O risco das alterações tácticas

26 de Março de 2007

Quais serão as motivações de um treinador quando, face a um jogo específico, muda o seu sistema táctico preferencial com que jogou, e bem, nos jogos anteriores? Estratégica ou tentativa de encaixar no adversário? E que sintomas se detectam nessa alteração? Confiança na equipa ou receio do adversário? Será um pouco de tudo isto, dirão, mas, em geral, tal revela que, antes da sua equipa, pensou no adversário. Algo até natural quando os seus argumentos são muito menores do que os do adversário. Algo incompreensível quando essa alteração, se não existir ausências graves, provem da equipa mais forte ou de valor igual. Pensou sobretudo na forma de jogar do adversário, em como o anular. Sintoma de receio e entender o jogo sobretudo no plano individual.
Dificuldade de o entender numa perspectiva zonal. Ou seja, mais do que anular jogadores adversários, tentar anular espaços onde eles se movem. Para isso não é necessário alterar o sistema táctico. Para o primeiro, numa perspectiva individual, sim, é necessária essa alteração. Com essa mudança, porém, existe o risco de alterar a identidade do nosso jogar. Condicionar a aplicação dos nossos princípios de jogo aos do adversário. Penso nisso ao ver PSV-Ajax e FC Porto-Sporting. Após ter dado uma lição táctica contra o Arsenal e liderar a Liga holandesa partindo do 4x4x2 ou do 4x3x3, Koeman surgiu num sistema de três defesas. Contra o Sporting, Jesualdo repete, na segunda parte, uma opção já feita com o Chelsea, e troca o seu 4x3x3 pelo 4x4x2. Nenhuma das opções resultou. Quer no resultado, quer, sobretudo, na qualidade de jogo. Subjacente ao entendimento do jogo no plano individual, contraposto ao zonal, está, muitas vezes, a preocupação de ter superioridade numérica em zonas chave do terreno, principalmenO risco das alterações tácticaste o meio-campo. Mera Ilusão. Assim, face ao 4x4x2 do Ajax, Koeman alinhou seis médios, numa espécie de 3x6x1. Três defesas (Alcides-Da Costa-Salcido) alas (Mendez-Xiang), trinco (Simons) interior esquerdo (Afellay) interior direito (Culina) e o veterano Cocu mais adiantado. Na frente, Farfán.

No papel, ocupação total dos sectores. A dinâmica de jogo revelou, no entanto, a falta de hábitos neste sistema e a incapacidade dos jogadores se adaptarem as essas posições novas. Colocar Cocu, médio puro, a pensar como segundo avançado, ou Afellay, segundo avançado nº10, como médio de transição, é inverter a ordem natural das características e funções para que estão treinados. Ao intervalo, a perder, mudou para 4x4x2, fez entrar Kluivert, mas é impossível dissociar o treino feito durante a semana do que, depois, se quer que a equipa faça no jogo. Questão de hábitos. Coerência táctica e identidade. Tudo factores inegociáveis para uma verdadeira equipa de top.