O ÚLTIMO ROMÂNTICO

07 de Julho de 2007

Quando se retirou, Laudrup deixou no ar uma profecia: “Daqui a dez anos, não haverá mais jogadores como eu. Todos irão preferir atletas”. Quase uma década depois, assim é. A velocidade e a capacidade de choque retiraram espaço a jogadores que faziam uma pausa no jogo. Pouco depois, retirou-se outro poeta de igual casta. Valderrama. Dar a bola a Laudrup ou a Valderrama era como depositá-la num banco. Um lugar seguro que permitia ao resto da equipa descansar mas que, no colectivo, condicionava todo o jogo da equipa. Porque este tipo de jogadores só se sentem bem quando têm a bola, quando o jogo passa por eles. Os outros jogadores em campo também sentem isso e respeitam essa hierarquia, entregando-lha. A Copa América tem revelado, porém, que ainda há quem resista em manter o futebol acorrentado a esses velhos tempos. Riquelme.

Quem olha para ele, à primeira vista, até pode pensar que ele não sente o jogo, mas, basta a bola vir ter com ele para se perceber que, no fundo, eles nasceram um para o outro. Gago, embora jogando mais atrás, também tem a mesma essência de jogo. O problema reside na falta de profundidade que este conceito de bom futebol pode ter sem a correcta ocupação dos espaços. Com ou sem bola.

Reparem bem em como joga Riquelme: Parte do círculo central, olha em redor e vê onde está o jogo. Move-se, então, na sua direcção e espera que o vejam e lhe passem a bola. Até ai, perfeito. Quando a recebe, olha em frente. Se o espaço estiver livre, avança, mas tal é raro no futebol actual, sobretudo o europeu. Nesse momento então, o normal é fazer um passe atrasado. Para o trinco. Nada de grave, pensarão, mas é aqui que nasce, quase sempre, o problema da dinâmica posicional. Por princípio, depois de feito o passe, ele devia sair dessa zona, avançar no terreno e tentar dar uma linha de passe ao portador da bola e, assim, permitir à equipa progredir. Em geral, porém, o que acontece é que ele volta a recuar, aproxima-se do jogador a quem passou a bola, fica quase a um-dois metros dele, e este quase como se sente obrigado a fazer-lhe um novo passe.O ÚLTIMO ROMÂNTICO

Com isto, o jogo fica travado. Riquelme, como Gago, vive, em muitos momentos, ainda aprisionado a este vício. Solta-se melhor no contexto sul-americano, com espaços maiores, fazendo do toque um caminho tranquilo para
chegar onde quer. Joga como se tivesse todo o jogo na cabeça. Como também faziam Laudrup e Valderrama. Têm uma tal convicção em si próprios que se limitam a encolher os ombros quando alguém lhes fala em velocidade e pressão. Riquelme é o último dos românticos. A prova de que, em determinado momento, os jogos deixam de pertencer aos treinadores, para passarem a ser dos jogadores.

A CARREIRA DE RIQUELME

Época - clube - jogos - (suplente utilizado) - golos

  • 1996/97 Boca Juniors 22 /4
  • 1997/98 Boca Juniors 19 /0
  • 1998/99 Boca Juniors 37 /10
  • 1999/00 Boca Juniors 23 (1) 4
  • 2000/01 Boca Juniors 27 (0) 10
  • 2001/02 Boca Juniors 21 (1) 10
  • 2002/03 Barcelona 14 (16) 3
  • 2003/04 Villarreal 32 (1) 8
  • 2004/05 Villarreal 35 (0) 15
  • 005/06 Villarreal 25 (0) 12
  • 2006/07 Villarreal 13 (0) 1

Boca Juniors [Emprestado] 13 (2) 2 Idade: 29 anos (24-Jun-1978) Altura/ peso: 1.82m • 75kg Internacionalizações Argentina: 39 jogos/10 golos