Porque «jogar bem» é específico

27 de Agosto de 2008

Porque «jogar bem» é específico

Construir a forma de jogar de uma equipa é o que, mais do que nunca, distingue diferentes categorias de treinadores. Todas as boas ideias têm a força dos princípios. Saber como dar-lhes vida em diferentes contextos é, fundamentalmente, uma questão de entender que, no futebol, nada funciona através de um simples transplante metodológico.

Só entendendo o princípio da especificidade um treinador consegue interpretar correctamente a maleabilidade do modelo de jogo. Por isso, entendo que o modelo de jogo, a ideologia futebolística do treinador, nunca deve ser negociável. O que tem de ser flexibilizado (negociado) em função das circunstâncias, é a periodização da construção desse modelo de jogo. São coisas diferentes. Deve-se como que modelar o modelo às diferentes realidades. Isto é, hierarquizar a transmissão/aquisição de princípios em função das necessidades e capacidades da equipa, até ela atingir a mesma ideologia de jogo (embora obrigatoriamente com expressão técnico-individual qualitativa diferente) que precede esta avaliação concreta. Ou seja, pode-se querer uma equipa a jogar mais em posse, alargando o jogo na organização ofensiva, mas se pela avaliação da qualidade/disponibilidade táctico-técnica do plantel percebermos que ela irá passar a maior parte do tempo sem bola e na organização defensiva, então a prioridade no treino dos momentos do jogo e sua transmissão de princípios deve ser outra.

Privilegiar então o momento de organização defensiva (sem posse, ocupar espaços, trabalhar a recuperação e intercepção de linhas de passe) aprendendo a fazer circular a bola por trás no meio-campo defensivo, algo que é indispensável uma equipa dita mais pequena saber fazer para ganhar confiança e personalidade (como grupo e nos jogos, especificamente). Não é obrigatório que só por ver como as características da equipa não favorecerem uma cultura de posse (indo assim passar a maior parte do jogo sem bola) que o treinador deva optar logo por um jogo mais directo, abdicando do que seria o seu modelo, afinal as ideias de jogo que considera a melhor forma de jogar bom futebol. Portanto, a periodização da transmissão/aquisição de conhecimentos tácticos (princípios de jogo) é que é negociável. Por isso, o modelar-se do modelo. Porque o bom futebol, como cada jogador ou equipa (suas características e necessidades) são especificas.

O segredo passa por descobrir qual a melhor forma de hierarquizar a transmissão dos princípios e sub-principios de maneira a que eles sejam o melhor possível incorporados pela equipa. É um caminho difícil, sem dúvida. Mas é o único que faz sentido em termos de identidade futebolística (ver caixa ao lado). Uma identidade global aplicada com especificidade. Nada disto tem a ver com sistema(s). Tem a ver com filosofia(s). Nada disto implica que o modelo seja um dogma. É um livro aberto às diferentes realidades que vai encontrando na vida (de equipa para equipa). A sua aplicação/construção é que tem de ser contextualizada/hierarquizada.

1. Identidade ou realidade

Porque «jogar bem» é específicoQualquer cenário que impede o treinador de colocar em prática o seu modelo de jogo leva como que a um conceito beduíno do cargo (e do jogo). Não cria raízes, apenas ataca problemas pontuais e impede o treinador de cimentar a sua personalidade. Isto é, a possibilidade de, com o tempo, poder dizer-se: as equipas de fulano (grandes ou pequenas) jogam daquela maneira. Ganham ou perdem, mas jogam. Agora, se numa equipa faz um jogo mais directo e noutra mais de posse, é impossível ganhar uma identidade que o torne numa referência de determinada forma de pensar e jogar. Situação diferente é não ter jogadores com características para jogar no seu modelo e ser obrigado a utilizar outro. Mas isso não é negociar o modelo. Isso é abdicar da sua filosofia preferencial e jogar com uma alheia. É verdade que muitas vezes o mercado (pega na equipa a meio, vendem-lhe jogadores chave ou não é ele que os escolhe, etc…) a isso obriga, mas tal facto é o que mais confunde a competência de um treinador. Como se pode julgar alguém através das ideias dos outros?

2. A «periodização» de Quique

Porque «jogar bem» é específicoGostei das declarações de Quique Flores após o primeiro jogo do Benfica 2008/09, no Estoril. Falou sobre o momento da equipa após os primeiros treinos na pré-época e referiu que “o importante é a assimilação dos novos conceitos tácticos”. Aqui está: o inicio da construção do jogar. Ponto de partida: a táctica. A casa onde se encaixam as características dos jogadores. Com especificidade. Depois, fala “tacticamente a equipa move-se já dentro de uma certa ordem, mas em certos momentos notou-se alguma rigidez táctica. Com o tempo vamos melhorar”. Aqui está, novamente. O sentido posicional como ponto de partida para a aquisição dos princípios. Isto é, começar por criar a ordem. Depois, “com o tempo” periodizar a aquisição de outros princípios que dêem vida á ordem, á organização. Isto é, mais treino, mais jogos, mais hábitos enraizados, o modelo em prática. Afinal, a forma de “implementar a nossa ideia futebolística” O sistema não entra neste processo como pilar da construção. Apenas como estrada táctica para ele melhor caminhar na relva.

3. A cultura de Rochemback

Porque «jogar bem» é específicoLembro-me da primeira vez que vi Rochemback. Foi na selecção brasileira Sub-20 num torneio sul-americano no Equador, em 2001. Fazia então dupla de volantes à frente da defesa com Júlio Baptista. Desde esse tempo, muita coisa mudou. Baptista tornou-se avançado em clubes de top, Roca não se firmou a esse nível. Estranho para um jogador que domina conceitos tácticos e técnicos tão bem. Precisa, porém, de um habitat de jogo especifico para encaixar a sua moldura física. Não vejo nele, no entanto, o perfil e o fôlego táctico-fisico para, num 4x4x2 clássico, ser o médio-centro box to box. Pede, paradoxalmente, um jogo mais de toque. De, no centro, receber, temporizar e ir circulando jogo. As declarações após o jogo com o Sunderland espelham essa ideia: “Controlámos e tivemos muita posse de bola. Isso é que importante. No Middlesbrough havia um futebol mais directo”. Parece contraditório para um jogador tão robusto que, afinal, em vez de aumentar a dimensão física do meio-campo do Sporting, torna-o mais posicional para jogar apoiado e em toque.