REFLECTINDO SOBRE UM FUTEBOL SEM LÍDERES: Os «grandes cérebros»

16 de Novembro de 2006

Mexendo no jogo colectivo da equipa como um artista de rua maneja as cordas de um boneco de marionetas, a autoridade desses líderes, os homens para quem, no relvado, todos olhavam á espera de um grito ou um apontar de caminho que subitamente iluminasse o jogo mais difícil, traduzia-se, muitas vezes, em precisos e quilométricos passes em profundidade, obra de pensadores como Platini ou Netzer. Esta reflexão sobre um futebol sem líderes ou símbolos, traz-me á memória uma cena televisiva que passava em meados dos anos 80, onde Platini e Boniek surgiam, já no ano 2000 e tal, com uma longa barba branca, cabelos grisalhos, sentados segurando uma bengala, balbuciando: “Recordas-te de Bonini?”, perguntava Platini. “Que lhe aconteceu?” questionava Boniek. “Pobre ragazzo, morreu novo á força de correr por nos dois durante toda a carreira”, respondia Platini, o grande cérebro gaulês, o homem que desde tenra idade aprendera que a bola correria sempre mais do que ele. Embora fosse uma piada, havia, no entanto, um moral subjacente a esses trôpego diálogo.

Na Roma, onde Liedholm afirmava que a bola é que devia suar, jogava Falcão. Ele seria sempre o melhor em campo mesmo se um dia lhe fosse proibido tocar na bola durante os noventa minutos, tal a personalidade com que se movia. Conta-se que quando chegou a Itália, no seu primeiro treino, pediu a bola e, de uma baliza á outra, atravessou o campo tocando-a sem a deixar cair, com o calcanhar, peito e outros rasgos. No final, afirmou a todos que o admiravam: “Ok, agora que vos mostrei o que sei fazer á brasileira, terminou o espectáculo. Agora, vamos jogar futebol verdadeiro, aquele que ganha títulos”. Hoje, este tipo de jogador, elegante e dono do mundo, que parecia comandar tudo, desde colegas de equipa até ao vendedor de coca-cola, quase desapareceu. Ainda se descobrem alguns lampejos dessa elite em Zidane, Baggio, e talvez Romário, para quem, face ao cenário actual, “o melhor treinador é aquele que não atrapalha”, mas o líder cerebral, que quase jogava fumando charuto e todos respeitavam como um guru iluminado é, claramente, uma espécie em vias de extinção.

Grandes «Caudillos»: De Pipo Rossi a Valderrama

REFLECTINDO SOBRE UM FUTEBOL SEM LÍDERES Os «grandes cérebros»Na América do Sul, chamavam e chamam, embora eles também rareiem, a esta estirpe de líderes, os «caudillos», donos em campo de uma aura autoritária só semelhante á dos soturnos ditadores militares. Até os treinadores deviam reverência a esses Generais do Futbol. Era o caso do mítico argentino Néstor Pipo Rossi. Gritava os noventa minutos. Uma vez, quando durante uma palestra, antes de um jogo contra o Brasil, o técnico Stábile disse-lhe, como instrução, para ter cuidado e vigiar Didi, o caudillo gaúcho dos anos 50, respondeu-lhe, parado no meio do balneário, com toda a equipa em redor: “Maestro, isso disse-me a minha mãe antes de sair de Buenos Aires”. Depois, quando entrava na cancha, podia no banco estar sentando Gardel ou Jesus Cristo, pedia a bola e estático com ela, durante uns segundos, olhava tudo e todos como que dizendo: “Aqui quem manda sou eu!” Nas ultimas duas décadas do século, surgiu, na Colômbia, um outro líder, tranquilo como os grandes cérebros, mas que nem gostava de gritar muito. Lento como um líder que sabe o que faz, jogava quase sempre a passo e quem falava era a bola. E como ela falava... Quando foi jogar para Espanha, os adeptos do Valladolid não entenderam esse estilo cerebral. O que eles queriam era fúria e a língua arrastar-se pelos relvados, pelo que passaram a assobia-lo constantemente. Maturana, o treinador á época, seu mentor na Colômbia, sugeriu-lhe então, para colocar água na fervura, só disputar os jogos fora.

Orgulhoso, convencido da superioridade moral do seu jogo de toques curtos, respondeu-lhe sem mover um pelo da sua gigantesca cabeleira loura: “Mire Professor, faço-lhe outra proposta. Entro sempre nos jogos em casa e fico no banco nos de fora”. Para este tipo de jogadores, a palavra medo não faz parte do seu vocabulário. É nesse estado de confiança que nascem os verdadeiros líderes que o futebol actual ameaça matar á nascença, tal a forma como os jogadores estão robotizados pela disciplina táctica.
(Texto de 2002-08-10)