SEPP HERBERGER (1897-1977)

07 de Maio de 2007

Um homem, no entanto, vivera esta aventura poliltico-desportiva num plano superior, concentrado na sua paixão pelo futebol: Sepp Herberger, uma espécie de eremita do futebol por entre uma nação tresloucada pela guerra. Indiferente á política, diplomara-se Instrutor de Futebol pelo Instituto Germânico de Educação Física de Berlim, assumiu o comando técnico da selecção em 1936, substituindo Otto Nerz, do qual fora adjunto desde 1932, e que liderara a NationalManschaft nos dez anos anteriores, desde 1926, até ser afastado após uma humilhante derrota frente á Noruega nos Olímpicos de Berlim. Durante o seu reinado, o futebol alemão, carente de uma identidade, nunca se tornou uma grande potência, sendo o melhor que conseguira um terceiro lugar no Mundial-34, após derrotar a Áustria de Sindelar, por 3-2. Ao longo de 30 anos, desde que em 1908 realizara frente á Suíça, derrota por 5-3, o seu primeiro jogo internacional, a Alemanha nunca conseguira, no entanto, formar uma selecção capaz de exibir em campo a qualidade do seu futebol, cuja implantação no território teutónico datava já de princípios da década de 1870.

Desde o primeiro momento que assumiu os destinos do futebol alemão, Herberger tinha na mente criar-lhe um estilo próprio. Uma identidade que os destinguisse dos demais. Em meados dos anos 40, finda a guerra, o homem que se tornaria uma das figuras mais populares do futebol germânico, tinha a missão de, dentro dos relvados, recuperar a imagem de um país que toda a Europa ainda via como uma ameaça. No passado de Herberger estava, porém, a fama de muitas vezes ter chamado á Nationalmanschaft jogadores que não precisava só para os livrar do destino da guerra. Sabia em que batalhões estavam, chegoSEPP HERBERGER 1897-1977u a convocar mais de 30 jogadores por jogo, num tempo onde não se podiam fazer substituições e ganhou o respeito e admiração de todos eles. Era um grande estudioso do comportamento humano, que sabia gerir com uma subtil mestria as diferentes sensibilidades. Só assim seria possível ultrapassar o tempo de guerra sem ser beliscado no seu prestígio. Depois de ser visto como o treinador do regime nazi, passou a ser visto, finda a guerra, como o treinador da recuperação alemã. Suspensa pela FIFA, a Alemanha esteve ausente do Mundial-50 (o único em toda a sua história). Entretanto, Tio Sepp, como ficou famoso no seio do futebol alemão, congeminava a nova identidade germânica. Tacticamente, como morfologicamente estavam muito próximos dos ingleses, com uma constituição física semelhante, adoptou o clássico WM de Chapman. Acrescentou-lhe, no entanto, uma dura marcação individual na defesa –a temível madeckung- regente de um estilo baseado na condição física, rigor táctico e potencial atlético. O embrião do futebol-força numa era em que o mundo idolatrava o técnico e artístico futebol da Hungria.

SEPP HERBERGER 1897-19771Embora sem grande passado como jogador, Herberger fora um médio influente em equipas como o Waldhof e o Tenís Borussia Berlino, onde findou a carreira, após realizar três jogos pela selecção alemã. Mas, mais do que jogar, a sua paixão estava em estudar o futebol e desbravar os seus segredos tácticos e técnicos. Diz quem o conheceu que era um homem cativante que tratava os jogadores com grande familiaridade, longe do estilo semi militar que imperava na época. Apenas era intransigente num aspecto: nenhum jogador poderia fumar ou beber álcool quando concentrado com a equipa. Num tempo em que não havia televisão e as noticias demoravam dias a chegar, passava muito tempo a viajar pelo mundo observando os vários estilos de futebol, tornando-se em pouco tempo numa verdadeira enciclopédia futebolística viva. Por isso o austríaco Hugo Meisl, que o conhecera numa das suas visitas a Viena, dizia que no mundo só existiam três pessoas que sabiam verdadeiramente de futebol: ele próprio, claro, o seleccionador italiano Vitorio Pozzo e o alemão Herberger, nessa altura sem créditos no mundo do futebol internacional. Decidido, Herberger reconstruiu com as suas mãos, todo o edifício do futebol alemão, lançando as bases técnicas e tácticas sobre as quais ainda hoje ele caminha, 50 anos depois. Para o fazer reuniu um grupo de homens com um carácter inquebrantável, liderado por Fritz Walter, um maestro do meio campo. Pequeno para a estatura gigante dos germânicos, evidenciava, no entanto, uma capacidade física invulgar para a época. Rezam os registos da época, que, quando jogava, o meio capo era todo dele. Estava em todo o lado, e depois executava passes, curtos ou em profundidade, com uma precisão notável.

Quando chegou á Suíça para disputar o Mundial-54, a Alemanha não estava, no entanto, entre as grandes favoritas. Todos os olhos estavam virados para a selecção da Hungria, invencível há três anos e que iria defrontar a Alemanha na ronda inaugural. Como eram apurados dois de cada grupo, Herberger não dera muita importância ao facto e assim, claramente superior á Coreia do Sul e Turquia, as outras equipas do grupo, fez alinhar no jogo contra os húngaros uma selecção de reservistas, colocando em repouso 5 titulares, entre eles os avançados Ottmar Walter e Schafer. Inclementes, os húngaros golearam por 8-3! Herberger ganhara, no entanto, uma mais valia enorme. Ficara a conhecer melhor a selecção da Hungria, fizera descansar os seus homens e deixara os húngaros convencidos da sua superioridade. O grande golpe surgira, porém, com a impiedosa marcação individual movida por Liebrich sobre o grande Puskas, massacrado todo o jogo pelo duro alemão que, num lance dividido, teve uma entrada duríssima, provocando-lhe uma lesão que o impediria de actuar nos jogos seguintes.

A lesão de Puskas, um golo aparentemente mal invalidado aos húngaros no jogo da final que daria o 3-3 e, sobretudo, uma forte suspeita de uso de substâncias proibidas. Dizia-se ter sido o sucesso do doping, um monstro então ainda pouco conhecido no desporto mundial. Um facto, porém, é indesmentivel e ajuda a suportar a tese do doping: poucas semanas depois da final seis jogadores da selecção alemã, Turek, Kohlmeyer, Librich, Mai, Otmar Walter e Morloch, seriam vitimas de um forte ataque de icterícia que os levou a ter de parar de jogar. O próprio Herberger se sentiria mal e passaria várias semanas internado para uma cura especial no retiro hospitalar de Bad Mergentfeim. Nunca nada seria provado. Ficou a suspeita, só por si injusta para a memória de Sepp Herberger, um homem fabuloso e um treinador de futebol com conceitos físicos e técnicos avançados no tempo. No plano mental, era um grande motivador. Com ele os alemães, tradicionalmente frios, aprenderam a soltar as suas emoções. Mais do que um simples treinador, foi um pai e um psicólogo para um futebol e um país ferido no seu orgulho.

Apesar de continuar na vanguarda dos conhecimentos futebolísticos, Herberger não conseguiria, no entanto, repetir nos Mundiais de 58 e 62, o sucesso de 54 Sepp Herberger estivera um quarto de século, entre 1936 e 1962, á frente da NationalManschaft. Durante todo este tempo conservou sempre o mesmo olhar pleno de esperança. Como jogador só jogara três vezes com a camisola nacional, mas como treinador seria eternizado como o fundador da dinastia táctica alemã, o homem que moldou o estilo do futebol alemão, cuja força mental se espelha ainda nos suas estrelas de fim de século, como o fabuloso Lotthar Mathaus para quem um alemão jamais se desconcentra. Ele nunca é batido. É uma questão de mentalidade, de orgulho e vontade. Diante da adversidade e das circunstâncias difíceis, ele supera-se. É essa a sua grande força! Em 1977, depois de uma vida dedicada ao futebol, Herberger morria, em, com 80 anos. Sorveu futebol até ao último minuto.

Conta-se que, durante os seus últimos anos de vida, era costume receber em sua casa jogadores e técnicos que, cativados pela sua figura, ficavam horas, enquanto bebiam café e comiam bolos, a ouvir o mestre contar histórias de futebol, ensinamentos preciosos para, em qualquer época, entender a evolução do futebol.