O regresso da arte latina

23 de Março de 2006

O regresso da arte latina

Observando a evolução histórica da Taça dos Campeões, hoje propriedade de uma elite do futebol europeu dominada sobretudo por espanhóis, italianos, ingleses e alemães, e que expulsou do seu grupo nações outrora poderosas (como as de leste ou da região nórdica), podem-se detectar, em síntese, quatro distintos períodos de domínio:

1º - Período de domínio latino. Desde finais dos anos 50 até meados dos anos 60. Foi o reinado do futebol da técnica, onde imperavam as equipas com maior talento individual, casos dos ibéricos Real Madrid e Benfica, ou, noutro prisma, de inteligência técnica, casos dos italianos Milan ou Inter.

2º - Período de domínio do futebol força, de raiz anglo-saxónica. Atravessou os anos 70 até inícios dos anos 80. Foi a eclosão do chamado futebol atlético. A dimensão física do jogo cresce e ultrapassa a técnica, como explicaram as vertiginosas equipas inglesas e alemãs (principalmente Liverpool e Bayern Munique), e numa perspectiva mais táctico-física, o Ajax, modelo pioneiro da polivalência dos jogadores em campo.

3º - Regresso do novo futebol técnico. Este renovado ciclo de domínio latino iniciou-se em meados dos anos 80. Após um período onde se revelou competitivamente leve perante o futebol da força, refez os seus conceitos e passou a conjugar a técnica com a velocidade e a condição atlética. Um ciclo protagonizado pelas recicladas equipas italianas, como Milan e Juventus, até, já nos anos 90, ao renascer do grande Real Madrid europeu.

4º - Confirmando a evolução desta nova correlação de forças e estilos do futebol europeu, as equipas latinas reforçaram, no inicio do Séc.XXI, esta nova tendência do chamado futebol moderno, onde técnica e condição atlética deixaram de fazer sentido quando separadas. O quadro dos quartos de final da Liga dos Campeões de 2005/06, com sete equipas latinas e apenas uma anglo-saxónica, confirma, afinal, uma tendência que já se vem revelando desde há algumas épocas.

Vendo as épocas recentes, em 2002/03, as meias-finais foram disputadas por quatro equipas latinas, e, em 2003/04, estiveram presentes três. A época passada, 2004/05, parecia querer indicar uma inversão de ciclo, com os novos ditames continentais a inspirar, e descaracterizar, o tradicional jogo das equipas britânicas (o Liverpool de Benitez e o Chelsea de Mourinho), só tendo chegado uma equpa latina ás meias-finais – e final- da Champions, o Milan, derrotado depois nos penaltys pelo Liverpool. Foi, no entanto, um facto circunstancial. A actual época voltou a confirmar um ciclo que, pode-se dizer, já se prolonga há mais de uma década. Assim, nas últimas dez Liga dos Campeões, seis foram ganhas por equipas latinas e só três por onzes anglo-saxónicos, sendo dois deles no desempate por penaltys. Nos últimos quinze anos, só por uma vez não este presente pelo menos uma equipa latina na final da Champions.

Que razões para este novo domínio técnico-latino?

O regresso da arte latinaApesar da presença de muitos estrangeiros e da maior dimensão física do jogo, todas as equipas latinas presentes nesta fase da Liga dos Campeões, mantêm no seu jogo a base tecnicista do futebol latino, onde impera o jogo apoiado e o toque curto, procurando conciliar ordem colectiva com talento individual, algo que as equipas ingleses ou alemãs tem claramente menos vocação para fazer (como demonstraram Chelsea, Liverpool ou Bayer Munique na ultima ronda). É quase uma questão genético-futebolistica. Embora o contra-ataque continue a ser uma das principais armas das equipas latinas, a sua actual superioridade sobre a escola anglo-saxónica tem razões muito diferentes das que ditaram os anteriores ciclos de domínio, onde os, digamos, contornos estéticos do jogo estavam claramente separados. De um lado a técnica, do outro o músculo. Hoje essa clivagem não é tão nítida. O futebol latino ganhou maior poder de choque, cresceu do ponto de vista da resistência atlética e, mantendo o perfume técnico, tornou-se mais realista e, na sua mentalidade competitiva, até se aproximou das velhas equipas anglo-saxónicas, que detinham sempre o controlo emocional dos jogos. Hoje, essa, digamos, vantagem mental deixou de existir no confronto com as equipas latinas que, cínicas, sabem esconder a bola do músculo adversário, colocar gelo nos jogos e gerir o seu ritmo. São estas, afinal, as bases do sucesso no táctico futebol moderno, onde o ponto de partida está, muitas vezes, em não deixar jogar o adversário, apostando depois, sem a beleza estética de outrora, em explorar os seus pontos fracos.

Barcelona, Benfica e Villarreal: A inspiração sul-americana

O regresso da arte latinaEmbora com estilos e propostas tácticas diferentes, Barcelona, Benfica e Villarreal, o triângulo ibérico presente nos oitavos-final da Champions, revela, em vários sectores do seu jogo, o traço sul-americano que lhe é incutido por jogadores brasileiros e argentinos. Conduzido pela batuta de Deco e sublimado nos rasgos de Ronaldinho, Eto`o e Messi, o Barcelona de Rijkaard prova como o bom futebol depende, no fundo, da velocidade de pensamento. A defender e a atacar. O equilíbrio nasce, então, dos jogadores tácticos, com Deco ou Motta, que protegem os mágicos. O Benfica de Koeman, em 4x2x3x1, vive sobretudo da solidez e criatividade das suas duas linhas do meio campo, respectivamente a dupla de pivots Petit-Manuel Fernandes, pressing e transição, e, nas costas do ponta de lança, do trio vagabundo Simão-Giovanni-Robert, Nesta dinâmica, Giovanni é fundamental para causar desiqulibrios, sobretudo quando, esquivo, joga em cunha entre os centrais, confundindo as marcações com a sua velocidade e movimentações. Na defesa, impõe-se um trio brasileiro, os centrais Luisão-Anderson, e o lateral esquerdo Leo, que faz toda a faixa canhota a defender e a atacar. Guiado pela classe e visão de jogo de Riquelme, o Villarreal do chileno Pelegrini, é uma equipa com intenso aroma sul-americano nos três sectores do seu 4x4x2. Na defesa, o central Gonzalo Rodriguez orienta as manobras, enquanto na esquerda Sorín, a médio ou a lateral, faz todo o corredor. A meio campo, o pivot Marcos Senna é fundamental. É ele que faz a equipa pensar a transição defesa-ataque. No ataque, as referências são o uruguaio Fórlan, sempre em busca de espaço para rematar, e um argentino naturalizado mexicano (por cuja selecção joga) que chegado em Janeiro, já revelou a sua qualidade, Franco.

Milan, Juventus e Inter: Arte, gelo e táctica

O regresso da arte latinaEm Itália, Juventus e Milan personificam um claro choque de estilos. A diferença de, digamos, dureza competitiva, é feita, sobretudo, pela segurança defensiva e pelo perfil do meio campo. Enquanto a Juventus ergue um muro de recuperadores (Vieira-Emerson), o Milan aposta na leveza de Pirlo, impecável a sair a jogar, mas sem a mesma agressividade na recuperação, pelo que essas tarefas de pressing são sobretudo feitas pelo duro Gattuso que flecte desde a direita para a zona central. Nos flancos, sem extremos, depende muito das subidas do lateral esquerdo Serginho para dar profundidade de jogo pelas faixas. De outra forma não consegue alargar a frente de ataque, apostando apenas nos fortes movimentos interiores de penetração protagonizados pela velocidade criativa de Kaká, muitas vezes apoiado por Seedorf, que, partindo da esquerda, tende sempre, sendo destro, a flectir no terreno com vocação de organizador, servindo depois Schevchenko, Inzaghi ou Gilardino. Pelo seu lado, a Juventus, solta, à esquerda, Nedved e, à direita, Camoranesi, ambos apoiados, quando fazem diagonais, pelas subidas de Zambrotta, dependendo do flanco onde joga. Muitas vezes colocado no banco por imperativos de ordem táctica, Del Piero pode surgir como segundo avançado nas costas de Trezeguet ou Ibrahimovic.

O Inter de Mancini, esquematizado num 4x4x2 com dois pivots (Cambiasso-Veron) e dois alas-extremos (Figo-Stankovic), no apoio à dupla atacante (Adriano-Martins), é quase como uma terceira via. Defende bem, mas revela, muitas vezes, falta de criatividade na zona de construção do meio campo. Sem um médio centro clássico depende sobretudo das subidas de Veron, muito forte depois a verticalizar jogo servindo os avançados ou abrindo nas faixas para os extremos.

LYON: Talvez a equipa mais atraente da actualidade...

O regresso da arte latinaAnalisando, as grandes equipas do actual futebol europeu, há um onze que, numa perspectiva de beleza estética se destaca: o Lyon. Uma das coisas mais sedutoras no seu projecto, é a fidelidade a um modelo de jogo atraente, esquematizado em 4x3x3, com extremos puros. Há quatro épocas que joga assim, há quatro épocas consecutivas que vence a Liga francesa. Tacticamente, monta um triângulo à frente da defesa, com Diarra como trinco-pivot no vértice recuado, soltando, depois, dois volantes transportadores de bola, Tiago, motor das transições defesa-ataque-defesa, e Juninho Pernambucano, talvez o melhor marcador de livres do futebol actual. Sobre as alas, os extremos Govou e Malouda fazem evoluir o 4x3x2x1 para 4x3x3, com um ponta de lança corpulento em cunha entre os centrais, Fred ou Carew. Apesar da sua beleza estética, é, porém, um onze competitivamente leve para o tal pragmatismo moderno, pois jogando em 4x3x3, só com um trinco, fica muitas vezes em inferioridade numérica a meio campo, jogando, depois, de um para um na defesa. O duelo com o Milan será dos mais atraentes desta eliminatória

ARSENAL: O último resistente

O regresso da arte latinaDepois da queda de Liverpool, Chelsea, Bayern e Bremen, na ronda anterior, o Arsenal é o último resistente anglo-saxónico nos quartos-final da Champions. Um intruso entre o mundo latino, orientado por Wenger que após nove épocas em Highburyno nunca passou dos quartos-final da Liga dos Campeões. Poderá ser esta a época do Arsenal na Europa? É muito difícil. Apesar dos títulos ingleses e das exibições empolgantes, o onze de Wenger revelou sempre grande desequilíbrio entre sectores. Espectacular a atacar, intermitente na batalha do meio campo, mas inconsistente a defender. Todos estes sintomas permanecem esta época. Revendo as opções de Wenger ao longo das épocas, repara-se que ele sempre privilegiou a força atlética a defender e a velocidade técnica a atacar. Faltam referências defensivas de qualidade com o mesmo nível dos fenómenos atacantes.

Enquanto Henry, Reys ou Ljunberg assustam qualquer adversário, na defesa, monstros como Senderos, Campbel, Cygan ou Touré, não garantem a mesma qualidade e eficácia. Fortes no choque, revelam pouca agilidade frente a avançados rápidos. Esta inconsistência revela-se também na menor categoria técnica para sair a jogar no início das transições defesa-ataque, facto agravado esta época pela saída do seu super-pivot de recuperação e construção, Vieira, apesar do requinte da visão de jogo e requinte no trato da bola e visão de jogo do substituto Cesc. No resto, há uma clara clivagem técnico-táctica entre-sectores Face a estas debilidades, será difícil o Arsenal conquistar, esta época, a seu primeiro título de campeão europeu. A não ser que, claro, Henry vire toda esta lógica de pernas para o ar…