Reflexões de Futebol (2)

05 de Julho de 2011

Reflexões de Futebol (2)

1. Disfarçar as emoções

Nos tempos que vivemos, disfarçar emoções é quase uma arte. Ouço Leo Margets, jogadora de poker, a falar das microexpressões e como está provado que quando gostamos do que vemos, os olhos vão automaticamente para outro lado. É o que chamam tells, informação extra. Postura, olhar, gestos. Para jogar, põe um lenço à volta do pescoço para não notarem as palpitações. E óculos escuros. Há coisas que se aprendem a controlar, como as mãos, outras é impossível.
O futebolista tem uma mesa de poker em forma de relvado. Jogos diferentes? No plano mental, estratégia e expressões, não acho. O poker aprende-se numa tarde, dominá-lo custa uma vida, diz Leo. O futebol é igual. Penso nos jogadores. O melhor é aquele que ameaça fazer uma coisa e depois faz…outra. Isso só é possível não dando pistas do que se vai fazer. Aprender isto não é fácil. Muitos são excelentes tecnicamente, mas muito óbvios a jogar. O que ameaçam fazer, fazem. Não podem usar disfarces, mas quanto mais dominarem as microexpressões, melhor percebem o futebol como jogo de enganos.

2. Construtor de “perfumes”

Reflexões de Futebol (2)Jean Claude Ellena é um perfumista da Hermès. Já criou mais de 50 fragrâncias, mas continua com medo de falhar a fórmula. O desafio? Tenho 2/3 segundos para seduzir as pessoas. O segredo é criar perfumes com sinais que nos levem a outros sítios. Definição perfeita para o que se busca quando numa loja borrifamos uma amostra. Se não seduziu ali, é quase impossível depois.
Na origem, o treinador ambiciona fazer uma equipa de autor. Muitos encaram essa construção como uma oportunidade longa para o fazer. Para ir tentando várias coisas. Não é assim. Se não seduz (conquista) logo o grupo (jogadores/direcção) não acredito que o consiga depois. Não duvido: as manifestações de força fazem-se na altura da entrada! Entrar sem conquistar (seduzir) como um bom perfume no primeiro instante, é como ficar condenado a viver com dúvidas sem saber onde procurar respostas. A primeira essência? Lembro-me aos 4 anos de uma caixa de biscoitos no armário da cozinha. Recordo o cheiro e a dificuldade de lá chegar! Há treinadores que nunca saíram da infância.

3.“Se ele não pensa, pensa tu!”

Reflexões de Futebol (2)Tenho em casa um recente livro, soberbo, de futebol. Chama-se Hola Mister! O autor, um mestre, Alejandro Scopelli. O livro é de…1969 (primeira edição de 57). É um tratado de futebol. Para ler e, sobretudo pensar futebol! . De muitas formas, de diferentes prismas. Destaco uma frase: Se estás convencido que um jogador teu não pensa, pensa tu por ele. É essa a tua obrigação! .

Falo com muitos treinadores e muitos queixam-se das limitações dos seus jogadores a ler o jogo. E, com isso, fazem uma avaliação quase definitiva sobre o seu valor e margem de evolução. É natural a primeira constatação. É perturbante a segunda. No fundo, estão a fugir à obrigação de Scopelli. Ser treinador é, antes de mais, administrar as características dos jogadores. Há os que as entendem e sabem como as usar. Há os que não tem essa percepção fundamental. Porque, em definição, o melhor jogador é o que melhor esconde os seus defeitos e só mostra as virtudes. Esse talento resulta do pensamento. Passa muito pelo treinador dar-lhe essa capacidade. Hola Mister!