PALOP, BARTHEZ E UMA TABELA EM WEMBLEY

19 de Maio de 2007

PALOP, BARTHEZ E UMA TABELA EM WEMBLEY

Drogba-Lampard-Drogba: A tabela, na relva de Wembley

O dramatismo do futebol moderno afastou o jogo dos seus gestos mais simples. A tabelinha, era um desses lances mais puros. Na rua ou no grande Estádio. A chamada jogada de um-dois. Cada vez se vê menos essa tabela pura. Recuperações, bolas longas, passes verticais, diagonais, mas a velha tabelinha anda desaparecida. Estava o mundo táctico posto em sossego nesse ponto, quando, indo a Final da Taça de Inglaterra amordaçada com 0-0 a caminhar para o fim, Drogba e Lampard ressuscitaram, na entrada da área do Manchester, essa velha jogada. O passe inicial de Drogba, a devolução fina, fazendo de parede, de Lampard, para o sitio certo, desenhando o triangulo perfeito, colocando a bola já na área, onde Drogba reaparece, para com um toque subtil, finalizar a tabela, colocando, mansamente a bola no fundo das redes de Van der Sar. A tabela é hoje quase um exercício de nostalgia em muitos jogos, mas, para mim, continua a ser uma das mais antigas e belas jogadas do futebol. A sua reaparição, no majestoso novo Wembley, para decidir um jogo tão intenso, devolveu-lhe o seu prestígio justo. A tabela é útil em todas as zonas do campo, mas quando se inicia na entrada da área e termina dentro dela, é dos caminhos mais sublimes para chegar ao golo.

Palop, até à eternidade

PALOP, BARTHEZ E UMA TABELA EM WEMBLEYNo frio de Dontesk, um golo de cabeça no último minuto. Na chuva de Glasgow, três penaltys parados e uma defesa impossível durante o jogo. Poucas conquistas europeias terão uma assinatura tão clara com a do Sevilha na Taça UEFA em 2007: Palop. Numa equipa ofensiva que brilha pelo futebol apoiado (Maresca, Poulsen, Renato…), pela velocidade do jogo pelos flancos (Daniel Alves, Adriano, Navas….) e tem um ponta-de-lança esguio e goleador (Kanouté), o herói foi o guarda-redes. O Manuel táctico-técnico de Juande Ramos ganhou uma nova página. O futebol continua grande e independente, porque, por entre todas estas lógicas (como a que, durante o jogo, dava o Sevilha como um vencedor claro) está sempre escondido o segredo que nos vai levar ao triunfo ou à derrota. Mudam os ritmos, encurtam-se os espaços, mas é o jogador que continua a ditar leis.

Barthez, luvas penduradas

PALOP, BARTHEZ E UMA TABELA EM WEMBLEYPoucos se aperceberam, e ainda bem, mas despediu-se esta época, a meio de um jogo, retirando as luvas à medida que se aproximava da berma do relvado para ser substituído após mais uma falha arrepiante, um dos guarda-redes que marcaram as últimas décadas do futebol europeu. Barthez. Escreveu o seu epitáfio futebolístico em Nantes, esta época uma sombra errante que se arrastou até à II Divisão. Barthez retira-se com a mesma imagem. Durante a carreira, mesmo no auge, os seus voos para grandes defesas, alternaram com falhas de arrepiar cabelos, mas, como, na memória mais imediata, as últimas imagens são as que ficam, essas eternizaram o lado lunar do guarda-redes Barthez. Muitas vezes pensa-se que por se estar tão perto do fim da carreira, no futebol como na vida, que aquilo que façamos ou dizemos já pouca importância terá. Nada mais errado. É quando tem mesmo mais importância.