OLD TRAFFORD: Dois Génios e um Guerreiro

27 de Abril de 2007

O duelo de génios Kaká-Cristiano Ronaldo fazia tremer Old Trafford. O público levantava-se excitado sempre que um deles arrancava com a bola, mas a única vez que Ancelotti se ergueu decidido foi quando Gattuso, o seu médio pica-pedra, caiu e fez sinal que não dava para continuar.

O futebol tem meios mágicos de nos deslumbrar, mas entre jogadores e treinadores existe outro mundo de emoções, temores, receios e esperanças, que escapam ao simples adepto. A partir desse momento, Ancelotti passou a maior tempo de pé gritando com Brocchi, o substituto de Gattuso. Pedia-lhe para encostar em Ronaldo, não perder os espaços de marcação. O facto de estar a jogar mesmo perto de si, junto à linha, ajudou à tarefa.

A par do futebol dos génios, selvagem e maravilhoso, existe o futebol dos treinadores, racional e calculista. Enquanto uns pensam em como devorar o jogo, os outros pensam em como anular o adversário. No relvado, dois estilos, duas estratégias, duas grandes equipas. O Manchester joga naquela intensidade toda a época. É a única que faz sentido em Inglaterra. O Milan não. A Liga italiana tem altos e baixos e há jogos em que o ritmo desce muito. No domingo anterior descansara toda a equipa. Podia-se pensar que estaria melhor fisicamente na parte final do jogo. Aconteceu o contrário. Foi o Manchester (sem fazer uma substituição durante os 90 minutos) a acabar o jogo imprimindo um ritmo vertiginoso. No sábado anterior jogara quase com a mesma equipa. A capacidade de imprimir e manter uma intensidade alta de jogo, depende muito dos hábitos físicos e competitivos adquiridos. O jogo está perto do fim e a ultima imagem que nos oferece é um longo sprint de um jogador com 33 anos. Giggs. De uma área à outra, contra-ataque, passe vertical perfeito e a chuteira de Rooney feita metralhadora para o golo da vitória.

Manchester vive o futebol como fizesse parte da sua alma. Milão sente o futebol como ele fosse um fato de gala. Rooney joga como um gladiador. As arrancadas de Ronaldo são épicas. Káká é diferente. Personifica a alta-costura de Milão. Não cultiva os malabarismos brasileiros. As suas fintas e arrancadas com a bola têm uma elegância de top-model na passarelle. Mesmo quando imprime maior velocidade, parece que impõe uma pausa no jogo. A indispensável combinação entre velocidade e precisão de execução emerge com a mesma naturalidade de um cartaz empunhado pelos seus adeptos: Kaká falli ballar Kaká fá-los dançar.
Evra e Heinze viram bem de perto essa arte. Aos 25 anos, continua com a cara de menino que tinha com 19. Sem adornos de imagem. Acho que vai ficar assim até ao final da carreira. Um toque. Pausa. Outro toque. E arranca para a baliza. Estética perfeita.

Stanford Bridge: Drogba, recital nas alturas

OLD TRAFFORD Dois Génios e um GuerreiroBenitez tinha o plano de estacionar a equipa no meio-campo, controlar as viagens da bola e esperar um erro. Mais do que uma equipa, o Chelsea é um programa de computador pensado para ler a mente dos adversários. A lentidão de Zenden, o jogo descoordenado de Mascherano e o eclipse de Bellamy denunciaram a estratégia vinda de Liverpool. Com Crouch em campo, continuou previsível, mas tornou-se mais perigoso. O problema é que quando a girafa de Anfield entra, jogar para ele em vez de uma arma ou um recurso, passa a ser um fim em si mesmo. Gerrard ressente-se disso. Nem no jogo aéreo a equipa melhorou, porque, do outro lado, estava o jogador que fez a diferença em campo. Drogba, um recital no futebol por alto. Ganhou todas as bolas nas alturas a Agger, e, a defender, recuou, e também dominou nas alturas na sua própria área. Joe Cole é a outra face do Chelsea de final de época. A sua dimensão mais criativa. Na baliza, Cech garante a sobrevivência de qualquer estratégia.

Duas equipas sem alas aprisionaram a bola em zonas centrais na maioria do tempo. Mourinho conhece os alçapões do relvado de Anfield. A «gigantesca» vantagem de um golo fará da segunda mão um jogo de xadrez futebolístico.