Os «duplos-craques»

18 de Fevereiro de 2007

Conta Bagni, jogador do Nápoles nos anos 80, que muitas vezes lhe intrigava ver, acabado o treino, e enquanto todos recolhiam ao balneário, Maradona ficava para trás e, uma a uma, apanhava as bolas espalhadas pelo relvado, levando-as, ora com pequenos toques sem a deixar cair, ora acariciando-as e dando-lhes beijinhos, brincando com elas, até ao saco que as iria abrigar para a sessão seguinte.
Um ritual de arte intrigante, até que, um dia, lhe perguntou-lhe porque o fazia. “É só porque gosto de estar sozinho com elas, tratá-las com carinho, falar-lhes ao ouvido para que no dia do jogo me obedeçam. Amo-as tanto que todo o tempo do mundo com elas seria pouco para mim” explicou Maradona. Assisto à exibição e vitória, difícil mas calma, do Barcelona sobre o Santander, mas, mais do que os golos, há um lance na primeira parte, que deveria ser recortado para figurar numa Universidade de futebol. Intérpretes sucessivos: Iniesta, Deco e Ronaldinho. A forma como, primeiro Iniesta, sobre a direita, recebe a bola eOs «duplos-craques», penteando-a por baixo, levanta-a subtilmente iludindo assim um adversário, fintando-o e virando jogo para Deco que, na meia-esquerda, a recebe no ar, pára-a e passa ao primeiro toque, para, por fim, Ronaldinho, no bico da área, a segurar, simular, ganhar o espaço da cabina telefónica e centrar para Saviola. O lance até morre na defesa do Santander, mas todo aquele recital de recepção e passe, marca e desmarca, é a sublime explicação prática do que é jogar bem futebol. Tudo tem subjacente uma ideia colectiva de jogo.

Os «duplos-craques»Onde se aprende isto? A tratar a bola com tanta beleza e o jogo com tanta inteligência? No treino ou na rua, o berço do futebol puro? Eu acho que a resposta deve ser procurada (e encontrada) na moral daquela pequena história que Bagni conta de Maradona. Sempre que tenho esta reflexão, dividido entre o talento de geração espontânea ou resultado de processo laboratorial, lembro-me da chamada teoria do duplo-craque, inventada por Amadeo Carrizo, quando falava de Di Stefano: “foi doble crack, de nascimento e pelo que aprendeu”. Dormir com a bola e tratá-la como uma mulher bonita é um bom princípio. Passar muito tempo com ela, descobrir os seus caprichos, é um complemento ideal para entender a sua vontade própria. Aí está o treino. O jogo depois da declaração de amor. De Di Stefano aos mágicos de Barcelona Século XXI, está implícita uma ideia de Shankly, para quem o que é hoje importante no futebol já o era há 50 anos e também será daqui a outros 50. “Jogávamos porque gostávamos e, como o fazíamos tão bem, acabaram por nos pagar para o fazer”, dizia Di Stefano. Quando deixar de ser assim, esqueçam. Já não será um jogo. Já não será futebol.