génios da bola. Os grandes pintores ou os grandes músicos, como qualquer artista, sempre foram, para lá das telas ou das pautas de música, personagens fascinantes. O futebol enquanto arte, expressão cultural de cada povo, espelha com mestria o seu génio, seus valores, sua história e atitude de vida. Cada estilo de futebol é produto das idiossincrasias em que cresceu e viveu. Na historia do mundo, a arrogância germânica tumultuou e assustou o mundo, no futebol gerou um musculoso estilo imperial sem fantasias técnicas, que a tornou na maior potência europeia. Desde o tocar na bola até ao ritmo, velocidade, espontaneidade e forma de reagir ao evoluir do jogo, pode-se ver as influências e as características de cada povo ou continente. O futebol brota do corpo dos povos, da sua morfologia e torna-se assim a melhor forma de desenhar essas diferentes pulsações. Nos anos 80, quando perguntaram a Liceranzu, jogador do Ath.Bilbao, o que esperava do próximo jogo, ele respondeu: “espero que chova”. Nesta resposta estava acima de tudo o desejo de encontrar o ambiente ideal para o estilo de jogo da equipa, habituada, no País Basco, a jogar debaixo de forte chuva, o que moldou um estilo de passes longos, quase britânico.

AMÉRICA DO SUL: ÍNDIOS, SAMBA E TANGO

O MUNDO FUTBOLIZADONa Europa, os jogadores sul americanos tem que se adaptar a um diferente estilo de futebol. Comparado com o do novo mundo, o futebol de velho continente exige maior velocidade e menos toque de bola. “Se na Argentina a bola anda em câmara lenta, aqui sai como uma bala” diz Amato um gaúcho que jogou na Espanha e na Escócia Foram os ingleses que inventaram o futebol, mas foram os brasileiros que o transformaram em ballet. Em 1938, num jogo com a Polónia e com o campo completamente enlameado, Leônidas resolveu tirar as botas e jogar descalço porque assim se sentia mais á vontade para expressar o seu futebol malabarista. Algo que segundo Telê Santana explica a informalidade do talento brasileiro que desenvolveu uma intimidade tal entre o pé descalço e a bola que jamais nenhuma chuteira conseguiu e que prova como jogar descalço permite driblar e dominar melhor a bola. No futebol o drible é a dança, expressão rítmica que molda o equilíbrio corporal. O habitat natural para esta mágica expressão corporal está em África. O drible, como o genuíno ritmo corporal, é negro.

Renato Cesarini, um treinador sul americano dizia que quanto mais perto se está da baliza, mais longe se está do golo. A arte está em saber controlar a distância e a velocidade mantendo a bola dominada. O segredo está na posição do corpo. Para melhor se entender esta definição basta observar Careca, Romário ou Ronaldo. É a sambada técnica brasileira, com sangue europeu, influenciado pela latinizasse tranquila dos portugueses, temperada com o toque africano, aliada a um povo condicionado pelo clima abrasador, que torna os movimentos mais lentos e onde se deixa crescer a relva para a bola rolar mais lentamente. Em Espanha, ao invés, rega-se a relva antes do jogo, para o tornar mais rápido. O clima é um bom meio para entender os diferentes estilos de futebol. Dividindo o mundo em dois blocos, norte e sul, repara-se que á medida que caminhamos para norte e o frio aparece, o jogo torna-se cada vez mais atlético.

Mas claro que um estilo de futebol não depende apenas do seu clima. Na América do Sul, a atitude competitiva dos brasileiros contrasta com a dos argentinos, marcados pela colonização espanhola e por uma latinizasse diferente da portuguesa. Falta-lhe o aroma africano, sobra-lhe o exaltado temperamento hispânico que torna o futebol mais rápido, também táctico mas menos artístico. O jogo é abordado de forma mais guerreira, imagem de um povo marcado por uma história conturbada, desde a colonização até aos regimes militares que o governaram e fizeram crescer nele a rebeldia. A nostalgia sensual do Tango decora divinamente os seus movimentos. Nada mais argentino que Maradona a driblar ao som de mi noche triste de Carlos Gardel. O semblante índio do mexicano Hernandez e do chileno Salas, que tem nas veias o sangue espanhol cruzado com o dos índios mapuche, diz muito da história e de um estilo que se estende a América Latina. O orgulho de bairro, como lhe chamou Menotti.

Desde 1519, quando o conquistador espanhol Cortez desembarcou na Costa do Yucatan e iniciou a colonização hispânica da América do Sul e Central, que a separação entre o Índio e o Europeu continua no México. Permanece sem se notar, na morfologia mexicana, indícios de grande miscegenação. Os descendentes de europeus continuam a reger o país, mas são os índios os reais donos do seu carácter. Em todo o México continua a existir um grande respeito pela cultura do índio, símbolo do orgulho nacional e matriz do Museu de Antropologia da Cidade do México, condenação histórica da sangrenta invasão espanhola e abrigo da lendária civilização Azteca e Maya, que ela destruiu, recordada no culto a Juarez e Zapata, heróis revolucionários índios. Todas as equipas da América Latina parecem jogar a vida em cada partida que disputam. Uma atitude que ficou desde os Sec. XVI ao XVIII, quando os europeus atravessaram o atlântico e desenharam um novo mapa do mundo.

EUROPA: A TÁCTICA E A FORÇA

O MUNDO FUTBOLIZADOApesar da invasão estrangeira e dos milhões de libras que nele entraram nos últimos anos, o futebol inglês continua fiel ao seu vertiginoso kick and rush, chuta e corre. A selecção virtuosa de Beckam e Owen sonha com o dia em que a bola passe a ser tratada com mais carinho nos relvados ingleses, onde é tradição as equipas terem no meio campo, jogadores duros de pequena estatura, cujo protótipo foi Styles, anos 60, que tirava a dentadura antes de entrar em campo. Os britânicos vibra da mesma forma com um tackle ou um canto, do que com um remate ao poste ou um pénalti. Exige que os seus jogadores corram atrás de todas as bolas com a língua a arrastar pela relva, mesmo as que vão irremediavelmente sair pela linha de fundo. É o o espirito lutador de quem vê no futebol uma das poucas formas para fugir á desintegração social que marcou a história da Inglaterra ao longo do século. No Mundial-86, o Argélia-Irlanda foi tudo menos um bom jogo. Duro, violento até e com muitas paragens. No final 1-1. Pouco depois Billy Bingham, o rosado treinador irlandês, entra na sala de imprensa com o ar de que preferia estar num pub e de quem há muito perdeu a ilusão sobre o futuro do futebol. Os irlandeses tem a tradição de grandes bebedores de cerveja.

O nariz vermelho do velho Bingham lembra tudo menos o de um homem que passa muito tempo a pensar em tácticas. O jogo? Óptimo, bem disputado, podíamos ter ganho mas o futebol é mesmo assim. Os adeptos irlandeses festejam sempre no final de qualquer jogo. Muitos duvidam que saibam o resultado, mas afinal o que isso importa quando há sempre um pub por perto? O titulo da música que guia a selecção verde para o Mundial-90, não deixa dúvida sobre o estilo do seu futebol “put them under pressure”, coloca-os sobre pressão. Assim o fizeram sempre fieis ao kick and rush: pontapé de Pat Bonner, cabeça de Cascarino no limite da área, e alguém surgirá para rematar. Os seus alegres adeptos parece não exigirem mais. Foi assim marcaram á Holanda, onde o futebol é de culto. O elixir do bom futebol das túlipas é a formação e o futebol de rua. No relvado, o Ajax e a selecção laranja pintaram quadros que causaram inveja a Rambrandt e Van Gogh. Na Europa o futebol italiano sempre foi profundamente dramático. As suas equipas parecem mais ambiciosas quando não tem a bola do que quando a recuperam. Um universo de contrastes, presa entre a alta costura e o prêt-a-porter. O seu futebol sempre teve classe e elegância, mas os seus tiffosis nunca aceitaram outro resultado que não a vitória. Uma combinação difícil. A base do dilema que gerou o dramático estilo técnico táctico transalpino.O MUNDO FUTBOLIZADO

AFRICA: MAGIA COLONIZADA

Estruturalmente com séculos de atraso, África continua a ser um diamante em bruto. A marca da secular colonização europeia continua presente nos povos que o habitam. A França venceu o Mundial-98 com uma selecção que reuniu genes futebolísticos de vários continentes, suas antigas colónias ou territórios. Uma vitória que começou em 1635 com a colonização de Guadalupe, terra de Henry e Thuram e da Martinica. Três anos depois, os franceses ocuparam a Ilha da Reunião, numa cruzada colonial que atingiu o apogeu no norte de África, onde sempre esteve o poder do futebol africano.

Aqui, o futebol fruto das influência francesa expressa um estilo mais europeu, notório no jogo apoiado e táctico do Egipto, Marrocos, Tunísia e Argélia. Zidane, Karembu e Desaily são compatriotas de Aimê Jacquet e Platini. São jogadores franceses. Apesar dos seus nomes, graças á história e aos centros de formação do futebol gaulês. Na África Central mora a Nigéria, onde a bola ainda se move com uma magia que só encontra paralelo no nosso tempo de infância. O futebol em estado puro, onde o drible é um símbolo de poder e onde a dança é a arma dos esquemas tácticos. Durante dO MUNDO FUTBOLIZADOécadas a África do Sul, aprisionada pelo apartheid, foi um gigante adormecido. Numa terra em que o futebol é o desporto dos negros foi um branco o mentor da nova alma dos bafana bafana. Clive Baker construiu o espirito do futebol sul africano. Desde os pequenos clubes até á selecção de Mandela: “O inicio foi dificil. As equipas negras não podiam entrar nos hotéis, recusados pela cor da pele. Bizarramente, o inverso também era verdadeiro. Quando fui com uma equipa minha a um ghetto negro de Kimberly impediram-me de entrar com eles no hotel. Só admitiam negros. Passei a noite no carro ei pouco antes da alvorada entrei rapidamente para tomar um duche antes que alguém se levanta-se. Hoje, esta é uma boa história”. Com o seu carisma, Baker provou que no futebol o impossível é apenas um pouco mais difícil de conseguir.

O pior estava guardado para antes do Mundial quando os responsáveis sulafricanos entenderam que necessitavam de um homem com experiência internacional. Sem Baker a equipa perdeu alegria e a oportunidade de fazer um grande Mundial. Só quando tomar consciência do seu enorme potencial e afastar os fantasmas da colonização é que o futebol africano será não só o futuro, mas também o presente do futebol mundial. “Quando fui com o meu filho a Paris disse-lhe que África estava muito longe daquela sofisticação. Ele respondeu-me que nem sequer a desejava se para isso África tivesse de perder a sua espontaneidade. Penso que tinha razão e eu não quero perder a minha espontaneidade.”