Quatro Classes de Avançados

17 de Outubro de 2001

Quatro Classes de Avançados

Na babilónia do futebol, podem-se distinguir várias classes de avançados. Cada qual com o seu estilo, colam-se á imagem da equipa como um rótulo numa garrafa de vinho. Em traços largos, podem-se distinguir, quatro categorias: Os rápidos, os possantes, os habilidosos e os cabeceadores. Assim, se vemos uma equipa com avançados velozes logo a catalogamos como de contra ataque São, por exemplo, os casos de Claudio Lopez e Owen. Noutro plano, temos o avançado armário, geneticamente norte europeu, que se impõe pelo choque, casos, por exemplo, de Janker e Jimmy. Desta forma, temos uma equipa mais estática, que afunila o jogo para a meia lua, pelo que se exige desses avançados um trabalho de sacrifício na perseguição da bola quando na área ou nos pés dos adversários. No campo virtuoso, surgem habilidosos tecnicistas que driblam curto, o chamado avançado esquivo, tipo Romário ou Saviola. Com eles a equipa tem tendência a ficar mais lenta de forma a que esses magos executem melhor a sua arte. Esta é, no entanto, uma classe de elite. Os adversários gelam quando a bola lhes vem parar aos pés. Valem o preço de um bilhete mas põem os cabelos brancos a qualquer treinador.

Se este lhes pede que recuem em sacrifício, ficam, tacticamente, a jogar com 10, quando não tem a posse da bola. Por fim, temos os homens que conhecem os pássaros. São os cabeceadores natos, altos como Jardel ou Bierhoff, que exigem uma frente de ataque alargada, com extremos para executar os centros. Em cada classe, pode-se depois encontrar sub-grupos, os avançados híbridos que mesclam dois ou mais atributos, tanto se esquivam como enfrentam o choque, e por isso são mais valorados. São os casos de Batistuta, Kluivert ou Vieri. Existe ainda a classe anfíbia, criada nos laboratórios tácticos. É o chamado segundo ponta de lança, um mito do futebol contemporâneo, estilo Raul, Henry ou João Pinto. Assim, em teoria, uma equipa bem equilibrada deve ter quatro classes de avançados ao dispor. Com essa diversidade, o treinador decidirá, em função do jogo, adversário ou momento, qual faculdade utilizar. Quatro ou cinco estilos á espera do regresso de Ronaldo, o homem que misturava todos estes conceitos, punha á sua passagem os defesas de pernas para o ar e fazia-nos, num ápice voltar ás origens.

CELTA: O Futebol segundo Victor Fernandez

Na Galiza mora actualmente uma das mais excitantes equipas da actualidade. O Celta de Vigo. O seu jogo tem tudo: nervo, arte e eficácia. No banco, Victor Fernandez, um intelectual do futebol. Formado em letras, está no futebol como Cervantes na literatura. Filósofo da bola, imagina o futebol com cavaleiros românticos, tipo Mostovoi, ajudados por fieis discípulos como Karpin, lutando contra os moinhos de ventos com avançados que simulam o voo da gaivota, como Catanha. Um futebol de autor, que, no papel, se desenharia num clássico 4-4-2 á zona, mas que em campo ganha alma de Don Quixote e cativa os amantes do bom futebol. Uma equipa com personalidade própria que se sublima quando encontra tempo para pensar. O seu maior erro será abordar o jogo tendo primeiro em conta as características do adversário, do que as suas. Um equivoco constante nos jogos longe dos Balaídos. O segredo do bom futebol do Celta reside num do princípios mais básicos do jogo: a posse e circulação da bola a toda a largura do campo, procurando chegar pelos flancos á área contrária. Tudo começa na defesa com a segurança agressiva de Cáceres e ganha dimensão no triângulo do meio campo, onde Mostovoi dá a imaginação, Karpin o carácter e Giovanella a luta pela recuperação da bola.

Na frente, apoiados por Edú, um brasileiro com futebol tricot, Catanha, o goleador paciente, e o homem com quem todos, inclusive o técnico, parecem ter menos paciência: Gustavo López, um rato do contra ataque esperando o erro alheio. Num exercício de imaginação, vendo o estilo flanqueado deste Celta, com a bola a ir tantas vezes á linha de fundo, diria que esta poderia ser uma equipa á dimensão de um ponta de lança como Jardel. Custa a acreditar que possa lutar pelo titulo até ao final, falta-lhe frieza para ganhar mesmo jogando mal. Um atributo que fez campeão o seu vizinho da Corunha. Ao invés de Irureta, um pragmático, Fernadez é um idealista e como se sabe, no futebol tudo o que se faz com eficácia não é digno de se questionar.