O princípio do bom futebol

23 de Dezembro de 2007

O princípio do bom futebol

Das várias definições que já ouvi no futebol, existe uma que gosto de destacar: “Uma equipa de futebol é como o organismo humano que tem órgãos que se adaptam ao mau funcionamento de outros. Há uma parte de vida vegetativa, quase automática, outra de reflexão espontânea e uma inteligência que controla quase tudo.” Foi dita, nos anos 60, pelo húngaro Arpad Csanádi. Olhamos para um relvado e toda aquela imensidão parece ter a mesma importância. Perto da baliza imaginamos a bola nas redes, mas, antes disso, ela vai ter de percorrer muito caminho. Nesse percurso, nem todas as estradas têm a mesma importância. Na divisão entre os flancos e a zona central, está implícita duas formas viver o jogo. No flanco, sob o prisma dos desequilíbrios e da velocidade de pernas.

A emoção. No centro, sob o prisma do pensamento e da velocidade de mente. A razão. Partindo do principio que qualquer plano, de vida ou futebolístico, deve antes de executado ser pensado, percebe-se onde começa o bom futebol. Filosoficamente, no pensamento. Em campo, na zona central. Isto é, personalizando a ideia, nasce na cabeça do treinador e vê a luz sobre a relva nos pés do médio-centro. Visitem a história do futebol e tentem descobrir grandes equipas sem bons médios-centro. Não existem. Porque, sem eles, o onze deixa de ter o cérebro, a referência para quem olhamos e passamos a bola na hora de reorganizar posições e reiniciar o circuito preferencial de jogo.

O princípio do bom futebolÉ por isso que a jangada do bom futebol de Rui Costa continua a ser, mesmo na tempestade, a melhor forma do Benfica navegar no relvado. É por isso que, no FC Porto, Lucho brilha tanto quando joga do que quando o não faz, tal o impacto que essa falta provoca na lucidez do jogo azul-e-branco. É por isso que no Sporting, critica-se quando Moutinho é desviado para uma ala, onde não é possível ter a mesma visão para ordenar jogo.

Quando mexe nestas posições, o treinador está mexer nos órgãos vitais da equipa. É como um cirurgião a fazer uma operação de coração aberto. Se o bisturi falha, a equipa perde-se. Mas, às vezes, é indispensável fazer essas operações. Criar um «bypass» no onze para que as suas batidas (ritmos de jogo) mantenha uma leitura e dinâmica de movimentos com igual qualidade de vida. Nos dois últimos jogos, Portugal teve de entrar em campo sem o seu pensador oficial: Deco. Para ocupar o seu lugar, Scolari começou por fazer uma adaptação posicional, passando um extremo (mais habituado a desequilibrar do que a pensar) na tal zona central. Simão. O lado cerebral do jogo ressentiu-se. Naquele ponto, o bom futebol não vive de adaptações. Assim, facilmente perdeu o controlo organizado dos seus movimentos. No segundo jogo, Scolari tentou dar outra lucidez à zona e apostou em dois jogadores mais rotinados como esse lado cerebral. Maniche e Miguel Veloso. Embora o costumem pensar desde posições mais recuadas, a projecção no espaço é a mesma, o corredor central. Com isso, a equipa resgatou o equilíbrio. Não atingiu a mesma dimensão pensadora do especialista mor, Deco, mas conseguiu um transplante de posições mais lógico. Ou seja, não colocou o lado emocional do jogo no local onde devia mandar o lado racional. Desta forma, evitou cometer erros e salvou o jogo e o apuramento. Releiam a definição de Csanádi.

O bom futebol tem, portanto, dois pontos de partida básicos: o pensamento e o médio-centro. Em campo, eles tem um nome e duas pernas. Se o treinador começar a pensar, no jogo e na equipa, a partir de outros locais, raramente encontrará a estrada certa para a equipa caminhar no relvado.