Peter Pan do futebol: Quero jogar para sempre!

06 de Maio de 2016

Tenho especial admiração pelos chamados jogadores veteranos. Aqueles que desafiam as leis da idade (e da física) e resistem até mais tarde, até ao infinito. Como fossem o “Peter Pan do futebol” que não envelhecem nunca. Mas, mesmo entre estes, há os que resistem pelo prazer (ou vício) de jogar e vão para divisões na sub-cave ou paraíso dourados, e há aqueles que resistem na elite. É desses que falo, com admiração, na primeira frase. Não penso aqui nos guarda-redes, uma classe à parte neste domínio.
Nesta casta existem dos tipos de “resistentes” que, numa divisão estilística, expressam a base que lhes permitem continuar: os superpotentes fisicamente e os superdotados tecnicamente. Dos primeiros, Vierchowod foi um desses casos. Mas são os segundos que, confesso, me fazem suspirar futebolisticamente. No passado, Baggio foi um símbolo desses. Como é hoje Totti. Nenhum destes dois foi, mesmo no auge, uma força física por natureza. Tecnicamente, porém, foram o máximo. E, no caso de Totti, continua a ser.
É isso que lhe permite manter, quase nos 40 anos, um debate que apaixona Roma no seu confronto com o treinador Spaletti que já não o vê com condições para jogar, tirando uns minutos, enquanto Totti diz que está pronto para jogar desde o inicio.
Os adeptos, claro, seguem o seu símbolo. E ele, sempre que entra nesses últimos minutos, ganha o confronto. Porque se o físico não lho permite, a técnica e a visão de jogo podem tudo. E faz golos, passes, com a simplicidade da classe técnica.
A cabeça permanece intacta a ler o jogo, a estudar as marcações dos defesas e a fugir delas. Com esta inteligência, move-se sem bola ocupando um espaço ideal em antecipação.

Spalletti-Totti Acho que num plantel devia haver sempre espaço para um jogador deste tipo. Nesse “mundo perfeito”, acho, por exemplo, que Laudrup devia jogar “para sempre”. E entendia que Romário tivesse ido até tão longe, um ano após o outro, sempre convencido que podia jogar. E “podia”.
Dentro deles, eles sabem que já não são os mesmo da “ternura dos 25 anos”. E, portanto, suam a camisola apenas o estritamente necessário. Quase que nem é preciso lavá-la no fim. O toque a visão de jogo, a essência que os moldou, nunca se perde. Com uma simples recepção orientada, controlo de bola em espaço curto e visão, marcam a diferença. Sabem que com a bola á frente podem, nesses curtos instantes, serem os mesmos de sempre.
Num tempo em que cada vez mais se impõe o “atleta” por cima do “jogador”, estes ícones da técnica distinguem-se cada vez mais pelos traços mais básicos do jogo: o passe (curto ou mais longo). E, também, no remate com... técnica, porque souberam antes eleger o espaço. Com a cabeça.
Não é fácil a um treinador, porém, gerir este tipo de jogador porque em geral ele vem acompanhado de um ego gigantesco. Que o afronta, sem medo, insolente até.
O problema aparece quando esse veterano de classe técnica se acha no pleno de todas as suas outras capacidades. Então é que pode, com a força do “entorno” (adeptos/diretores), afundar um treinador que, legitimamente, só o quer utilizar nos curtos instantes em que sente ele ainda pode fazer a diferença.
É a razão de ser do caso-Totti. Ele não aceita essa “visão limitadora”. Quer jogar mais. Ao crescer para o treinador, ignora a sua essência. A superclasse técnica só lhe pode, porém, dar-lhe um lugar se tiver a tal noção especifica de que deve a ela o prolongamento da sua carreira.