Ronaldinho no “País das Maravilhas”

01 de Maio de 2006

Ronaldinho. “Em campo, dá ou marca golos, inventa dribles, e depois…ri-se. Antes, dorme ou canta…”

Meias-finais da Liga dos Campeões. Confrontos de alto nível com grandes jogares e grandes duelos tácticos. Apesar destes grandes confrontos, houve um caso que, fora do relvado, me suscitou maior atenção: Ronaldinho adormeceu no autocarro a caminho do jogo de Milão. Mesmo após a chegada e de todos descerem do autocarro, dizem que ele continuava num sono profundo. Foi acordado, com os phones de ouvir música pendurados ao pescoço, e lá se foi juntar ao resto dos companheiros. Diz que o conhece que a outra alternativa para ele durante a viagem, é cantar, dançar e tocar pandeireta todo o caminho, cativando todos com a sua alegria. Estranha forma de lidar com a pressão pensaram muitos. Na hora em que todos os outros fecham as caras com a preocupação, endurecem o olhar e deixam a tensão invadir o corpo, Ronaldinho canta ou dorme. Depois em campo, foi mágico, como sempre. Toques de outro mundo, fintas, deu o golo com um passe teleguiado, e só não marcou porque a bola quis mansamente bater no poste. No fim de cada um destes lances, ainda por cima ri-se... Sinceramente, quando vejo jogar Ronaldinho muitas vezes nem sei se estou a ver a meia final da Champions ou uma peladinha de rua jogada por meninos descalços num baldio de terra. O segredo é que Ronaldinho joga da mesma forma em ambos esses locais. Na rua, quando era miúdo.

Em S.Siro, visto por milhões de espectadores por todo o mundo. São assim os grandes craques do futebol em qualquer época. Era como dizia Di Stefano quando lhe perguntavam como foi a sua entrada no grande futebol sénior. Dizia ele que, não sei, acho que jogávamos tão bem na rua que, no final, acabaram por nos pagar para o fazer diante de toda a gente, num estádio com 70 mil pessoas. Em campo, portanto, não adianta muito em pensar como marcar Ronaldinho. O seu talento vai encontrar sempre uma saída. Sinceramente, ficaria mais preocupado em dormir no mesmo quarto que ele do que ter de jogar contra ele. Digo isto porque no final desta história, lembrei-me de outra que era contada sobre Olarticoechea, companheiro de quarto de Maradona nos estágios da selecção argentina. Enquanto Maradona dormia a sono solto, a ele, durante a noite, custava muito adormecer, Dava voltas na cama e nada. Ficava com os olhos abertos espetados no tecto até que, desistia, levantava-se e ia sentar-se no bar. Foi então que um dia, um director o descobriu e perguntou-lhe: mas o que fazes aqui levantado a esta hora da madrugada? - “O que faço?” perguntou Olarticoechea- “É que não consigo dormir, estou no mesmo quarto de Maradona...” - E então?, não me digas que ele faz muito barulho… -Não, não, o pibe dorme como um anjo toda a noite. -Então, não entendo… -Não entende? É que não aguento a responsabilidade. Imagine se lhe acontece alguma coisa? O que vou dizer ao mundo no dia seguinte?” Pois…, revendo esta semana, não me admira se com o companheiro de quarto de Ronaldinho aconteça a mesma coisa…

Os avançados marcam golos, os defesas ganham os jogos

Ronaldinho no País das MaravilhasHá quem acredite que são os avançados a ganhar as finais, mas são as defesas que ganham campeonatos. Ou seja, num jogo só, em apenas noventa minutos, pode o talento individual ofensivo fazer a diferença, mas no conjunto de 34 ou 38 jornadas, é a consistência defensiva que dá a verdadeira dimensão competitiva a qualquer equipa. Sem isso, é impossível conquistar títulos. As competições europeias são, neste sentido, um mundo à parte, onde avançados e defesas, ou seja poder ofensivo e segurança defensiva tem de coexistir para dar dimensão a uma equipa, pois mais do que uma prova de regularidade por pontos, elas tem de disputar uma sucessão de eliminatórias que decidem ou não a continuidade em prova. Esta é uma ideia que se pode facilmente detectar nos quatro semi-finalistas da Liga dos campeões, Barcelona, Milan, Villarreal e Arsenal. Cada uma deles trabalhou esta época sobretudo a fase onde era menos forte e a equipa arriscava perder o equilíbrio. Os casos mais evidentes, são o Barcelona e o Arsenal, duas equipas que cresceram muito em termos defensivos em comparação com a época passada. O Arsenal de Wenger é o caso mais evidente. Na capacidade de ensinar o seu meio campo a defender, recuando os seus alas, Pires, Reyes ou Hleb, para fechar os flancos, esteve a base da proeza táctica de Wenger que, nos dois jogos, montou um falso 4x5x1 que depois partia em velocidade para o contra-ataque.

Foi, talvez, esta maior noção ofensiva que faltou ao Lyon para tornar o seu belo futebol mais frio em termos competitivos. Por isso, caiu nos quartos-final frente ao Milan, o ultimo onze italiano resistente, sempre cínico e fiel à cultura táctica defensiva do futebol italiano. Nunca se mostrou perturbado com a maior beleza futebolística do Lyon e, a dois minutos do fim, detectou-lhe um erro posicional a fez a diferença. No fundo, faltou ao belo Lyon essa maior frieza e equilíbrio defesa-ataque nos momentos decisivos. É mais uma derrota dos românticos. Depois de um jogo onde até mostrou ser mais equipa, os campeões franceses caíram quando quiseram contrariar a sua natureza e, em vez de assumir o jogo no meio campo adversário, tentaram passar a defender o resultado. Houlier até leu bem o jogo, pois o Milan tinha acabado de passar a jogar com um extremo, Serginho. Então, o técnico francês respondeu tirando um extremo e meteu mais um lateral, mas com isso a equipa até parece que até estremeceu com este golpe contra-natura. Deixou de procurar defender longe da sua área, recuou, recuou, e acabou por perder. Faltou-lhe, nesses momentos da verdade, a tal noção que dizia no inicio de se são os avançados a fazer os golos, são os defesas que verdadeiramente ganham os jogos.