Onde o treinador pode decidir?

10 de Junho de 2007

O momento, durante um jogo em que o trabalho de um treinador se mais torna visível e fácil de avaliar é nos primeiros vinte minutos da segunda parte. Repare-se que não falo aqui na preparação do jogo, mas sim na reacção à evolução do jogo. Para além do poder das substituições, o intervalo é a altura em que pode falar com os jogadores, transmitir as suas ideias e provocar uma alteração na atitude e dinâmica da equipa. Quando esta regressa ao relvado, entra com o impulso que lhe foi dado por essa conversa com treinador no balneário. Penso muito nisto no primeiro quarto de hora do segundo tempo. O último caso foi no intervalo da última jornada da Liga espanhola.

O Real Madrid perdia em Saragoça e nem conseguia pegar na bola. Os jogadores não encontravam as suas posições e os grandes planos revelavam os olhares ansiosos que trocavam entre si. O título estava a fugir e não viam como o impedir. Ao mesmo tempo, o Barcelona, empatado em casa, revelava uma ansiedade tremenda. O medo parecia tomar conta dos seus jogadores. Ambas as equipas precisavam de uma conversa de balneário que as levassem, num caso, a resgatar a dinâmica de vitória, e, noutro caso, a recuperar a tranquilidade. O duelo Capello-Rijkaard saia do relvado e travava-se agora na capela sagrada do balneário. Quando no início do jogo se mostram as formações iniciais, é comum as análises ficarem só por esses onzes. Uma distracção perigosa, até para o treinador adversário. Porque a solução que vai resolver o jogo até pode estar nos suplentes que se sentam no banco. Para além da palestra, Capello usou essa arma de forma sábia e isso foi decisivo para mexer na equipa. Tirou Emerson e deu nova dinOnde o treinador pode decidir?âmica ao duplo-pivot defensivo com a entrada de Guti, resgatando o sentido de transporte de bola defesa-ataque.
No ataque, tirou Raul e meteu um avançado capaz de cair mais em cima dos defesas do Saragoça, Higuain. Os vinte minutos revelaram então os efeitos das alterações. Só agarrou o resultado perto do fim, mas o jogo, esse, já o tinha agarrado há muito. Em Barcelona, sem alterações, o onze não conseguia conservar a bola, mesmo depois de estar em vantagem. Reentrou ansioso. Falta-lhe peso físico para o fazer. Iniesta-Deco-Xavi não especulam com a bola. Dominam muitas vezes o jogo, mas raramente o controlam, e este último ponto é indispensável para ganhar estes jogos, quando a crise de confiança se instala. Real Madrid e Barcelona são hoje duas equipas com estados de espírito muito diferentes. Isso influi muito no nível de jogo praticado e foi decisivo para decidir o curso destes dois jogos. E, não duvidem, aqueles primeiros vinte minutos a seguir ao intervalo são o melhor espelho de como está um balneário.