Ouçam como nós “respiramos”

30 de Outubro de 2016

O futebol é um jogo de equipa que muitas vezes não só confronta os jogadores com os adversários mas também com os seus próprios companheiros no onze. Onde este “confronto” se nota mais é quando a interligação entre duas posições próximas (que obriga os jogadores a jogarem juntos e perto um do outro) se torna um dilema. O espaço à frente da defessa é um local privilegiado desse debate entre jogar-se com um pivot ou com duplo-pivot (muitas vezes rotulado, erradamente, de defensivo). É, no futebol moderno, o local tacticamente mais importante para o equilíbrio duma equipa.

Quando joga só um pivot, analisamos as características individuais deste (mais construtivo ou menos, mais trinco ou mais ofensivo). Quando jogam dois pivots analisamos como cada um cumpre a sua missão em complementaridade (por isso se fala em duplo-pivot).

Cada sistema (e seus princípios de jogo inerentes) obriga a diferentes dinâmicas (e jogo posicional). Por isso se discute tanto a posição nº8 que, muitas vezes, é uma extensão táctico-estilística com bola desse duplo-pivot. Como se um jogador tivesse a obrigação de se libertar dele para a ideia colectiva funcionar. E assim é. Veja-se Adrien e Pizzi nos atuais modelos de Sporting e Benfica a parir dessa posição.

O mais interessante a este nível nesta semana vi, porém, internacionalmente, dentro de dois sistemas de “defesa a 3”, onde á frente dessa linha e partindo de perfil com os laterais no inicio de construção (fazendo uma linha de “4”) o duplo-pivot funcionava na perfeição. Sucedeu no Chelsea de Conte e no Sevilha de Sampaoli (ambos em 3x4x2x1). No Chelsea com Matic-Kanté. No Sevilha com N’Zonzi-Nasri.

Se o “crescer para o jogo” de Kanté é algo que se pressentia na qualidade do jogador, a reinvenção de Nasri (por natureza um 10 insolente) é mais notável.

Formou dupla com um jogador que mostra uma polivalência ideológica da posição fantástica: N’Zonzi.

Tanto encaixa no estilo de segundas bolas e jogo direto do Stoke de Tony Pulis, como no estilo apoiado de toque e técnica, fazendo circular ou arrancando em posse, do Sevilha de Sampaoli. A seu lado ou, na dinâmica de jogo, mais uns passos á frente, Nasri deu (frente ao aguerrido At,. Madrid de Simeone) uma lição de controlo táctico: inteligência a temporizar com a bola na saída desde trás e astúcia de ir amentando (ou mudando, alternando....) de velocidade à medida que avançava.

Assim se marcam os ritmos de jogo e diz para onde ele devia ir. Ambos (juntos) fizeram a equipa jogar através da “arte da táctica” que no futebol atual encontra a melhor expressão a partir do funcionamento mais inteligente dum duplo-pivot.

Criar um “T1” no onze

danilo

Entre os três grandes, o FC Porto é o único que joga só com um pivot de forma taticamente declarada. Na estrutura (4x3x3 ou 4x1x3x2) e na ideia de jogo. Pode ás vezes baixar Oliver para pegar na bola (na meia-esquerda) mas Danilo mora sozinho na “casa nº6”. Fejsa e William também moram num “T1 táctico” semelhante mas têm na estrutura o tal apoio mais próximo. O FC Porto é por dinâmica do sistema, não na estrutura base.

Danilo é, neste sentido, essencialmente um “equilibrador”. Olha para o jogo/relvado como para um tabuleiro de xadrez e procura simplificar processos de posicionamento para o corte e para a transição defesa-ataque feita preferencialmente num passe entrelinhas. Está a sair menos para o jogo (subir no terreno) porque vê-se que Nuno procura rotinar uma linha adiantada do meio-campo á sua frente com mais homens (a pensar sobretudo ofensivamente nos tais 65 metros, mesmo no ataque à recuperação) e todos eles necessitam dessa espécie de “guarda-costas táctico” atrás.

É esta, talvez, a melhor forma para definir hoje o jogo de Danilo naquela posição/espaço. E no modelo de Nuno também.

Pivots de referência

mateus

Outros bons pivots de referência de equilíbrio e saída (mais curta ou mais longa) que tenho gostado de ver neste inicio de campeonato são Mateus do Paços Ferreira e Assis do Chaves.

Cada qual tem depois uma espécie de segundo pivot para dar uma segunda linha mais pura. Battaglia saindo mais em condução. Pedrinho jogando mais apoiado (e que também pode subir para a “casa 10”).

Rafael Miranda-João Pedro no V . Guimarães e Mauro-Vukcevic no Sp. Braga jogam mais lado a lado. É, por principio na estrutura, um duplo -pivot mais puro. Vukcevic tem amplitude para sair mais, mas falta-lhe velocidade na transição. João Pedro é o jogador que sente-se poder crescer mais. Vê-se no jogo a sua permanente intensidade de pressão (é que salta da dupla no pressing na zona ao adversário portador da bola) mas a expectativa está no que pode crescer também no fazer jogar a própria equipa. Sem ser um tecnicista, pode subir para nº8 com horizontes de jogo mais construtivos. Intensidade não lhe falta.