POSSO LEVAR A BOLA PARA CASA?

29 de Janeiro de 2016

A forma como festejou, ou reagiu, ao último golo que marcou, quando a ansiedade comia toda a atmosfera e seus protagonistas, foi como se já estivesse a planar emocionalmente sobre aquilo tudo. Um encolher de ombros, expressão indefinida e “simples, estão a ver?”. Dirão que também nunca festejou os golos de forma exuberante. É verdade. Até aquele nos descontos na Final da Taça da época passada. Nessa altura após a reação dele até pensei que o jogo estivesse parado por alguma razão. Não estava. Pelo menos na cabeça de Montero. Como sempre. E muito á frente dos outros.

Com a sua partida, sai o jogador com melhor recepção de bola do nosso campeonato. A melhor recepção nos locais mais difíceis. Recepção friamente orientada com golo. Entrelinhas (defesas e médios-defensivos adversários) ou na área, quando todos caiem em cima. É uma partida estranha.
Este factor como principio de elogio a Montero é o que coloco no topo da pirâmide da classe dum jogador: a recepção de bola. Quem a não souber fazer, dificilmente pode falar em condições com ela. Quem a “mata” quando a recebe, até pode ficar com ela mas para voltar a falar tem que lhe dar um “desfibrador de técnica” com as chuteiras. Quem a recebe, acariciando-a, deixando-a respirar, faz dela o que quer.

Há, claro, outros jogadores com grande poder recepção no nosso campeonato. Mas não é a mesma coisa.
Vejo Peseiro a meter Brahimi a 10, como espécie de mescla entre terceiro-médio com segundo-avançado, e penso nisso. Porque Brahimi é um jogador com boa recepção mas quase sempre para... guardar a bola para si e não para a dar ao jogo logo de imediato. Pode parecer que a questão estará em saber o que fazer com ela a seguir. Um drible, mais outro (e mais outro por vezes) ou ter uma opção alternativa mais.. coletiva: o passe, sempre o passe como o segredo mais “mal guardado” do bom futebol.

Brahimi é diferente, no estilo, de Montero, mas nesta “versão 10” pisa os mesmos espaços (por isso me lembrei dele a propósito da recepção). Como os modelos de jogo também mudam (com o clube ou o treinador) também Brahimi tem de mudar essa “expressão de recepção” para jogar mais rápido com a equipa (melhorar no passe, visão e timing) e não só ele com a bola.
De Montero a Brahimi, o jogo é uma individualidade que tem sempre de prestar contas à equipa.