Os “vendedores de sonhos”

19 de Janeiro de 2008

O final de cada ano suscita um efeito irresistível de balanço. Desde sempre. Acredito que na idade medieval também era assim. Com uma grande diferença. Não escolhiam os melhores de cada ano no futebol. E isso faz toda a diferença para a existência humana devidamente pensadora. Tinham, no entanto, uma boa razão.

O futebol ainda não tinha sido inventado? Sim e não. Embora existam pinturas rupestres com seres de estrutura humana a chutar uma pedra em forma de bola já com um gesto técnico muito semelhante ao de Genaro Gattuso, médio italiano “flinstone” do AC Milan, a verdade é que o futebol do nosso tempo nem Nostradamus seria capaz de prever. Como diria Osvaldo Soriano, o futebol são “desenhos animados para adultos”. Depois do gato Silvestre, Rato Mickey, e Speedy Gonzalez, surgem a pulga Messi, o dentuço Ronaldinho, o chaplinesco Cristiano Ronaldo, a pantera Drogba, o speddy Henry e o modelo Kaká. Algo não bate certo neste elenco animado. Há nesta lista um jogador demasiado humano.

Nunca se despenteia em campo, fala sempre com correcção, confessou ter casado virgem e, em campo, move-se com elegância de “passerelle”. Mesmo quando curva ligeiramente as costas, levanta os olhos e ilumina a estrada por onde leva o jogo. É Kaká. A sublimação do futebolista “dandy”. Pode agarrar a bola até ainda junto à sua própria área que sentimos que aquela jogada é uma ameaça de golo mesmo a 50 metros da baliza. É veloz mas a sua principal arma é saber travar. Não consigo encontrar sentido em ter de decidir entre Kaká, Cristiano Ronaldo ou Messi. Porque “amo” os três. Futebolisticamente sou, portanto, um indefectível da poligamia. Nas outras artes também. Seria como decidir entre Picasso, Dali ou Da Vinci? Qual é melhor Mozart, Bethoven ou Vivaldi? Led Zeppelin, Zappa ou Deep Purple? E nem aceito o critério daquele que ganhou mais nesse ano. Ou o que pintou melhor ou compôs obras de mais êxito. Porque sou dos que esqueço os resultados. Só recordo as emoções que vivi.

Os “vendedores de sonhos”Kaká ganhou o prémio de melhor do Mundo-2007 (Ronaldo merece uma reflexão mais estudada aqui ao lado) mas não é o tal jogador que faz sonhar os miúdos que dormem abraçados a uma bola trincando a língua. Era assim que dormia um “pibe” na Vila Fiorito, bairro de lata onde cresceu. Maradona, o último Rei de uma dinastia que começou em Di Stefano (Anos 50), Pelé (Anos 60) Cruyff (anos 70) e, por fim, “El Diego” (anos 80). E nos anos 90? Falta uma coroa indiscutível.

Zidane era fantástico, mas demasiado triste em campo. No máximo, um sorriso de Gioconda. É, por isso que Ronaldinho cativou tanto. Faz um lance fantástico e esboça o sorriso de quem acabou de partir um vidro como se estivesse ainda a jogar na rua. Teve um ano, porém, mergulhado num processo de entristecimento. Sim, os “cartoons” também precisam, ás vezes, de um bom divã. Emergiu, então, no mesmo habitat, um pibe que em miúdo os médicos disseram que “jogar futebol? nem pensar”, pois tinha problemas ósseos graves que atrofiavam o seu crescimento. Esses médicos seriam, de certeza, excelentes na medicina, mas de futebol não percebiam nada. Porque, como gosto de dizer, o futebol não é um desporto. É um jogo! Não tem a lógica do mais alto, mais forte ou mais rápido.

Tem a ilógica do mágico, mesmo que no corpo de uma pulga. Foi o que fez Messi. Todas as camisolas ainda lhe parecem ficar grandes. O cabelo de puto rufia, o sorriso malandro e o andar moleque que quer jogar até o sol se por. Até Maradona se assustou quando viu que a pulga fazia golos iguais aos dele. Em Novembro, a “igreja maradoniana” festejou o ano 47 d.M. (depois de Maradona). Foi a data em que o “pelusa” nasceu. Tem culto, celebra casamentos e outras cerimónias para louvar a descida de Diego à relva. Tal como ele, Messi é hoje a maior ironia perante a ameaça das nuvens negras do futebol-negócio. Uma “pulga”, porém, encontrará sempre uma saída.

Guerreiro “Griff”

Os “vendedores de sonhos”Ter as namoradas mais bonitas, uma diferente cada semana, e ser, ao mesmo tempo, o melhor em campo a cada domingo, não costuma, regra geral, ser compatível. Pelo menos, durante muito tempo. Manchester tem especial sensibilidade a este tema. E a sua camisola nº7 também. No passado, o futebol primeiro, e a vida, depois, devorou essas duas faces de Best. O novo dono da mítica 7 já vive noutro tempo. Cristiano Ronaldo. A sua forma de correr lembra um pato gigante, espécie de Chaplin em projecção ainda mais acelerada. Não é comum um jogador tão fantasista ser, ao mesmo tempo, fisicamente tão potente.

Em geral, esses magos criativos, são mais franzinos. O nosso Ronaldo desafia todos os cânones e estereótipos do futebol. Dentro e fora do relvado. Fora, comercializa o jogo até ao limite dos tempos modernos. Dentro, um jogador de elegância tridimensional. Velocidade, passe e remate. Guerreiro na relva, griff nos "outdors”. Com o mesmo olhar. Para a sublimação do futebolista moderno, “guerreiro griff”, a “Bola de Ouro” é um destino natural.

MARTA, Futebol de salto alto

Os “vendedores de sonhos”Que me perdoem as leitoras femininas, mas tirando um remate em saltos altos de Gisele Bunchen junto de Henry num evento do Arsenal, confesso que nunca descobri grande encanto em ver futebol praticado por mulheres. Questão de sensibilidade estética corporal, talvez. Pensava assim até ver uma garota moleque a mexer-se com a bola para lá da sensualidade de top-model. A beleza futebolística feminina chama-se Marta, estrela da selecção brasileira. Para aumentar o poder de sedução, é esquerdina. Dança em frente à bola e depois dá-lhe efeitos fantásticos. Foi eleita a melhor do Mundo. Há anos, o Perugia tentou contratar uma mulher para a sua equipa. Era a alemã Prinz. Os regulamentos não permitiram. Na altura, encolhi os ombros. Agora, mudava de atitude. Acho que se devia abrir uma excepção para a Marta. É o esplendor do «sexy football!»