O princípio de Dunga

01 de Agosto de 2006

O princípio de Dunga

É difícil conseguir-se sustentar a opinião de estarmos perante um grande treinador na verdadeira acepção do termo se este apenas orientou selecções. Treinar consiste, entre outros aspectos, em criar uma identidade colectiva a diferentes níveis, tanto no aspecto táctico-técnico como no contexto do espírito de grupo. Tem-se um modelo de jogo, treinam-se princípios de jogo e criam-se hábitos. Preconiza-se um perfil de liderança, impõe-se um estilo e cria-se uma verdadeira equipa. O primeiro necessita de tempo. O segundo apenas necessita de carisma.

Por esta simples dicotomia, se vê, que é difícil para o treinador de selecção conseguir incutir (entenda-se treinar) os princípios de jogo da mesma forma que o faz num clube. Enquanto um tem os jogadores consigo apenas durante três ou quatro dias (vindos de diferentes clubes com hábitos de jogo diferentes), o outro passa com eles, sempre o mesmo grupo definido desde o primeiro dia, longos meses durante a época. O seleccionador deve, portanto, impor-se no segundo capítulo, resgatando a velha ideia de que uma equipa é, antes de tudo, um estado de ânimo. Depois, tendo o seu modelo de jogo e sistemas preferenciais definidos, deve procurar os jogadores com melhor capacidade para interpretar os seus princípios. O ideal é, por isso, conseguir encaixar na selecção, sector por sector, os mesmos mecanismos (pequenas sociedades entre alguns jogadores) já adquiridos nos clubes. Ou seja, um seleccionador acaba por ser, assim, quase como um treinador de pequenos detalhes, um estimulador de energia com a missão de descobrir a melhor coreografia para os actores futebolísticos (em teoria os melhores em cada país) ao seu dispor. Dunga, no Brasil, tal como Klinsmann, na Alemanha, Donadoni, em Itália, ou Van Basten, na Holanda, não foram escolhidos pelos seus atributos tácticos. Nenhum deles tem, no seu passado, grande feitos nos clubes. Donadoni após a Série C só treinara, na I Divisão, o Livorno, durante seis meses. Van Basten estivera antes na equipa B do Ajax. Dunga, tal como Klinsmann, é uma estreia nos bancos. Enquanto jogador foi, apesar de tecnicamente rudimentar, um símbolo de garra e liderança em campo. Foram essas referências que estiveram na mente da Federação brasileira para o escolher, após um Mundial em que a selecção foi acusada exactamente da falta desses atributos.

A questão táctica foi colocada, assim, em segundo plano. Dunga deve, agora, impor-se como líder e escolher a coreografia. Nas suas primeiras intervenções, porém, soube entrar noutros campos e reconheceu que o jogador brasileiro é fraco na marcação e sempre continuará a ser. Mais à frente, frisou que um jogador tem de se destacar em algum ponto: ou saber marcar, ou sabe passar ou sabe fazer golos. Pelo menos uma tem de saber fazer bem! O futebol moderno ao mais alto nível já provou que as exigências são maiores e no fundo regressam às raízes: recepção-passe, marca-desmarca. Embora traindo a sua raiz artística, foi exactamente esta superior noção táctico-técnica que levou o Brasil de regresso ao topo mundial em 94 e 2002.