Seedorf, Estrelas de quinta dimensão

21 de Abril de 2007

John Lambi nunca foi um treinador famoso no futebol inglês, mas existiu uma tarde em que pensou estar muito perto. Sentava-se no banco do modesto Patrick Thristle e foi quando um dos seus avançados chocou com um defesa, perdeu a memória em pleno relvado e nem sabia quem era. Quando o massagista lhe comunicou o sucedido, Lambi abriu os olhos de esperança: “Perfeito! Diga-lhe que é o Pele e que volte rapidamente para o campo!”. Não sei se o avançado meio torpe do Thristle incorporou mesmo a personalidade do Rei e desatou a fintar toda a gente e a marcar golos, mas muitas vezes, ao ver jogos, lembro-me desta história pela facilidade com que alguns jogadores aparecem e desaparecem do jogo. Passam longos minutos quase desligados do mundo, e, de repente, acende-se luzes na sua cabeça, e fazem uma jogada deliciosa, um golo até. Como não acredito que tal seja obra de amnésias temporárias, o enigma permanece. No meu altar de craques por quem tenho devoção mais profunda, está um jogador que viveu muita da sua carreira entre estes dois universos. Seedorf. Mais ninguém venceu três Liga dos Campeões em três clubes diferentes. Joga de nariz empinado, discute com o treinador e o mundo se for preciso, mas alterna jogos e jogadas fabulosas com outras exibições amorfas e rebeldes.

Seedorf, Estrelas de quinta dimensãoA forma como resolveu, com um golo e um passe de génio, o jogo contra o Bayern, mostraram o Seedorf fantástico. Há jogadores que encaixam sem dificuldade nos mecanismos colectivos de uma equipa. Outros têm mais dificuldade. Pelo estilo, pelo temperamento. A carreira Seedorf viveu tempo demais nesta segunda fase. Pelo seu estilo e visão de jogo, seria, nas tendências do futebol moderno, um pivot-defensivo quase perfeito. O seu ego queria, porém, algo mais. Ser um 10. Com essa ambição não correspondida por vários treinadores que foi encontrando, desligou-se muitas vezes do seu bom futebol. No Milan, acabou como um 8, partindo da ala esquerda para, depois, soltar a sua personalidade de craque. Ancelotti vai lidando com o seu carácter e o onze ganha outra dimensão construtiva de trás para a frente quando ele pega na bola e transporta-a até à área adversária. Encaixa em qualquer mecanismo colectivo desde que este esteja sob seu controle.

Mais do que nunca, o grande sonho da imprensa na actualidade é conseguir vender a mais profunda intimidade de uma equipa de futebol. Balneário e gabinetes. Não é fácil, claro. Mais difícil, porém, é decifrar a mente de Seedorf. Ele nunca perde a consciência em campo mas como é usual desconfiar do jogo, nesses momentos, ao treinador e seus admiradores, só resta mesmo esperar que ele volte a recuperar a memória. Quando o faz, resolve-se o enigma e o jogo é outro.