Romário, Madrid e África

12 de Fevereiro de 2006

Romário, Madrid e África

Romário-Projecto Mil Golos

Chamam-lhe «Romário-Projecto Mil Golos». Aos 40 anos, o baixinho vai continuar a jogar. Objectivo: atingir os 1000 golos em jogos oficiais. Neste momento, faltam 45. Tempos atrás, em local incerto, um velho jornalista sul americano, pretendeu fazer um monumento ao drible. A sua forma seria a de “um pequeno moleque de cara suja, dentes pequenos, saídos como os de um coelho, cabelo que fez valer ao pente o direito a ser rebelde, e olhos espertos que pareciam rir-se do adversário e do mundo,...”. Uma imagem romântica e fiel à das grandes estrelas, nascidas na chamada universidade do futebol de rua. Outra possibilidade era fazer uma estátua de Romário. O outro nome para conjugar drible e golo. O baixinho foi um dos melhores jogadores do mundo na sua época.

Fica a dúvida se, com outra atitude profissional, poderia ter sido também um dos melhores de todos os tempos. Mas, o enigma é também saber se, com outro carácter, o futebol de Romário serRomário, Madrid e Áfricaia o mesmo. No fundo, não se pode exigir que se seja um génio nos relvados e um lord inglês fora deles. Faz lembrar aquela ideia de um famoso físico britânico, para quem não havia dúvida que a sua mulher, que tanto amava, era, em suma, um mero conjunto de átomos e células, mas que se a tratasse assim, tão fria e cientificamente, ela iria embora no mesmo momento. Com o futebol e o estilo de Romário sucede o mesmo. Apesar de ser cientificamente matéria orgânica em movimento, para o entender e amar, terá de ser visto quase como uma obra de arte. No resto, é uma lição de arrogância. A profissão de futebolista assemelha-se em muitos aspectos com a de um top-model. No fim da carreira desfilam classe apenas nas fotografias ou nos lances de bola parada. Com Romário é diferente. O mais curioso é que, apesar de já ter 40 anos, a essência do seu futebol continua a mesma. Caminha pelos relvados com aquele andar de moleque que vai contrariado comprar leite para mãe na loja da esquina, ilude os defesas e, de repente, bang!, golo de Romário!

Os fantasmas de Madrid

No relvado de Saragoça, vergados a uma pesada goleada, a imagem dos jogadores do Real Madrid confundia-se com a escuridão da noite. Seis golos. De semblante perdido, cruzam olhares indecifráveis em busca de respostas. Sem alma, o onze madrileno é hoje como um barco fantasma tacticamente à deriva. Um cemitério de treinadores no qual nenhum consegue descobrir qual a fórmula certa para combinar tantas estrelas sob o mesmo tecto táctico. A resposta é, porém, simples. Construída sem referências de segurança defensiva, o Real é hoje uma equipa descompensada que não sabe jogar sem bola. Na hora de procurar uma definição para o problema, há um nome que desde há três anos surge quase como uma permanente assombração: Makelele. Desde que perdeu essa referência de recuperação e primeiro passe à frente da defesa, o onze nunca mais reencontrou o indispensável equilíbrio táctico. Desiquilibrado, o Real faz lembrar aqueles enormes puzzles em que todas as peças parecem iguais. Romário, Madrid e ÁfricaAfinal, a equipa que, numa estratégia de marketing, muitos chamaram galáctica, é, tacticamente, um monstro com pés de barro.

No ataque, as estrelas jogam sobretudo por instinto e brilham pela qualidade individual. Robinho parece sempre estar a jogar outro jogo, totalmente diferente do resto dos companheiros. O futebol de Ronaldo, reduzido a espaços cada vez mais curtos, tornou-se triste. Beckham redescobriu na ala direita o melhor lugar para os seus cruzamentos enroscados, mas Zidane, com o suor sempre a escorrer-lhe pela careca, já nem esboça um ténue sorriso de Gioconda. Para ressuscitar a alma após o 6-1 de Saragoça, houve quem resgatasse o mito das lendárias reviravoltas que o Real dos anos 80 conseguia nos jogos da segunda mão. Para isso, apelou-se ao ressuscitar do espírito de Juanito, a garra personificada dessas históricas noites europeias. Cuidado. Se há algo obrigatório no futebol é o dever de respeitar a história. Aquela equipa, com Sanchis, Camacho, Michel, Santillana, Butragueño e companhia, era de outra casta. Nesse tempo, quando lembravam a Juanito o difícil da tarefa, ele respondia que «noventa minutos no Bernabéu eram muito longos…» E eram, de facto. Hoje, continuam longos, mas principalmente para o próprio onze merengue. A ideologia de Juanito é como a bíblia do Real Madrid. No futebol, como na vida, faz muitas vezes falta regressar ás raízes.

Apontamentos de África

Empurrado pelo seu público, o Egipto conquistou a quinta Taça de África da sua história mas, apesar de alguns traços de bom futebol, está muito longe de ser uma grande equipa. Praticando um jogo apoiado e de toque curto, fiel à quente escola norte-africana, derrotou na final o exército de Drogba, profeta da nova Costa do Marfim. Na hora do balanço, ficam na memória vários nomes para seguir no futuro. Em primeiro plano, para os caçadores de talentos escondidos, os jogadores ainda a jogar nos seus países de origem. Olhando o onze dos faraós, fixem dois nomes para o futuro: Mohamed Shawky, um trinco transportador de bola que faz o campo todo e Aboutrika, médio flanqueador que rompe as defesas adversários. Duas verdadeiras pérolas do grande Al Ahly de Manuel José.Romário, Madrid e África

No universo da chamada África negra, destacaram-se os pequenos anões do Congo, com um diabólico extremo direito chamado Mputu e nº10 canhoto de drible curto e grande visão de jogo chamado Zola Matumona, ambos ainda a jogar em anónimas equipas congolesas, o AS Vita Club e o FC Mazembe. Nomes estranhos que são, afinal, o berço do mágico futebol do continente negro. Projectando o Mundial, a Costa do Marfim confirmou ser uma das mais fortes selecções africanas da actualidade. A grande força do onze está no ataque com o poder de Drogba e na capacidade de jogar pelos extremos com gazuas como Akalé, Dindane ou Koné, mas, para vingar na Alemanha, o seleccionador Henri Michel tem agora de lapidar a transição defensiva. No fundo, precisa de emoldurar a magia africana na cultura táctica europeia. A dificuldade é conseguir que uma não anule a outra. Para isso, tem um trinco que em breve irá ser disputado pelos maiores clubes europeus. Chama-se YaYá Touré, actualmente a jogar na Grécia, no Olympiakos. É irmão do central Kolo Touré, já estrela do Arsenal, e enche todo o campo com técnica, força e táctica. No início dos anos 80, quando as selecções africanas começaram a abalar o Mundial, muitos chamaram-lhe o futebol do futuro. Para conquistar esses novos tempos necessita de aproximar as suas grandes estrelas, quase todas a jogar na Europa, das suas selecções. Encurralada num grupo fortíssimo com Argentina, Holanda e Sérvia, a Costa do Marfim tem uma missão quase impossível no próximo Mundial. Se passar a primeira fase, podermos ter por fim chegado a esse futuro anunciado.