O principio de Pepe: futuro e identidade

04 de Janeiro de 2007

Não existe nenhum caso-Pepe. Em causa não está a simples utilização de mais um brasileiro naturalizado por Portugal, mas sim saber como queremos construir o futuro do futebol português. Uma questão de identidade, onde se cruza formação, estilo e critérios emocionais. Pepe disse que queria jogar na selecção. Como precisamos de um bom central, é bem visto. Também precisamos de um ponta-de-lança e um lateral-esquerdo. Podia-se então acelerar a naturalização de Liedson. Para a esquerda, pode ser que Jorge Luiz volte em breve. É evidente que as questões não podem ser postas assim. Á luz da lei, o direito de Pepe jogar na selecção é inquestionável. Agora, o que se deve discutir é se é esta a melhor forma de construir o futuro do futebol português, formação, alta competição e selecção. Se esta é a melhor forma de fazer a ligação emocional entre o que deve ser uma representação nacional. É óbvio que não.

Para mim, uma selecção é isto: uma comunidade de emoções e cultura partilhada ao longo do nosso crescimento humano e desportivo. Não faz sentido ser de outra forma. Se essa selecção estiver formada por elementos com outras bases, por mais valor desportivo e humano que tenham, é impossível provocar-me a mesma sensação de identidade colectiva. Uma coisa é o nosso clube jogar com 11 estrangeiros, outra é a selecção. Para a sentirmos como nossa é indispensável essa identificação emocional. Vejo o futebol de selecção como uma expressão cultural dos países, espelho das suas idiossincrasias. Por isso, é perturbante ver um ganês (Asamoah) na Alemanha, um nigeriano (Olisabede) na Polónia ou um brasileiro na Croácia (Da Silva) ou Espanha (Senna). Desta forma, será impossível no futuro comparar diferentes estilos de futebol.

O local de formação

O principio de Pepe futuro e identidadeA França é diferente. Os jogadores, apesar de oriundos de suas antigas colónias ou territórios, já nasceram ou foram formados nos seus clubes. O mesmo sucede com a Holanda e o Suriname. Este é um bom critério para definir um jogador seleccionavel: o seu local de formação futebolística. Durante anos, por exemplo, a Bélgica jogou com Oliveira. Um brasileiro que mal sabia falar português, pois fora para lá muito novo, onde nasceu como jogador. A sua inclusão na selecção belga era, por isso, perfeitamente aceitável. Pepe teve um crescimento, humano e desportivo, muito diferente do de Nani ou Nelson. Nani, também recentemente naturalizado, já nasceu inclusive em Portugal. Ao contrário de Pepe, que chegou aos 18 anos para o Marítimo, Nelson tem as duas ligações, a formação e a emocional. Nasceu em Cabo Verde mas veio para Portugal ainda para os juniores do Vilanovense. Quando miúdo, tendo João Pinto como ídolo, conta que era treinado pelo pai Bernardino, que o incentivava dizendo que um dia ainda iria jogar para Portugal.

Apesar da independência, a ligação emocional desses países com Portugal continua profunda. No Brasil, claramente, tal é diferente. Nenhum pai treina o filho de 12 anos dizendo “um dia vais jogar por Portugal!” Em vez de pensar apenas no jogo seguinte, um seleccionador deve pensar no futebol nacional em toda a sua dimensão: Presente, futuro, estilo e identidade. O recurso a naturalizados sem qualquer ligação, de sangue, formação ou emocional, à nação que representam, é o primeiro passo para diluir a comunidade de emoções que uma selecção deve transmitir e ser para quem a vê e sente.