Reflexões de futebol

18 de Junho de 2007

1.“O génio não vem jantar?”

Albert Einstein personificou a genialidade como Físico. Conta-se que um dia, nos anos 20, em Berlim, uma jornalista foi a sua casa e, recebido pela mulher, pediu para falar com Der Genie, o Génio. Tal tratamento, lógico e venerador, teve repercussão diferente em casa. A partir desse dia, divertida, a sua família perguntava por ele e sua genialidade nas situações mais banais. Por exemplo: “Quando é que o génio chega para jantar?”. E riam-se.

O futebol actual está cheio de génios. Mas, tudo é relativo. A imprensa tenta criar um todas as semanas. Einstein ficou famoso pela Teoria da Relatividade. Um génio, por definição, é algo que vai muito além da expressão extrema de talento. O critério para o julgar é subjectivo. Nem se evidencia em todos locais ou circunstâncias. Os génios que o futebol hoje produz são quase todos relativos a uma jogada ou jogo específico. Vivem numa equipa. Nem respiram noutra. São expressões de talento circunstancial. E vão jantar a casa. Seria a altura ideal para criar a teoria da relatividade do talento futebolístico.

2. E ver o jogador “normal”?

Reflexões de futebolComo avaliar um jogador? A questão não é simples. Porque os bons jogadores, esses, vemos todos. O olheiro e o guarda do campo. Com os maus também acontece o mesmo, são fáceis de ver. Difícil é ver o chamado jogador normal (que não faz grandes jogadas, nem grandes erros) tem, afinal, escondida, muita qualidade.

O critério para o fazer não tem uma unidade de medida como velocidade, força, finta ou remate. Está relacionado com a inteligência, Isto é, saber como colocar-se em campo. Ter boa recepção de bola e tomar boas opções sobre o que lhe fazer. Passar, segurar ou avançar com ela. Se, depois, a jogada acaba bem ou mal, é outra questão. A detecção do bom jogador esteve antes, na opção tomada. No problema e na bola.

Quando foi ao seu treino de captação, diz Guardiola que pensou mas como vão reparar em mim, se não sou veloz, não finto, sou magro, não remato e só faço passes? Reparam. Porque o olheiro era sensível à…inteligência. Na maioria, são sensíveis à expressão física. Vêem os bons, os maus, mas escapam os normais que escodem…craques!

3.“O quê? Vou jogar a vida toda?”

Reflexões de futebolLeio uma entrevista com Cuca Roseta, fadista revelação, e fico cativado quando ela conta a sua reacção quando Gustavo Santaolalla, grande compositor, a convidou para gravar e disse-lhe que gostaria que ela se dedicasse só à música: o quê, vou cantar a vida toda? Isso é brutal!, disse fora de si. Naquela altura, ia trabalhar em psicologia.

Podem existir outras formas de descrever a descoberta de um talento, mas nenhum pode ter o mesmo impacto do que esta reacção da Cuca. Porque nessa frase está a consciência que o grande segredo para a expressão do talento está em desejá-lo fundir com a própria vida. No futebol, recorda-me uma velha de Puskas, quando uma vez, após acabar a carreira, disse para mim, o futebol foi mais do que a própria vida!.

Quantos miúdos que agora passam de júnior para sénior têm a reacção de Cuca em relação ao futebol? No verdadeiro sentido da paixão futebolística, poucos. Não se imaginam a jogar futebol a vida toda. A formação já os pré-formatou para pensarem no próximo jogo, na próxima táctica, no primeiro carro…