Posse de bola com imaginação

02 de Março de 2007

Terminado o jogo é comum surgir as percentagens de posse de bola das duas equipas. De imediato, pensa-se que foi quem a teve mais tempo que mandou no jogo. Não é bem assim. Sim, ok, a bola andou mais desse lado mas o que fizeram com ela quando a tiveram nos pés? Mais vale tê-la menos tempo e aproveitar a posse para fazer a diferença, do que passar muito tempo com ela e não fazer nada. Longe das zonas onde dói ao adversário que, assim, mesmo sem bola, controla o jogo. Ou seja, uma coisa é quantidade de posse de bola, outra é qualidade de posse de bola. Dirão que com mais tempo em seu poder mais hipóteses terá para fazer a diferença. Dar-lhe qualidade, em suma. É verdade, mas não é esse o princípio da qualidade futebolística com bola. Pensem antes em iniciativa, objectividade, velocidade e segurança de recepção e passe. Talvez o ideal esteja no equilíbrio, mas um jogo de futebol necessita de quem lhe abane as estruturas. Então, uma das melhores formas de falar em qualidade de posse de bola, ou em imprevisibilidade da posse, é falar em esquerdinos. Desde tempos remotos, eles são como uma ironia dentro das quatro linhas. Subversivos, indomáveis, têm um traço adicional de imaginação em relação ao comum dos jogadores mortais. Somos mais elegantes, dizia Maradona. Cada vez mais rareiam no futebol de top. Falo, claro, dos canhotos de criação ofensiva. Manchester, Inter, FC Porto, Real Madrid ou Arsenal, por exemplo. Só destros a atacar.

Posse de bola com imaginaçãoMesmo quando jogam com extremos, é comum serem ambos destros. O Lyon tem Malouda, mas, pensando na teoria da subversidade canhota, demasiado submisso à ordem táctica. No Real Madrid, Reyes parece submerso pela tristeza do futebol actual. Van Persie é uma esperança no Arsenal. Deixem-no crescer e convencer melhor Wenger. Isso também se nota nas selecções. Até o Brasil -onde antes moraram Rivelino, Gerson, Éder – só tem mágicos destros. Olhando as grandes equipas, restam duas pérolas: Messi e Robben. Cada qual no seu estilo. Robben possui uma velocidade de execução impressionante. Quando a usa perto da área, com a baliza como alvo, aos defesas só resta mesmo é rezar. Messi é o futebol de rua no grande Estádio. Finta, finta, cai, levanta-se, ri-se, encolhe os ombros e volta a fintar outra vez. Acredito que a bola gosta de estar com eles. Diverte-se mais, pelo menos. E a qualidade da posse tende a aumentar. Faz lembrar uma velha história entre Rivelino e Pelé num treino no Mundial 70, quando Gerson e Rivelino (dois canhotos), matreiros, abrandaram para descansar. Pelé reparou, aproximava-se para os repreender quando Rivelino olhou para o Rei e perguntou-lhe: Pelé, diz-me a verdade, o que tu gostavas mesmo era de ser canhoto, não?