Onde e como se decidem jogos

22 de Fevereiro de 2007

Regressou a Champions e volta o futebol ao mais alto nível. Os pilares que suportam o domínio de uma equipa no futebol europeu são, primeiro, físicos, segundo, tácticos, e terceiro, técnicos. Fará realmente sentido esta diferença?

Em Madrid, frente ao Bayern, Capello entrou num novo mundo táctico. Não me recordo de ter alguma vez visto uma equipa sua entrar em campo sem um único médio-defensivo, trinco puro, no onze. Sentou Emerson e Diarra. Apostou na dupla GG, Guti-Gago para gerir a recuperação e saída para o ataque à frente da defesa. Funcionou com bola. Sentiu a leveza do choque sem ela. Quando os monstros bávaros (Schweinsteiger, Salihamidzic, Van Bommel) passaram a cavalgar sobre o meio-campo merengue, sentiu o peso da dimensão física. Tentou convencer Emerson a entrar, mas o puma brasileiro, encafuado na trincheira do banco de Chamartin, recusou-se a saltar para o relvado a poucos minutos do fim. Mas não foi só o jogo de Madrid a dar argumentos para a tese da ordem hierárquica físico-táctica-técnica como suportes dos projectos vencedores do futebol de top actual. No Nou Camp, perante a arte de Deco, Messi e Ronaldinho, foi a locomotiva Gerrard e, sobretudo, o rolo compressor Sissoko que deixaram marcas no meio-campo. Sem bola, o gigante do Mali fez sete faltas, daquelas que matam a criação ofensiva adversária e riu-se do poder da técnica. No pequeno Bellamy, deslumbra-mos outro factor que pode marcar a diferença: a velocidade.

Onde e como se decidem jogosÉ pacífico dizer que os jogos ganham-se no meio-campo. Será? Os últimos tempos, emoldurados nos chamados pequenos detalhes que decidem jogos, dizem que não é bem assim. Os jogos ganham-se e perdem-se é nas duas áreas. Como se defende e como se ataca nesses pequenos espaços a poucos metros da baliza. Bayern e Liverpool controlaram os jogos pegando nas rédeas dos meio-campo, mas foi na área, aproveitando falhas ou pequenos espaços livres, que decidiram o resultado. Em jogos de eliminação directa esta tese de como e onde se decidem os jogos ganha maior peso. Como? No físico e na táctica. Onde? Nas duas áreas. Traição à arte tecnicista? Talvez, mas a verdade é que sem essa noção do tempo e do espaço, ambos cada vez mais curtos na vertigem dos jogos actuais, a capacidade de ser a técnica, por si só, a fazer a diferença é cada vez menor. Pensem nos raids de Quaresma e vejam como foi nos momentos em que uniu os distintos factores que marcou a diferença Vários treinadores vivem confortáveis, com o sorriso do diabo, neste mundo. Benitez, Mourinho, Hitzfeld, Mancini. Outros procuram novos caminhos. Suprema ironia foi ver Capello, quase como uma personagem bíblica, aprisionado neste dilema. Lição de vida dentro das quatro linhas.