O ponta-de-lança é um bicho-do-mato não é um bicho doméstico

04 de Maio de 2016

Confesso: quando era pequeno queria ser alemão. Ou melhor, um alemão em concreto. Foi o primeiro cromo pelo qual lutei e quando o tinha, queria outro. Igual. Ficava sempre feliz quando abria as carteirinhas da coleção do Mundial 74 e saia o Gerd Muller. Hoje em dia não acho que nenhum miúdo queira ser um alemão, ou um jogador alemão. Vendo bem, naquela altura também não porque nenhum de nós era parecido com eles. A atração, para além dos golos que marcava, devia-se aquele alemão ser diferente. Em vez de alto, louro e forte era pequenote, moreno e gordito.
O ponta-de-lança é um bicho-do-mato não é um bicho doméstico. Tem de andar pelos locais mais hostis do jogo.
Um ponta-de-lança não faz a equipa jogar mas pode fazer a equipa ganhar. Essa diferença torna-o no jogador mais importante da equipa e ao mesmo tempo naquele de que o jogo coletivo menos depende. É impossível, porém, separar as coisas em campo.

Nem todos as equipas e seus treinadores entendem esta lógica. Porque os pontas-de-lança podem adquirir várias formas. Em geral todos querem que a equipa se adapte às suas circunstâncias, mas num tempo em que o “falso 9” ganha protagonismo, isso já não é possível como antes.
As diferenças mais evidentes são entre o ponta-de-lança que “espera” e o ponta-de-lança esforçado. Esse esforço não é, porém, no vazio: a cultura de movimentos mesmo que seja mais em combate do que a mais astuta e subtil. Já não existem pontas-de-lança como Muller ou Romário. Aguero pode ser o último da espécie. Mesmo Lewandowski ou Higuain são, apesar da subtiliza potente, de músculo. Luiz Suarez será o que melhor combina vários factores.

Sporting's player Slimani celebrates after score the second goal against Benfica during the Portugal's Cup fourth round between Sporting CP and SL Benfica held at Alvalade stadium in Lisbon, Portugal, 21 November 2015. MARIO CRUZ/LUSA

Sporting's player Slimani celebrates after score the second goal against Benfica during the Portugal's Cup fourth round between Sporting CP and SL Benfica held at Alvalade stadium in Lisbon, Portugal, 21 November 2015. MARIO CRUZ/LUSA

Olhamos os do nosso campeonato na luta pelo titulo. Slimani e Mitroglou. Ambos dão sensação de só poder jogar no espaço reduzido da área. Não pergunta se jogaram bem, pergunta-se se marcaram, mas a evolução de Slimani passou muito pela forma como se movimenta em maior amplitude, na largura e a dar profundidade. Mitrolglou não o faz tanto (nem precisa) porque em geral quando a bola lhe chega alguém já tratou dela antes.
É por isso que quem tem mais golos não é nenhum deles. É o “ponta-de-lança anfíbio” que mergulha (na área) e volta à superfície (á entrada da área) sem molhar as penas, Jonas, a arte do segundo-avançado. No fim não perguntamos só se ele marcou, perguntamos como jogou.

Nenhuma das equipas, em rigor, joga num 4x4x2 estruturalmente puro em termos de duplas de pontas-de-lança. É 4x4x1x1. E a diferença é o “1” que está atrás do 9 puro. Quem foge melhor da posição e “aparece” depois nela é quem a ocupa melhor e não quem “está” sempre nela.
No sistema em que ambas jogam (com princípios diferentes) essa questão coloca-se mais a Slimani e ao jogo leonino porque o segundo-avançado também quer ser o primeiro. A exceção é quando joga Ruiz nas costas. Na fórmula-Jonas tudo está definido desde a (sua) base.
Hoje já não existe a excitação da abertura da carteirinha de cromos. E se houvesse nenhum teria o mesmo efeito-Muller. Real ou imaginário.
A táctica tornou-se mais “matemática”. O ponta-de-lança atual não deve queixar-se que lhe passam mal a bola. Tem de tornar “redonda” a que lhe chega mais “quadrada”. Já não é preciso querer ser alemão.