«RAIO X»: Anelka, Roberto Carlos e Daniel Alves

28 de Março de 2007

«RAIO X» Anelka, Roberto Carlos e Daniel Alves

Roberto Carlos: talento e orgulho

Surgiu como uma locomotiva canhota que invadia o meio-campo adversário em velocidade, técnica e força. Um pontapé fulminante. Desfrutar do seu jogo foi das imagens mais empolgantes dos últimos dez anos, mas, impiedoso, o tempo e seus sinais irromperam por entre todo este espectáculo maravilhoso. As exibições cada vez mais tristes, o olhar escurecido, e, por fim, uma má recepção da bola num jogo decisivo que deu um golo fatal ao adversário. Aos 33 anos, Roberto Carlos sentiu que o seu projecto exibicional em Madrid chegou ao fim. Resistiu a ter essa consciência. Acontece com todos os grandes craques. O talento e o orgulho querem sempre falar mais alto. Mas é uma luta inglória. Desigual. Anunciou, amargurado, que ia embora. Ninguém o contrariou. Não consigo entender o futebol sem respeitar a memória. Sem ela, nada faz sentido. O futebol inglês ainda é o último refúgio dessa forma de ver e sentir o futebol. Respeita os seus ídolos. Em todos os momentos da carreira. Há algo de grandioso em tudo isto. Um habitat que seria perfeito para as últimas épocas de Roberto Carlos, com um estilo, afinal, perfeito para as vertigens velozes da Velha Albion. Talento e orgulho continua a não lhe faltar.

O mundo privado de Anelka

«RAIO X» Anelka, Roberto Carlos e Daniel AlvesPara quem gosta tanto de futebol, uma das coisas mais perturbantes é ver um talento perder-se devido à falta de temperamento. Anelka é um desses casos. Conta quem o via quando viajava com o Real Madrid que parecia de outro planeta.

A comitiva no aeroporto, todos falando entre si e Anelka num canto, sozinho, ouvindo música, vagueando pelo seu interior. No relvado, parece também viver num mundo à parte. Sem comunicação com o resto da equipa. Parece desligado do jogo. Só volta à vida quando recebe a bola. Esta semana, na Lituânia, regressou à selecção francesa. O mesmo estilo. Sem bola, no seu mundo particular. Quase todo o jogo. Até que, a poucos minutos do fim, com bola, arranca decidido, ganha espaço e remata. Golo e vitória do onze gaulês. Muitas vezes, antes de descobrir o talento do jogador, é necessário decifrar a sua cabeça.

Daniel Alves, um «ala interior»

«RAIO X» Anelka, Roberto Carlos e Daniel AlvesNa sua ficha surge lateral-direito mas podia estar inscrito outra posição qualquer. O estilo de Daniel Alves é um desafio a qualquer observação adversária que tente decifrar os princípios do seu jogo. É um ala por natureza mas o seu espaço natural não está só nos flancos. Quando arranca desde trás, em velocidade, bola controlada, ilude os marcadores com o seu jogo corporal, foge ao trajecto mais natural do lateral clássico de ir à linha centrar e, ao aproxima-se da área, flecte ligeiramente, faz uma pequena diagonal e fura por zonas interiores, desequilibrando o jogo de marcações contrária. Tentem segui-lo num próximo jogo, por caminhos, atalhos e auto-estradas. É um exótico ala interior, um raro cruzamento de espécies futebolísticas que faz dele um dos jogadores mais empolgantes do actual futebol mundial.