Os Viajantes do futebol

17 de Julho de 2006

Ramon Diaz: Melhor treinador do mês na ... IV Divisão inglesa

O futebol é um universo de grandes e pequenas histórias onde se cruzam distintas épocas e realidades. Nesse cruzamento de diferentes mundos, a Inglaterra descobriu, incrédula, no inicio de Janeiro, um antigo ponta de lança da selecção argentina e treinador do River Plate sentado num rudimentar banco de madeira de um clube da League II (a IV Divisão inglesa), o Oxford United FC, lutando desesperadamente por não descer de divisão. Seu nome: Ramon Diaz. Como jogador passara pelo River Plate, Fiorentina, Inter, Mónaco, até acabar a carreira no Japão. Agora, depois de treinar o River Plate, com o qual vencera o titulo argentino e a Copa Libertadores, estava no banco de um inóspito team da IV Dvisão inglesa. Como era isso possível? A explicação é simples e cruza vários factos.

Tudo começou quando o novo dono do Oxford, o abastado Firoz Kassam passava uns dias no Mónaco e encontrou um velho amigo, Jean Marc Goiran, que jogara com Ramon Diaz, em 89, no clube do principado. Como Kassam falou que procurava um treinador, Goiran logo lhe sugeriu o nome o antigo avançado argentino parado há dois anos, sem clube para treinar. Convite feito, Ramon Diaz pensou, ok, não é um grande clube, mas era a oportunidade de entrar no futebol europeu como treinador. Um bom trabalho, mesmo numa equipa da IV Divisão podia despertar a atenção de clubes maiores. Assinou por seis meses e levou consigo uma equipa técnica argentina com dois adjuntos, um preparador físico e um médico, para além de três novos jogadores argentinos, Raponi, Comineli, e os seus dois filhos, Emiliano Diaz, 21 anos, que estava a jogar no Deportivo Colonia do Uruguai, e o mais novo, Michael, que foi para as reservas.

Os problemas no paraíso de Oxford

Os Viajantes do futebolCinco meses depois, tudo parecia correr bem. A equipa saíra dos últimos lugares, estava num tranquilo 14ºposto, longe da descida e, em Fevereiro, Ramon Diz tinha, inclusive, recebido o prémio de melhor treinador do mês da... IV Divisão inglesa, após em dez jogos, ganhar cinco, empatar quatro e só perder um, relançando a carreira da equipa. Nos últimos tempos, apesar da goleada sofrida em Rochdale (5-1), o presidente Kassan disse que queria renovar o contrato inicial que era só de seis meses. As negociações já iam adiantadas, quando, subitamente, Ramon Diaz, numa altura em que tratava de renovar o seu work permit (autorização de trabalho), decidiu abandonar o clube, rompendo as negociações. Fez as malas e, perante a surpresa de Kassam, abandonou Oxford, acompanhado dos seus filhos, em busca de novas aventuras como viajante do futebol. Para trás fica a intrigante aventura num clube da IV Divisão inglesa. Estará no horizonte outro convite mais ou menos exótico? Enquanto ganhou jogos em Inglaterra, chegou-se a falar no Queens Park Rangers da II Divisão estar interessado em si, mas Ramon Diaz parece apontar a horizontes menos anónimos.

Entretanto, no seu lugar em Oxford, ficou o antigo adjunto, também argentino, Horácio Rodriguez, antigo duro defesa central do Estudiantes, River, Lorne e Tornjeco (estes dois no México) e que, como treinador, já orientara, o Estudiantes e as reservas do River Plate, no tempo em que o amigo Ramon era treinador principal. O Oxford e a IV Divisão inglesa continuavam, pois, com sotaque hispânico, mas por pouco tempo. Sem chegar a acordo, porém, Rodriguez também partiu. No seu lugar surgiria então uma velha figura da selecção inglesa dos anos 80, Talbot. O Oxford terminaria a época em 15º lugar.

EM BUSCA DE VELHAS ESTRELAS PERDIDAS: Graziani na VI Divisão, Littbarski na Austrália...

Os Viajantes do futebolNo futebol, coexistem diferentes mundos. Viajantes incansáveis, existem nele certas personagens que atravessam os vários continentes. Entre estes trota-mundos distinguem-se diferentes casos. Os dos que, antigas estrelas rumam a El-Dorados, como no Japão. Os treinadores pouco credenciados no seu país que se tornam especialista de selecções africanas ou asiáticas. Casos de Troussier, Henri Michel ou Metsu, entre outros.... E, por fim, os que foram grandes jogadores e que, penduradas as botas, andam por remotos clubes ou selecções de segundo plano, longe dos contratos milionários. Depois do Mundial ou de um grande equipa, rumam ao mais inóspito país africano ou ao banco de um anónimo clube da III Divisão, a milhares de quilómetros do local onde nasceram... Causa estranheza ver hoje o grande lateral do Brasil campeão do mundo de 70, Carlos Alberto Torres, no banco da selecção do Azerbeijão. Rush, fabuloso goleador do Liverpool nos anos 80, iniciou a época no banco do Chester, onde nasceu, na IV Divisão inglesa, mas os maus resultados levaram á sua saída.

Tardelli, Rep, Breheme, Zavaravov, Rush...

Os Viajantes do futebolPeter White, autor do golo que deu a Taça dos Campeões ao Aston Villa em 1982, é agora seleccionador da Indonésia, depois de vários anos na Tailândia. Breheme, autor do golo da vitória no Mundial 90, foi, há poucas semanas, despedido do SV Unterhaching, na II Bundesliga. Rep, estrela da mítica Holanda nos anos 70, treina uma equipa amadora da IV divisão holandesa, o Texel 84. Southall, lendário guarda redes campeão do Everton dos anos 80, anda perdido nas regionais britânicas, no Hasting United. Littbarski, grande estrela alemã da mesma época, treina agora na Austrália, no Sydney FC. Zavarov, maestro da URSS dos anos 80, que brilhou no Dinamo Kiev e Juventus, andou pelo Kazaquistão, a treinar o desconhecido Zenit Astana. Antes estivera no Saint-Dizier FC, das regionais francesas. Em Dezembro, sorriu, por fim, ao regressar á sua Ucrania, para treinar o Metalist Kharkiv. O italiano Tardeli saiu do Egipto e entrou a meio da época para o Arezzo, da Série B, mas o caso mais intrigante é o de Graziani, treinador de uma equipa VI divisão italiana, segundo escalão amador, o AS Cervia, que se tornou agora objecto de um pioneiro reality-show na TV sobre o dia-a-dia e uma equipa de futebol! Tem no onze o filho de Maradona, mas, talvez incomodado com todo o espectáculo, Graziani passa quase todo o tempo de óculos escuros...

Kempes: As viagens do «El Matador»

Os Viajantes do futebolO caso mais simbólico da velha estrela dos relvados transformada numa sombra errante pelos bancos dos cinco continentes terá sido, no entanto, o de Mario Kempes, terrível goleador da selecção argentina campeã do mundo em 1978 que, finda a carreira, nas canchas, nunca receberia um convite para treinar na sua Argentina. Por isso, qual D.Quixote da bola, andou partiu, mochila ás costas, pelos mais rudimentares bancos dos subterrâneos do futebol mundial, da Indonésia á III Divsão italiana. Um trajecto que custa a acreditar: Fernando Vial, no Chile, Pellita Jaya, na Indonésia, ambos como jogador treinador, Lushnja, na Albânia, Mineros de Guayana, na Venezuela, Casarano, da III Divisão italiana, Strongest, na Bolívia, onde, no que foi o seu único êxito como treinador, se sagrou campeão em 1999, Petrolero Sucre, de novo na Bolívia, Fiorenzuola, uma equipa B italiana, patrocinada por empresários, e feita só com jogadores argentinos, e, por fim, quatro meses no San Fernando, na II Divisão B espanhola, acabando por sair, sem glória, para regressar á tranquilidade de Belle Ville, a terra natal de onde pibe partiu para brilhar no Rosário Central. Mantêm os mesmos cabelos desordenados, menos longos, mas o seu olhar já não é o mesmo. Agora é comentador de futebol numa televisão argentina e, aos poucos, voltou a sorrir.

Rudi Gutendorf: «Volta ao mundo em futebol»

Como jogador, alinhou sempre em modestas equipas regionais. Como treinador, porém, depois de um inicio de carreira, em meados dos anos 40, ainda na Alemanha, no SV Rengsdorf, atravessou os cinco continentes, tornando-se no técnico que mais equipas treinou na história do futebol mundial. Chama-se Rudi Gutendorf e, recentemente, depois de orientar as Ilhas Samoa na fase de qualificação para o Mundial, lançou, aos 79 anos, em livro, as suas memórias intitulado "A volta ao mundo em futebol". Dirigiu 52 equipas em 29 países diferentes. Da Europa (na Alemanha e na Suíça, onde orientou o FC Lucerna), á América do Sul (como seleccionador do Chile, da Bolivia e Venezuela), da Ásia (como seleccionador das Filipinas ou das selecções olímpicas da China e do Irão) a África (como seleccionador do Ghana, Ruanda, São Tomé e Príncipe ou Zimbabwe), até os confins da Oceania (como seleccionador da Austrália e das Ilhas Samoa).

Um verdadeiro trota-mundos que, conta, recebeu o seu diploma e treinador aos 28 anos, em 1954, das mãos do mítico Herberger, que poucos meses antes se sagrara campeão do mundo com a Alemanha. Começou a treinar modestos clubes alemães, passou depois por grandes como Schalke 04, Stuttgart e Borussia Monchengladbach, té que um belo dia, em 1995, estava a dar treino no anónimo TUS Neuendorf, recebeu o primeiro convite para sair da Alemanha. Vinha da Suíça e a proposta era o Blue Stars de Zurique. Pensou, falou com a mulher e partiu á aventura. Quando saiu, pensava que não seria pouco muito tempo. Apesar e ciclicamente ainda voltar á sua Alemanha, quando recebia convites mais tentadores, vindos de clubes com maior projecção (como o Colónia ou o Hamburgo, em 77, onde, embora só por poucos meses, chegou a treinar Keagan) a verdade é que passaria quase...50 anos dando voltas ao planeta do futebol.

Do Chile ao Ruanda

Os Viajantes do futebolAventureiro puro, saltou a Europa pela primeira vez em 1966, quando um clube americano, o St.Louis, dirigido por emigrantes, viu nele o homem ideal para dar vida ao futebol nos EUA. Só ficaria, porém, cerca de ano e meio, pois em 1968 partiria á aventura paras as Ilhas Bermudas, o primeiro dos territórios exóticos onde treinou. Entre os cargos mais curiosos, estiveram os de supervisor do futebol jovem do Nepal e das Ilhas Fiji ou, de seleccionador da Nova Caledónia e do Ruanda. Nunca conquistou grandes títulos. Os maiores foram, em 1960, a Taça da Suíça pelo Lucerna, trofeu que também ganharia no Peru com o Sporting Cristal, em 1972. O mais fascinante desta sua história, mora, porém, nas incríveis experiências que viveu por entre realidades tão distintas como as que passou. Entre os muito episódios que conta no seu livro, um dos mais incríveis passa-se, em 1973, no Chile, quando, como treinador da selecção chilena fez amizade com o presidente Allende. Pouco tempo, depois, dava-se o golpe militar de Pinochet, pelo que Gutendorf teve de fugir para também não ser preso, apanhando, a correr, um dos últimos aviões que, nessa manhã, ainda conseguiu descolar de Santiago.

Bruxarias, diplomacia e «catenaccio»

Noutro local do planeta, em África, mais do que grandes resultados, o seu maior orgulho, conta, mora em ter sido, no Ruanda, uma espécie de mediador diplomata para, antes de um jogo, conseguir uma trégua na guerra travada entre as tribos tutsi e hutu. Raramente foi despedido, por vezes era ele a revoltar-se e a querer sair, como sucedeu na Tanzania, quando os directores quiserOs Viajantes do futebolam interferir com os seus métodos de trabalho. Como? Dizendo que era importante sacrificar uma cabra antes de um jogo para dar sorte. Recusou a «táctica», discutiu com o bruxo responsável, fez as malas e abalou. Em termos tácticos sempre foi um confesso admirador da escola italiana e suas tácticas defensivas. Preconiza que a grande invenção táctica da história foi o catenaccio, pelo que o seu treinador de referência sempre foi o defensivista transalpino Nereo Rocco, mito dos anos 50/60. O futebol devorou-lhe a própria existência. Por isso, afirma que foi ele que lhe ensinou a viver.

OS CLUBES DE GUTENDORF: VIDA E OBRA

  • 1. 1946-54 SV Rensdorf (Alemanha)
  • 2. 1954:Rot-Weiss Coblenza (Alemanha)
  • 3. 1954: VfB Lützel (Alemanha)
  • 4. 1955: SG Braubach (Alemanha)
  • 5. 1955: TuS Neuendorf (Alemnha)
  • 6. 1955: Blue Stars Zürich (Suíça)
  • 7. 1955 - 60: FC Lucerna (Suíça)
  • 8. 1961: US Monastir (Tunisia)
  • 9. 1962 - 63 : TSV Marl-Hüls (ALE)
  • 10. 1963: Meidericher SV (Alemanha)
  • 11. 1965: VFB Stuttgart (Alemanha)
  • 12, 1966 : 68: St. Louis (USA)
  • 13. 1968: Seleccão Iilhas Bermudas
  • 14. 1968 - 70: Schalke 04 (Alemanha)
  • 15. 1970 - 71: Kickers Offenbach (Alemanha)
  • 16. 1972: Sporting Cristal Lima (Perú)
  • 17. 1972-1973: Seleccionador do Chile
  • 18. 1974: 1860 Munich (Alemanha)
  • 19. 1974: Seleccionador da Bolivia
  • 20. 1974: FC Bolivar (Bolívia)
  • 21. 1974: Seleccionador da Venezuela
  • 22. 1975: Valladolid (Espanha)
  • 23. 1975 - 76: Fortuna Colonia (Alemanha)
  • 24. 1976: Seleccionador de Trinidad
  • 25. 1976: Seleccionador de Granada
  • 26. 1976: Seleccionador da Antigua
  • 27. 1976: Seleccionador do Botswana
  • 28. 1976 - 77: Tennis Borussia Berlín (Alemanha)
  • 29. 1977: Hamburgo SV (Alemanha)
  • 30. 1978: Seleccionador da Australia
  • 31. 1980: Seleccionador das Filipinas
  • 32. 1980: Seleccionador da Nueva Caledonia
  • 33. 1981: Seleccionador das Fiji
  • 34: 1981: Seleccionador do Nepal
  • 35. 1981: Seleccionador do Togo
  • 36. 1981: Seleccionador da Tanzania
  • 37. 1981 - 82: Yanga Daressalam (Tanzânia)
  • 38. 1982: Arysha (Tanzania)
  • 39. 1982 - 84: FC Youmiuri Tokyo (Japão)
  • 40. 1984: Hertha BSC Berlín (Alemanha)
  • 41. 1984: Seleccionador Santo Tome y Príncipe
  • 42. 1985: Seleccionador do Ghana
  • 43. 1985: Seleccionador do Nepal
  • 44. 1986: Seleccionador Sub-20 do Nepal
  • 45. 1987: Seleccionador Sub-20
  • 46. 1987: Seleccionador das Fiji
  • 47. 1988: Seleccionador Sub-20 da China
  • 48. 1988: Seleccionador Olímpico do Irão
  • 49. 1991 - 92: Seleccionador Olímpico da China
  • 50. 1995 - 96: Seleccionador do Zimbabwe
  • 51. 1997: Seleccionador das Ilhas Maurícias
  • 52. 1998: Director Técnico do Coblenza
  • 53. 1999: Seleccionador do Ruanda
  • 54. 2002: Seleccionador das Ilhas Samoa