Schuster, o anti-Capello

25 de Julho de 2007

Schuster, o anti-Capello

Deixa sempre no ar um aroma a bom futebol, quando um treinador chega a um clube e, na apresentação, em vez de trabalho, promete espectáculo. Schuster entra no Real Madrid com a aura de anti-Capello. Com a promessa de futebol ofensivo. Convinha, talvez, explicar que esses resultados espectaculares de 4-3 ou 3-2, também podem, por vezes, ser ao contrário. Quando isso suceder, será igual a admiração por este conceito estético do jogo? Mesmo tendo em conta que estamos, historicamente, numa casa de bom futebol, é difícil que assim seja.

Podem rotular o seu futebol de muito táctico, devoto de jogadores mais duros do que criativos, mas na base dos êxitos de Capello está a perfeita noção do que é hoje o futebol moderno. Há uma cena em Casablanca, em que, no bar de Rick, um homem fica surpreendido por ver que Victor Laszlo, membro da resistência, ainda estava vivo. “Monsieur, julgava-o morto. Recebemos quatro vezes a notícia de que tinha morrido”. O herói olha-o e responde: “Como pode ver, pelo meu aspecto, foi verdade das quatro vezes!”. Lembrei-me desta cena, ao ver como Capello morreu e renasceu várias vezes ao longo da época em Madrid. O seu perfil esfíngico nunca se alterou. No fim, afastado em nome do bom futebol, retira-se com a superioridade sinistra do vencedor que ninguém gosta mas todos temem. Repare-se que hoje, em vez dos jogadores, quando falamos das grandes equipas, definimo-las como propriedade dos seus treinadores.

O Chelsea de Mourinho, o Liverpool de Benitez, O Milan de Ancelotti, o Real Madrid de Capello. A excepção talvez seja o Barcelona. Antes de Rijkaard, pensamos em Ronaldinho e companhia. Emocionalmente, ficamos logo mais próximo dela. O jogador significa liberdade. O treinador lembra amarras tácticas. Mas, basta recordar como na última final da Champions, um mero ladrão de bolas como Ambrosini roubou o protagonismo a Kaká para entender os actuais limites desse ideal romântico. Com Schuster, o Real pretende, no fundo, devolver a propriedade da equipa aos jogadores. Mas, claro que o louro alemão tem a sua filosofia de jogo. Em termos de sistema, entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2. Dos seus anteriores projectos em Espanha, em equipas pequenas (Xerez, Levante e Getafe) ficaram sempre excelentes inícios de época. Até meio da prova, o belo futebol coexistiu com bons resultados. Depois, todas quebraram. Umas mais que outras.

No Levante acabou mesmo demitido. Em Madrid, a margem de erro que beneficia, advêm, paradoxalmente, do triunfo feio de Capello. Só depois de voltar a ganhar, com um futebol pouco sedutor para os seus ideais de beleza futebolística, é que o clube reconquistou espaço para tentar ganhar, jogando bonito. Ironias do destino.