Os jogadores de «picos»

28 de Agosto de 2008

Há jogadores que parecem viver noutra dimensão do jogo. Porque passeiam no relvado muitas vezes quase indiferentes ao jogo. Parecem com o pensamento distante. A bola está longe. Por vezes, ela aproxima-se mas olham para ela desconfiados. Noutras como que lhes desperta outro instinto e arrancam com ela. Velocidade, centro, remate, lance de perigo, e, talvez, até o golo.

Chamo-lhes jogadores de picos. Se a sua presença no jogo fosse medida por uma máquina de frequência cardíaca a maior parte do tempo estaria perto da «flatliner» –a linha recta que não detecta qualquer vida- mas de repente sente-se um espasmo, abana e tem um pico. Batida forte de coração. O jogo subitamente acelerado. É o lance de perigo. Quando ele acaba, tudo volta à calma inquietante. São jogadores que fogem à lógica. Por isso, cativam tanto.

São difíceis de explicar. Como o pássaro de Bhagavad-gita que mergulha e volta à superfície sem molhar as penas. São jogadores difíceis de entender para o treinador. Porque vivem quase à margem do plano táctico. Parecem passar ao lado do jogo, mas quando mergulham nele, abanam com as suas estruturas, fazem uma jogada que nos levanta das cadeiras, e, num rasgo, podem decidOs jogadores de «picos»ir o resultado. Vários jogadores, através dos tempos, transmitiram essa sensação. Nos anos 90, gostava de ver Asprila a mergulhar no jogo. No presente, encaixo nesse perfil, Wright-Philips ou Walcott. Tal como Odonkor ou Balboa. Jesus Navas também está a tornar-se um jogador desse tipo. Entre os grandes craques, Romário, noutro estilo, também era um jogador de picos. Parecia andar no campo como o miúdo que vai contrariado comprar um pacote de leite para a mãe na loja da esquina, mas, de repente, finta, espaço, bang! golo. O pico do seu futebol.
Pensei neste conceito do jogador de picos ao ver jogar Di Maria na selecção olímpica da Argentina como já pensara a época passada no Benfica. Parte da ala esquerda, e faz o seu jogo partindo do entendimento dos movimentos de Messi. Quando este vai para o centro, Di Maria fica aberto na esquerda. Quando Messi fica na ala, Di Maria surge no centro. Em ambas as zonas olha para o jogo quase passivamente. Espera o momento certo e entra nele da única forma que sabe fazer. Em velocidade. Encara adversários no um para um, entra nos espaços vazios e arranca para a baliza. Sem parar pelo caminho. Acaba a jogada e volta à «flatliner» do jogo. Existem, claro, várias categorias de jogadores de picos. Por isso, a diferente compreensão que os treinadores têm com eles. Os que nesses picos decidem jogos e os que se limitam apenas a abaná-los. Di Maria, como vimos no sublime golo à Nigéria, pertence à primeira categoria. Uma espécie de classe bomba-relógio.