«Olá, Mister!», o treinador também ensina a beber whisky

06 de Junho de 2007

O velho tinha um pouco de tudo. De mestre, pai, companheiro. E era um grande treinador de futebol. Entre os meus livros de referência estão duas «recentes» obras chamadas “Olá Mister!” Foram escrita por esse trota-mundos argentino, Alejandro Scopelli. Uma em 1958, outra em 1970. “O treinador encontra cada ano, novas figuras para modelar, novos directores a quem ás vezes é preciso fazer ver que a bola é redonda, novos ambientes onde tem de se impor decidido, suportando dúvidas e desprezos”, mas “nos países de tradição futebolística mais avançada, mantêm-se a presença do treinador como única autoridade para dirigir e decidir. O comando único na preparação física e na direcção da equipa.

A nossa vida no futebol e os cursos especializados dotam-nos de todos os elementos necessários para essa tarefa.” Longe estavam ainda os tempos da «periodização táctica» como nova corrente abre-caminhos. Scopelli já via o futebol para lá do seu tempo. Em 72/73, na sua última passagem por Portugal, esteve no Belenenses. Era o onze de Freitas, Pietra, Quinito, Godinho e Gonzalez. Terminaria em segundo lugar. Sabia de táctica, sabia de jogadores e…sabia de homens. Ensinou-lhes princípios de bom futebol. Também lhes ensinou a apreciar Whisky. Não bastava bebe-lo era preciso saber aprecia-lo. Passadas poucas semanas os jogadores já discutiam as várias marcas e diferentes qualidades do malte escocês.

«Olá, Mister!», o treinador também ensina a beber whiskyUm treinador tem duas possibilidades no futebol actual. Viver ou…sobreviver. Não é a mesma coisa. Há uma diferença. E grande. Esta semana estive num debate no congresso da ANTF. A certo ponto, falei da primeiro encontro entre o treinador e o presidente do clube que o pretende contratar. Qual a primeira pergunta que o treinador lhe deve fazer? Jesualdo Ferreira respondeu que não deve perguntar nada. Deve é ouvir e esperar que lhe façam as perguntas a ele. Ainda insisti e falei da pergunta que acho que devia fazer: “Presidente, porquê eu?”. Que não, insistiu o professor. “Porque ele não saberia responder?...”, provoquei. E a conversa entrou por outros caminhos. A verdade é que considero aquela pergunta fundamental. E o treinador não deve ter medo de a fazer. Se quiser viver no clube e não só sobreviver. O treinador tem de saber porque o clube o escolheu e este deve saber o que pensa esse treinador. É indispensável existir coincidência de ideias entre o que quer a direcção e o que o treinador preconiza. Cruzam-se aqui, claro, questões de competência. A concepção de jogo e a escolha dos jogadores para o interpretar. A última palavra em ambos os casos só pode ter um responsável: o treinador. É por isso que aquela pergunta inicial é tão importante. Sem existir coincidência entre o que pensa o treinador e as razões que o clube o escolheu é impossível falar-se verdadeiramente num projecto.

«Olá, Mister!», o treinador também ensina a beber whiskyOs adeptos gostam muito de ver os treinadores de pé, a gritar na berma das quatro linhas, esbracejando. Quase sempre, são actos primitivos e estéreis. A não ser que o jogador esteja perto, eles nem ouvem. Nem estão predispostos para tal nesses momentos. Mas o treinador sente necessidade de o fazer. Para descarregar a tensão. Para se proteger dos sócios. Ainda há pouco tempo, um treinador que costuma ver os jogos serenamente, foi surpreendido durante uma conferência de imprensa no final de um jogo que correra mal, com uma pergunta vinda de um intruso na sala: “Desculpe, o banco tem ar condicionado?”, ouviu-se, “é como passa o jogo todo lá enfiado…” No perfil do treinador a contratar, muitos clubes já pensam num que não veja o jogo sentado no banco e goste de andar de pé aos pulos gritando para os jogadores. Ficam todos mais protegidos dos adeptos. Sobrevivem melhor. Viver, já é outra questão. O velho Scopelli, dizia que nada disto pode intimidar o treinador. “Porque as pessoas nascem, naturalmente, com uma determinada vocação e é ela que lhe abre as portas do seu próprio destino. Muitas vezes, surgem os triunfos. Noutras os fracassos. Há equipas que fazem treinadores e há treinadores que fazem equipas”. Só manobrando todo o labirinto que são hoje os clubes de futebol, o treinador pode fazer uma equipa, a sua equipa. Depois, ganhar ou perder com ela.