Os herdeiros de Sacchi

28 de Janeiro de 2005

Refinado ala direito do Milan e da selecção italiana dos anos 80/90, Roberto Donadoni estreou-se, há duas jornadas, como treinador na Serie A do Calcio, no banco do Livorno, por onde, para além do Lecco (Serie C) e Genova, já passara em 2002, na Serie B. De regresso, intitulou-se logo ideologicamente um «sacchiano». No primeiro grande confronto desta sua nova vida, frente ao Milan de Ancelotti, outro filho espiritual de Sacchi, optou, porém, por um sistema de jogo, o 3x5x2, nunca preconizado pelo mestre, adepto do 4x4x2, seguido por Ancelotti, sobre cujo sistema fez, aliás, a tese final do curso de Coverciano, a universidade dos treinadores italianos. Na Holanda, outros herdeiros de Sacchi, seus confessos discípulos, também revelam devoção por sistemas de três defesas. Foi assim que Van Bastem se estreou na selecção laranja (3x1x3x1x2), é nessa dinâmica de Rijkaard procura estender o seu belo Barça, evoluindo do 4x2x3x1 para o 2x3x2x3. No Feyenoord, Gullit, depois das aventuras inglesas, mantêm-se fiel ao 4x4x2 e suas variantes. Todos, porém, tem a doutrina sacchiana como pedra filosofal da ideologia futebolística. Como interpretar, então, esta parodoxal dialéctica?

Os herdeiros de SacchiAntes do mais, deve-se distinguir filosofia, sistema e táctica. Em termos tácticos ou de sistema de jogo, Sacchi esteve longe de ser um precursor, não inovou nada. A sua inovação situou-se, antes, na dinâmica do modelo de marcação á zona, ou melhor, na, digamos, intensidade do pressing zonal, criando a chamada «zona pressionante» que se estendia pelo campo todo, como forma de não deixar o adversário pensar e, assim, recuperar a bola e colocar o jogo onde mais dói ao adversário. É esta a essência da doutrina sacchiana. Mais do que um sistema, uma filosofia que tanto pode ser aplicada em 3x5x2 como em 4x4x2, embora, claro, a disposição da clássica defesa a «4» facilite mais a sua aplicação. Por isso, vendo jogar o Livorno de Donadoni, apesar de manter quase sempre oito/nove jogadores atrás da linha da bola, especulando com os espaços, podia-se ver, mesmo em 3x5x2, essa mesma filosofia de pressing zonal, na forma, sobretudo, como todo o onze nunca deixou o portador da bola pensar duas vezes.

Uma filosofia que teve expressão máxima no «5» do meio-campo, com dois médios de contenção Passoni-Vidigal, laterais de perfil, Balleri-Doga, e um mais solto, a subir, no centro, Vigiani. Enquanto na defesa o trio Galante-Vargas-Lucarelli, para além de vigiar a dupla Crespo-Shevchenko, abre a toda a largura do terreno, dobrando nas faixas ou saindo em antecipação, no ataque, a dupla Colombo-Lucarelli era a primeira a pressionar na saída de bola do Milan. Nesse momento, permitia que as outras duas linhas subissem dois metros no terreno e, mesmo sem o dominar, manteve sempre o controle do jogo. É tudo, no fundo, uma questão de escola.