«PRINCIPÍOS DE JOGO»: A ordem e a liberdade

17 de Abril de 2016

O modelo de jogo é um conjunto de referências colectivas e individuais. As referências são os princípios de jogo definidos pelo treinador. Ora, ao longo dos tempos, desde os anos 50 até ao presente, todas estas equipas tiveram referências colectivas e individuais. No caso destas, no entanto, elas devem estar condicionadas à ordem colectiva. A suprema referência. Com isto não se entenda, porém, que o jogador é um mero robot intérprete desse princípios. Com bola, em campo, o jogador é livre para criar, mas essa liberdade está balizada pelo modelo de jogo colectivo e termina quando choca, ou subverte, a ordem colectiva, as referências colectivas. Se por exemplo o extremo deve receber a bola por «fora», isso não o impede em certos momentos, quando a equipa báscula ou busca desiquilibrios, que a receba por «dentro», esse movimento não deve, no entanto, subverter os princípios colectivos. Se, nesse movimento, detectar que o lateral subiu ao mesmo tempo pelo corredor, o seu movimento «livre» pode matar, impedir a efectivação de um dos princípios que faz o modelo de jogo.

Eles são, portanto referências de acção. Só tendo isto sempre em mente, é possível conceber o jogar em equipa. Penso que isso essa combinação ordem-liberdade individual está hoje mais activada. Nas equipas do passado, existia maior mecanização dessas referências. A ideia de jogo do treinador transformava-se num dogma que raramente admitia desvios. Zagallo fazia no Mundial 58 a mesma coisa do primeiro ao último minuto. A propósito, Zagalo conta que, nos treinos, o técnico Fleitas Solís, nos treinos do Botafogo, apitava sempre falta quando ele fazia mais um drible. No fundo, esse drible a mais podia subverter o princípio de jogo. Em 70, Garrincha ou Rivelino sabiam ora dar profundidade pela faixa como verdadeiros extremos, ora flectir em diagonal procurando desiquilibrios interiores de penetração. Isto é, referências-base e liberdade para as interpretar sem subverter os princípios. Há, em tudo isto, um conteúdo táctico subjacente. Dinâmico que traduz a organização de jogo em movimento.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeAo longo dos tempos, o futebol mudou muito, adquiriu novas formas tácticas e estilos, mas em todas épocas a inteligência foi o ponto de partida para entender o seu sentido colectivo ao qual até as grandes individualidades se devem submeter. É neste sentido que faz tanto sentido falar hoje em «princípios de jogo». Como o próprio nome indica, eles são um «princípio» para modelar o «jogar» da equipa, traduzindo num conjunto de normas e movimentos comportamentais que orientam o jogador em campo na procura das soluções mais eficazes em diferentes situações de jogo. São eles que determinam e balizam o posicionamento e a movimentação dos jogadores. Neste contexto global, pode-se dizer que o primeiro «princípio de jogo» para a construção do dito futebol moderno terá sucedido ainda no Séc.19, em 1872, quando uma equipa escocesa, o Queen`s Park FC, olhou de lado o jogo directo e desordenado praticado pelos inventores ingleses e inventou o chamado dribling and passing game. É esta a grande raiz táctica do futebol: o jogo do drible e do passe. Tudo nasce destas duas simples definições. Progredir no terreno jogando colectivamente, passando a bola uns para os outros, e não com meros pontapés para a frente, tentando colocar a bola o mais rapidamente possível perto da baliza.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeNunca como hoje, porém, se falou tanto em «princípios de jogo». Eles sempre existiram, no entanto, em qualquer equipa, em qualquer época. Reflectem preocupações com a criação de um modelo de jogo, ideologia colectiva integrada ao sistema. São eles, afinal, que dão vida própria a esse mesmo sistema, pré-definido pelo treinador. Repare-se, neste sentido, na seguinte transcrição de uma reflexão feita por um grande treinador sobre o «jogar» da sua equipa: «Na minha equipa, os onze jogadores devem estar em permanente movimento para impedir o adversário de adivinhar as suas intenções. Mesmo um médio, se tiver oportunidade, deve avançar no terreno e surgir, de surpresa, na área adversária, mas, nesses mesmo instante, um seu colega deve imediatamente ocupar o seu posto em campo subitamente vazio pelo seu adiantamento no ataque. O meu sistema, em suma, é não ter nenhum sistema. Inteligência, velocidade e surpresa são os factores de sucesso» Quem escreveu isto foi um mítico treinador austríaco chamado Hugo Meisl, criador da eterna Wunderteam, «equipa maravilha» da Áustria dos anos 30, e é a transcrição retirada de um seu livro com data de 1919, intitulado «Manual para os treinadores de futebol em Viena».

Embora a definição ainda não fosse utilizada, tudo o referido por Meisl são, afinal, «princípios de jogo», definidos no início dos anos 20. Há quase 80 anos, antes de Pelé ou Di Stefano terem sequer nascido… Nesse sentido, a escola centro-europeia (onde também se destaca a húngara) marcou o início do pensamento sobre o grande futebol. Seria, aliás a escola de Meisl a inspirar, duas décadas depois, a revolução táctica da Hungria que iria marcar os anos 50. Em termos de sistema, a Áustria consagrou o chamado «sistema clássico» ou «pirâmide» em alusão ao desenho que a distribuição dos jogadores em campo adquiria. Traduzia-se, no papel, num 2-3-5. Foi um sistema pioneiro, aparentemente desequilibrado em termos defesa-ataque, mas que depois, com o recuo de dois avançados interiores, iria demonstrar a preocupação de Meisl em distinguir claramente os três sectores do jogo: defesa, meio campo e ataque.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeDilacerado pela guerra, a Áustria perderia a identidade da sua escola no passar dos anos 30 para 40. Anexados pelos alemães, perdeu identidade, deu dimensão física ao seu jogo, e, com as mortes dos seus dois grandes profetas, Meisl, no banco, e Sindeler, em campo, viu desvanecer-se a sua revolução táctica. Ficaria, no entanto, a ideologia para servir de inspiração ás gerações futuras e nações próximas, como a da escola húngara. Foi nesse hiato de tempo que emergiu em Inglaterra, o primeiro sistema do chamado futebol moderno: o WM, o sistema que serviria de base a toda a evolução táctica que ciclicamente marcou o século do futebol.

Seu autor, um treinador inglês chamado Herbert Chapman. É curioso notar que a sua preocupação com a abordagem táctica do jogo começou enquanto jogador como confessa no seu livro Chapman, Fottball Emperor. Dos seus tempos de jogador ficara-lhe a impressão que existia, por parte de todos os agentes futebolísticos, um total desprezo pelas questões tácticas: «Nenhuma equipa revelava grandes cuidados na abordagem teórica do jogo ou para organizar a vitória. O máximo de que me recordo eram ocasionais conversas entre, por exemplo, dois jogadores que iam actuar no mesmo flanco”. Tornando-se treinador do Huddersfield Town em 1921, Chapman começa a ensaiar novos princípios de jogo, baseados no entendimento inovador que uma equipa se devia começar a construir pela defesa, incutindo um então pioneiro rigor defensivo. Com este sistema base, o Hudersfield vence três campeonatos da Primeira Divisão inglesa, o último, em 1925, sendo a primeira equipa na história do futebol inglês a passar toda uma época sem sofrer mais de dois golos por jogo. No fundo, dizem os estudiosos, Chapman tinha descoberto a raiz do contra ataque, grande arma futebolística do futuro. Estudioso e sagaz, Chapman criara o famoso WM. O nome do sistema derivava do facto da formação dos jogadores em campo lembrar as pontas de ambas as letras, Basicamente, o novo sistema alicerçava-se no recuo de dois dos cinco jogadores do ataque, que assim passavam a ocupar postos que seriam designados por interiores.

Ao mesmo tempo, com o recuo de um médio centro para o meio da defesa, criando o stopper, enquanto os dois médios ala flectiam no terreno, ficava desenhado um quadrado a meio campo que garantiria todo o equilíbrio da equipa, pelo que também chamaram ao sistema o Quadrado Mágico de Chapman. Passava-se a jogar em 3-2-2-3, a grande figura permanecia o avançado centro, mas pela primeira vez na história do futebol havia equilíbrio entre o número de defesas e avançados. O onze tornava-se um bloco mais coeso. No centro da defesa passava então a existir um novo elemento. Muitos estudiosos quiseram-lhe atribuir a invenção do líbero, mas tal parece, no entanto, exagerado, pois no sistema de Chapman, este novo jogador defensivo tinha apenas uma missão específica de marcação e não era um verdadeiro chefe da defesa. Por isso chamou-se stopper, o defesa-central de marcação da actualidade. Para Chapman era claro as bases para construir uma grande equipa de futebol: «No futebol existem quatro jogadores chave: os dois alas e os avançados interiores. Se tivermos um bom guarda-redes e um bom stopper, tudo o que é necessário são dois bons extremos e um grande avançado centro. O resto é indiferente». (Chapman, 1931).

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeChapman morreria, no entanto, cedo de mais para dar seguimento à sua ideologia táctica. Quando faleceu, em meados dos anos 30, o seu WM parecia um dogma táctico-ideológico, mas a escola centro-europeia, então liderada pela Hungria tina outras ideias que ficariam bem claras num célebre jogo disputado em 1954 em Wembley. Frente a frente estiveram, então, o célebre WM inglês, com o revolucionário 4-2-4 húngaro, que se desenhava, em MM , com bola, e UM sem bola. Vejamos: O segredo era um falso ponta de lança, Hidegkuti, que recuando no terreno Sabendo que os laterais ingleses iriam marcar os seu extremos, Budai e Czibor, e o stopper Johnston ia cair em cima do avançado centro, Sebes fez este dar três passos atrás no campo, obrigava o seu marcador a subir para o acompanhar.

Era então nesse momento que metia a bola nos espaços vazios, nas costas da defesa inglesa, com esse movimento colocada fora do seu posicionamento habitual, onde, após velozes diagonais, surgiam a voar baixinho Czibor, Puskas, Budai e Kocsis, isolados diante Merrick. Nesse sistema, que no fundo apenas mexia uma peça do “WM”, os húngaros esmagaram, 6-3, a Inglaterra, que assim pedia pela primeira vez em casa contra uma selecção não britânica. Um mês depois em Praga venceram por 7-1! Nos anos 50, pode-se dizer, começou o futebol da era moderna. Pela mão de Gustav Sebes, a Hungria mostrou ao mundo um novo caminho táctico, desmistificando o “WM”. Era o nascer do 4-2-4, um estilo sem posições definidas, com os números das camisolas baralhados e os jogadores a movimentarem-se constantemente. Era, pura e simplesmente, o nascer do Futebol Total que, 20 anos mais tarde, o mundo quis atribuir apenas à escola holandesa. Não foi. Os percursores foram os húngaros e, lembrando a Áustria dos anos 30, todo o futebol centro europeu desde 1930 a 1956. Muito do que hoje se fala sobre polivalência dos jogadores já tinha sido feito pelos húngaros 40 anos atrás. Para além de tudo isto, pela primeira vez os números nas camisolas – até hoje uma referência à posição dos jogadores em campo- foram utilizados para confundir os adversários. Nessa tarde, os britânicos, no relvado e na bancada, não entendiam onde, inseridos num dinâmico esquema, jogavam os magiares, com o nº9 na defesa e o nº3 no ataque.

A reflexão actual que se faz em torno dos «princípios de jogo» é importante para entender o seu verdadeiro sentido e ver como ele, com outro nome (ou até sem definição), fez ao longo dos tempos parte da ideologia de jogo de todas as grandes equipas. Todas elas tinham os movimentos comportamentais-base que orientavam os jogadores em campo na procura das soluções mais eficazes. Num ano de Mundial, faz sentido ver como, nesta perspectiva, como jogavam as grandes selecções do passado, procurando identificar os seus «princípios de jogo», mecanizados ou não, sua evolução conceptual e quais os sistemas e modelos que lhes serviam de base.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeVejamos, por exemplo, o mítico Brasil de Pelé e Garrincha, campeão do mundo em 1958: Esquematizava-se em 4x2x4 e revendo os seus jogos no vídeo é claro detectarem-se movimentos-tipo na organização/transição defendiva e ofensiva. Assim, a atacar, o início da transição era feito sempre pelo lado esquerdo através do recuo do extremo Zagallo que vinha receber a bola e transportava pelo seu corredor para o ataque. O lateral limitava-se ao posicionamento defensivo, mas não passava o meio campo, excepto para executar lançamentos de linha lateral. Á medida que subia no terreno e entrava no ultimo terço de terreno de posse da bola, Zagallo começava a ver desenhada as suas linhas de passe, resultado da aproximação do médio interior esquerdo Didi, que o apoiava para receber a bola em zonas interiores e verticalizar jogo, ou, noutra variante, dos recuos de Pele ou Váva, pontas de lança, para receber a bola (alternadamente, quando recuava um, o outro adiantava-se para entre os defesas adversários) arrastar marcações e dar dinâmica à frente de ataque.

No lado direito, sucede o mesmo, com ao corredor Djalma Santos-Garrincha, embora Garrincha não venha buscar tanto jogo atrás e fique adiantado no seu flanco, à espera do passe que resultava de uma preocupação permanente do «jogar» de toda a dinâmica atacante, que era a de colocar a bola nos flancos e chegar à fase final da conclusão atacante executando centros à linha através dos extremos Zagallo, à esquerda., e Garrincha, à direita. Na transição defensiva, Zito era a chave da dinâmica. Na prática ele é o pivot dos tempos modernos. Era o «cabeça de área», como lhe chamam os brasileiros, fecha na faixa direita até encostar no extremo esquerdo sueco apoiando Djalma Santos.

Organizava e reorganizava a recuperação e saída de bola. Posiciona-se a defender à frente dos centrais (Bellini-Orlando) e, com carácter, é para quem todos olham quando é necessário por ordem na equipa. Menos preso a missões de transição defensiva, o elegante Didi tinha missões de transporte e distribuição nos últimos 30 metros, mas sempre que Zito subia, Didi dobrava nas suas costas. Entre a selecção brasileira de 58 e a que ganhou o Mundial quatro anos depois em 62 apenas existiria uma diferença. Bastou, no entanto, mexer apenas uma peça do xadrez táctico para o sistema e a dinâmica do sistema mudar. O jogador chave voltou a ser Zagallo que ao recuar no terreno faria o sistema evoluir (pu regredir) do 4x2x4 para o 4x3x3. No fundo Zagallo apenas passaria a ter como ponto de partida posicional um lugar na ala do meio campo, sobre a esquerda, que em 58 só ocupava na dinâmica da transição ofensiva, quando a equipa perdia a bola. Ou seja, passou-se de um posicionamento que resultava da movimentação inerente a um princípio de jogo, para um posicionamento de referência que visava equilibrar melhor as três linhas no seu conjunto.

Não foi assim por caso que, graças á sua acção em 58 e 62, Zagallo ficaria para a eternidade conhecido como «a formiguinha de ouro». Tratou-se, portanto, de um «recuo inteligente» que espelhava a cada vez maior dimensão táctica da abordagem do jogo.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeApesar da enorme categoria técnica individual dos seus intérpretes, havia muito de mecânico em tudo isto. Basta ver poucos minutos da final de 58 para se identificarem todos estes «princípios de jogo», os tais movimentos comportamentais que orientam o jogador em campo, determinando as suas movimentações dos jogadores. A questão reside, assim, em saber se eles não se transformam não num «princípio», mas antes quase num «fim» em si mesmo do «jogar» da equipa. Isto é, deixarão de ser princípios, espécie de estrada conceptual onde iria caminhar as dinâmicas e sub-dinâmicas do sistema, para se tornar num conjunto de comportamentos mecânicos regente dos movimentos dessas equipas. Com isto, os jogadores perdem liberdade para agira e ficam aprisionados a um modelo comportamental rígido. Fácil de identificar, inclusive, pelos seus adversários e, consequentemente, passível de mais fácil anulação, pois falta-lhe o traço de imprevisibilidade inerente à sua definição de «princípio».

Ora o que se pretende é exactamente o contrário. Isto é, conseguir, em campo, uma interligação dinâmica entre a ordem e o talento individual, balizada pelo modelo e pelos seus princípios de jogo não mecanizados. É para isso que servem os «princípios de jogo», pontos de partida comportamentais para uma certa ideia de «jogar», integrando ordem e talento individual. Deve-se procurar uma, digamos, «mecanização não mecanizada» e não uma mera «mecanização mecanizada pura». A inteligência é, por isso, o grande princípio master da movimentação no futebol. O jogador é livre para agir, mas não pode agir livremente. A sua liberdade acaba quando choca com a ordem colectiva superior que rege o «jogar colectivo». Os princípios de jogo são, assim, as balizas e os limites dessa liberdade. Se não forem mecânicos, standardizados e permanentemente repetidos eles dão critério à liberdade e ao talento individual que, de outra forma, estaria desenquadrado, não teria ordem e sairia fora do conceito colectivo do «jogar», tornando-se inócuo e até subversivo em relação aos tais princípios de jogo.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeUm dos aspectos em que o futebol evoluiu muito no decorrer do tempo foi na velocidade. Quer no jogo em si, quer na execução individual. Hoje, existe muito menos tempo para um jogador pensar e agir com a bola nos pés. Revendo, por exemplo, os jogos do Brasil no Mundial de 58, é fácil descobrir Didi caminhando lentamente, a passo, no meio-campo, executando depois, sem grande oposição um longo passe em profundidade. Um gesto ainda possível de rever em Gerson, canhotinha de ouro, no titulo de 70, mas já menos solto de marcação. Com o passar dos anos, a pressão sobre a bola foi reduzindo cada vez mais o tempo e o espaço para os artistas segurarem a bola. Recentemente, um estudo sobre o tema, demonstrava, estatisticamente, o tempo que um jogador tinha para segurar a bola antes e um adversário lhe cair em cima para o desarmar: 1958: Garrincha 4 segundos; 1962: Garrincha: 3,5 segs. 1966: Eusébio: 3 segs; 1970: Rivera: 3 segs.; 1974: Cruyff: 2,5 segs.; 1982: Zico: 2 segs.; 1986: Maradona: 1,5 segs.; 1994 e 1998: Baggio e Zidane: 1 seg,. Não há duvida que o tempo para pensar diminuiu. Di Stefano ou Garrincha continuariam hoje, pela sua magia técnica, a ser grandes estrelas, mas, fisicamente, teriam de ser jogadores diferentes, pois os defesas, e seu sistema de pressing, estão hoje muito mais activos. É, no fundo, uma questão de velocidade e ritmo.

Basicamente, o futebol evoluiu sobretudo na velocidade da abordagem colectiva do jogo. Antes, as grandes individualidades quase viviam num mundo à parte. Hoje, os seus legítimos sucessores, como Zidane ou Ronaldinho, terão, para sobreviver, de se integrar nas manobras de todo o onze e incorporarem, em campo, a tal dinâmica da táctica. “Todos os exercícios que o jogador faz no treino com bola contêm em si mesmo um certo perigo. O perigo de poder adquirir uma forma de controlar a bola que nunca poderá por em prática no jogo real. Há muita gente que pode ser vista praticando nos campos desportivos, impecável na sua técnica, sendo capaz de dominar a bola, chutá-la, etc, na perfeição. Mas quando enquadrados num jogo real, são inúteis. Nunca conseguem ter a bola em boa posição para um dos seus remates, frequentemente falham o mais simples dos passes. É certo que tal pode ser devido ao nervosismo. Mas, mais frequentemente, a razão deve procurar-se no facto de que, no treino, todos os remates são feitos a partir de uma posição estática. Quando metidos num jogo de competição, vêm-se confrontados com dificuldades impossíveis de transpor pelo facto de que, num jogo real, raramente um jogador se pode permitir ao luxo de estar parado enquanto joga a bola.

Num jogo, quase todas as movimentações são feitas em corrida, frequentemente com mudanças bruscas de direcção, rodopiando, transpondo um adversário, acelerando, saltando, sendo carregado, etc.” Trata-se de mais uma transição dos escritos de Hugo Meisl, em 1919, em “Manuel para treinadores de futebol em Viena”.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeDesta forma, tendo em conta noções como pressing, velocidade e táctica, deixa de fazer sentido falar em fase atacante e fase defensiva como compartimentos estanques na dinâmica de jogo de uma equipa de futebol que quer ser de top. Ambas estão relacionadas e a coesão do bloco depende, exactamente, dessa noção conjunta, cuja consagração máxima emerge na eficácia e velocidade das transições. Elas estão interligadas e não existem uma sem a outra. A recuperação da bola, por exemplo, mais do que uma acção defensiva, é o início da acção ofensiva. A eficácia de ambas está de tal forma relacionadas ao ponto de serem uma só na dinâmica de jogo, funcionando como um bloco único, sincronizado, no pressing e na construção, na recuperação e na distribuição.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeOs primeiros a entender isto de forma clara foram, nos anos 70, os grandes ideólogos da escola holandesa. Como principal símbolo dessa nova forma de pensar e jogar futebol, temos a selecção holandesa do Mundial-74. Quando surgiu, através da Holanda dos anos 70, o pressing a todo o terreno, iniciado ainda no meio campo adversário, tinha dois objectivos claros: impedir o adversário de pensar elaborando jogadas e recuperar a bola o mais cedo possível, visando, assim, tê-la na sua posse a maioria do tempo para controlar o ritmo de jogo. É essa eficácia em manejar estes dois tempos –recuperação de bola e controlo da sua posse- que muitas equipas têm dificuldade em realizar.

Por todo o mundo, abundam, cada vez mais, os chamados ladrões de bola. Em muitos casos, porém, esse pressing esgota-se na acção defensiva. Isto é, pressiona-se apenas para não deixar o adversário jogar. Por cada três bolas recuperadas, perdem-se duas logo a seguir. É necessário, portanto, para dar sentido ao pressing, que, no momento seguinte, a equipa saiba trocar a bola. Ou seja, depois do esforço, o talento, até ambas serem parte interligada do mesmo projecto ou modelo. Observando, no vídeo, os seus jogos da Holanda no Mundial 74, pode-se facilmente detectar os grandes «princípios de jogo» do seu inovador modelo: Esquematizado, o famoso Futebol Total era um 4-3-3, com uma defesa em linha de 4, 3 médios armadores, um médio centro solto, e 2 avançados que partiam das faixas como extremos.

No relvado, porém, com marcação á zona, nenhum dos jogadores tinha posição fixa. O segredo estava na circulação de bola, com constantes mudanças de flanco, o célebre carrocel mágico, e no aproveitamento dos espaços vazios. Futebolisticamente poético, os holandeses giravam em campo, lembrando as pás de um moinho. Assim, num ápice, o 4-3-3 inicial, transformava-se, de posse da bola, em 3-4-3 ou 4-4-2. Em síntese, seria o revitalizar do esquema húngaro de 1954, acrescentado da circulação de bola e de uma clara intenção de jogar pelas alas. Quando, por exemplo, quem conduzia a bola pela esquerda via que não tinha linha de penetração, passava-a para um elemento recuado, mais para dentro do campo, para esse homem virar o jogo para a direita. Os adversários ficavam hipnotizados com este carrocel, até que o espaço era criado e Cruyff ou Rep surgiam na cara do golo. Era um ideologia futebolística inovadora, mas que não seria nada sem uma fantástica geração de jogadores como a que Michels teve ao seu dispor, sob a magistral batuta de Cruyff.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeO Brasil de 70, embora esquematizado em 4x3x3, tem, em alguns momentos, «princípios de jogo» semelhantes ao de 58. O modelo de jogo é, no entanto, muito diferente. Como ponto de partida, à frente da clássica defesa a «4», coloca dois volantes-cabeças de área: Gerson e Clodoaldo. Destes, o farol da equipa que gere todas as saídas para o ataque, é Gerson. Conduz a bola com tranquilidade, invade o meio campo adversário e nesse momento espera pelo desenhar de linhas de passe. Uma dessas linhas tipo surge quando os extremos Rivelino ou Jairzinho, com espaço abrem por «fora», ora quando marcados, flectem em diagonal. Neste aspecto, a dinâmica deste princípio difere de 58, onde Zagallo ou Garrincha nunca procuravam movimentos interiores, apenas jogando encostados à linha. Aqui está, portanto, uma evolução do tal conceito ordem-talento individual balizado pela liberdade de interpretação dos princípios sem que com isso comprometa a ordem.

Tanto Rivelino como Jairzinho sabiam quando podiam sair do corredor sem desequilibrar – ou desordenar- a equipa, tendo também os laterais (Carlos Alberto-Everaldo) um papel muito importante, nessa dinâmica conjunta do onze, ora quando subiam em apoio ora quando fechavam atrás o corredor. Outro movimento típico (entenda-se principio de jogo) da equipa resultava dos recuos de Pele para receber a bola -que então estava quase sempre nos pés de Gerson- arrastando marcações. E este conceito “arrastar marcações” faz todo sentido ser aplicado aqui pois a Itália, na final, apostou claramente numa marcação ao homem. Perante equipas com esta postura a mobilidade não standardizada dos jogadores é crucial para iludir esse jogo de pares. Dentro do mesma dinâmica de princípios, Tostão, o ponta de lança, também saía muitas vezes da sua zona de referência, entre os centrais adversários, para receber a bola e iniciar jogadas de triangulação com Perle ou os extremos que entravam em diagonal. No fundo, estamos aqui perante um conceito ou variação moderna da ordem. A chamada desorganização organizada, que, quatro anos mais tarde, a Holanda transformaria verdadeiramente num modelo e numa filosofia de jogo.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeTodas estas nuances de movimentação que falámos espelham., afinal, «princípios de jogo»: 1. «Dribling and passing game» (1872); o jogo do drible e do passe: «princípio de jogar» através de dribles e passes. 2. «Clássico»: (1930) os onze jogadores devem estar em permanente movimento para impedir o adversário de adivinhar as suas intenções 3. «WM» (1934) recuo de dois dos cinco jogadores do ataque, que assim passavam a ocupar postos que seriam designados por interiores. Ao mesmo tempo, com o recuo de um médio centro para o meio da defesa, criando o stopper, enquanto os dois médios ala flectiam no terreno, ficava desenhado um quadrado a meio campo. 4. «MM» , com bola, e «UM» sem bola (1954) Um falso ponta de lança recua no terreno, dando passos atrás no campo, obrigava o seu marcador a subir para o acompanhar.

Era então nesse momento que metia a bola nos espaços vazios, nas costas da defesa inglesa, com esse movimento colocada fora do seu posicionamento habitual, onde, após velozes diagonais, surgiam em velocidade os extremos fugindo ás marcações e entrando no espaço vazio criado na zona central da defesa motivada pelo facto do central inglês ter acompanhado o falso ponta de lança húngaro. No papel era um 4x2x4, o memo esquema utilizado quatro anos mais tarde pelo Brasil no mundial-458, embora com particulares nuances estratégicas 5. «Nova dimensão física do jogo»: (1966) A primeira abordagem de um conceito moderno sobre como a forma de uma equipa deve integrar conjuntamente a noção física e táctica, nunca as dissociando na preparação da sua preparação. A sua eficaz aplicação depende da correcta interligação das duas em campo. 6. «Futebol Total» (1974): circulação de bola, com constantes mudanças de flanco, o célebre carrocel mágico, e no aproveitamento dos espaços vazios. Quando, por exemplo, quem conduzia a bola pela esquerda via que não tinha linha de penetração, passava-a para um elemento recuado, mais para dentro do campo, para esse homem virar o jogo para a direita. Os adversários ficavam hipnotizados com este carrocel, até que o espaço era criado e Cruyff ou Rep surgiam na cara do golo Todos eles traduzem normas que regem o posicionamento e movimentos dinâmico-comportamentais dos jogadores em face das diferentes situações de jogo.

«PRINCIPÍOS DE JOGO» A ordem e a liberdadeTudo isto tem aplicação actual, no sentido em que, com a bola nos pés, o jogador é livre para criar, mas deve entender que essa liberdade termina quando choca com a ordem colectiva e o modelo de jogo subjacente. A capacidade do treinador – e dos seus jogadores- entenderem e interpretarem estes conceitos é que marcam a diferença entre as grandes equipas da actualidade, como o Barcelona tão bem explica esta época. Mesmo um craque como Ronaldinho raramente faz um drible a mais. Mesmo o gesto mais mirabolante produz jogo, pois tem em mente um princípio colectivo. Mais uma prova, afinal de que mais do que na técnica ou na táctica, o bom futebol, hoje como nos anos 50, começa na inteligência, individual e colectiva